Não é exatamente verdadeira a máxima de Tolstói sobre a semelhança fundamental entre as famílias felizes e o signo da exclusividade que rege as famílias pouco afortunadas. Analisando-se a questão com um pouco mais de cautela, conclui-se logo que, também no infortúnio, os microcosmos feitos de pai, mãe e filhos, hoje muito mais amplos, células minúsculas do organismo mastodôntico chamado humanidade e fracassados por razões sobre as quais não é custoso dissertar, dispõe de vários pontos de intersecção. Fraturas e reencontros marcam a dinâmica de pessoas que, querendo ou não, dividem sua intimidade e, além desses, um elemento a mais atua em “Uma Questão de Família”. Evan Oppenheimer joga luz sobre essas relações a partir de uma fatalidade, chegando a um comentário tocante sobre passado, futuro, matéria e transcendência.
Curvas sinuosas
O que entendemos por vida remonta, em verdade, a uma ideia de empenho por viver, isto é, a vida nada mais seria que uma sequência de especulações, descontroladas e avessas a métodos, quanto ao que o homem deseja e furta-se a desejar, num e no outro caso seguindo padrões determinados. É por aí que Oppenheimer se norteia para apresentar seus personagens, caminhando por Nova York como se fossem os donos da cidade, mas sem conseguir aplacar suas rivalidades e inseguranças, especialmente depois que uma tragédia se faz enunciar. Atento, o diretor-roteirista tem o cuidado de amarrar as subtramas desde o princípio, explicando como os Meyerson lidariam com mazelas que surgirão antes do que pensam. Quando Terri Meyerson comunica aos outros que a filha morrerá dali a três meses, essa notícia, claro, tem um efeito devastador sobre todos, mas também parece ser o gatilho que faltava para uni-los novamente.
A união faz a força
Oppenheimer inspira o espectador a formular hipóteses acerca das circunstâncias que levaram os magníficos Meyerson ao ódio silencioso e corrosivo que acabou por isolá-los, recorrendo a flashbacks que podem parecer exagerados, mas que têm uma razão. Fica cada vez mais óbvio que a resposta está em Terri e Morty, que não por acaso são o coração do filme. Kate Mulgrew e Richard Kind confirmam a suspeita com atuações que equilibram ataque e defesa, mecanismo central na engrenagem que move nossa desgraçada espécie.
Filme:
Uma Questão de Família
Diretor:
Evan Oppenheimer
Ano:
2023
Gênero:
Comédia/Drama
Avaliação:
8/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

