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Prepare-se: Viola Davis está mais feroz do que nunca neste sucesso eletrizante na Netflix

Se alguém ainda acredita que Hollywood abraça revoluções com coragem genuína, “A Mulher Rei” serve como lembrete de que até a história mais pulsante pode ser podada para ficar “consumível”. Há um certo encanto em ver mulheres negras comandando o campo de batalha de um reino que ousou desafiar traficantes de gente; no entanto, o que poderia ser um abalo sísmico no imaginário global torna-se uma rebelião domesticada, algo como um vinho encorpado diluído com água por medo de embriagar demais o público.

A trama se passa no reino de Daomé, onde uma elite de guerreiras, as Agojie, molda o corpo e a mente para a guerra com disciplina quase ritualística. É fascinante perceber ali um contraponto ao desgastado arquétipo hollywoodiano da “mulher forte”, geralmente uma extensão musculosa de fantasias masculinas. Aqui, a força não faz pose: tem cicatrizes, segredos, dilemas morais e fragilidades que não cabem em slogans de camiseta. Só que, quando o roteiro poderia aprofundar os paradoxos que definem um exército que combate o tráfico humano enquanto o próprio reino se beneficia dele… prefere fazer aquele contorcionismo narrativo típico de quem tem medo de lidar com o peso real da história.

Viola Davis, com a ferocidade que lhe é natural, constrói uma líder que não está ali para agradar ninguém, e justamente por isso conquista respeito imediato. Seu olhar carrega tempestades que o filme, ironicamente, tenta conter. Ao lado dela, Lashana Lynch entrega um brilho indomável, enquanto Thuso Mbedu equilibra vulnerabilidade e rebeldia com uma autenticidade que se impõe. As intérpretes criam camadas que não estavam necessariamente no roteiro, quase como se salvassem o filme de sua própria moderação. Quando Hollywood se acovarda, mulheres como elas tomam as rédeas.

O que realmente intriga é observar a batalha estética travada atrás das câmeras. A diretora Gina Prince-Bythewood parece lutar o tempo todo contra uma força invisível que exige suavizar a brutalidade, encurtar as dores, encobrir o sangue. O resultado: coreografias de luta instigantes, mas frequentemente enquadradas por uma câmera nervosa que esconde mais do que revela, uma pena para um enredo que se orgulha da ferocidade feminina. A história de quem enfrentou traficantes não deveria ser enquadrada como se temesse perturbar quem pagou ingresso.

Ainda assim, há momentos de hipnotismo: cantos que ressoam como chamamentos ancestrais, rituais que revelam a força coletiva de um povo que soube transformar violência em identidade e irmandade em escudo político. Quando o filme aposta em cultura em vez de efeitos, algo verdadeiro pulsa. Pena que logo a narrativa corre para o próximo conflito melodramático, inclusive um romance tão deslocado quanto turista tirando selfie em campo de batalha.

Há méritos inegáveis: o elenco entrega grandeza, a ambientação exala vida e a história das Agojie merece ecoar muito além das telas. Mas “A Mulher Rei” é também símbolo de uma contradição que me provoca: como celebrar heroínas africanas enquanto se suaviza o contexto histórico que as tornou necessárias? A resposta Hollywood não oferece, e talvez nem queira.

O filme tenta afirmar que a liberdade se conquista com coragem. Verdade. Mas também se conquista com honestidade. E essa, por vezes, parece cuidadosamente editada na sala de montagem. Ainda assim, é impossível não sair da sessão desejando que as vozes daquelas mulheres ecoem mais alto, talvez num futuro em que não seja preciso pedir licença para contar a história como ela realmente foi.

Filme:
A Mulher Rei

Diretor:

Gina Prince-Bythewood

Ano:
2022

Gênero:
Ação/Drama/História

Avaliação:

7/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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