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Poucos filmes retratam a solidão moderna com tanta ternura: esta comédia romântica argentina está na Reserva Imovision

Prédios antigos e novos, baixos e altos, uns colados aos outros, bagunça conceitual que interfere no jeito de ser dos portenhos, segundo Gustavo Taretto, o diretor do ótimo “Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual”, tece seus comentários acerca de um jeito argentino (e muito particular) de viver a partir da arquitetura de sua cidade, mas seu filme não é só isso. Tratado acerca das várias categorias de solidões numa metrópole cosmopolita e decadente, “Medianeras” se espraia até as zonas verdadeiramente fundas da alma humana escrutinando a vida de um homem e uma mulher, talvez predestinados a dividir suas histórias quando puderem afinal reencontrar-se consigo mesmos. Taretto aproveita-se da fotografia de Leandro Martínez para capturar a alma encantadora das ruas da capital argentina, estabelecendo uma profusão de tons, luzes e, principalmente, sombras. O começo de uma trama bizarramente adorável.

Ansiedade, transtorno bipolar, depressão, pressão alta, obesidade. Martín sofre de quase tudo isso (não, ele não é obeso, embora o diretor-roteirista estique essa corda). O protagonista, um web designer de cerca de quarenta anos, evita sair à rua o quanto pode, o que significa que até suas sessões de psicanálise bissemanais correm risco de fracassar. “O que esperar de uma cidade que dá as costas para o rio?”, pergunta o narrador a certa altura, e, claro, Martín não é o único hipocondríaco neurótico de Buenos Aires. Mariana, uma arquiteta que trabalha como vitrinista, sente na carne os efeitos das maravilhas da gentrificação, que deixa tudo com a mesma cara de qualquer lugar entre o bom e o nem tanto, como uma dondoca nova-rica que vai fazendo uma recauchutagem aqui, outra acolá, e termina se parecendo com a filha mais nova depois de uma noite maldormida. Não há mais lugar na cidade para esses dois espíritos tão torturados quanto livres, e Taretto se socorre de imagens esteticamente perturbadoras como Mariana lavando um manequim debaixo do chuveiro ou Martín acompanhando uma passeadora de cães conduzindo mais de meia dúzia de animais de tamanhos variados ao mesmo tempo para novamente dar destaque a sua intenção de chocar a burguesia. E choca, sem abrir mão da leveza, que se materializa no instante em que os dois se esbarram.

Taretto peca pelo excesso. Se economizasse no fluxo de pensamentos de Martín e Mariana, e se contivesse nas animações gráficas que pululam sem prévio aviso em algum momento, como outra modalidade de susto, decerto facilitaria o trabalho de Javier Drolas e Pilar López de Ayala, atores preciosos, sempre prontos a contornar a obviedade mesmo num trabalho tão pitoresco. Entre uma e outra batalha íntima de Martín e/ou Mariana, o diretor volta ao tema dos espaços públicos como ambientes capazes de fazer aflorar o melhor ou o pior de seus ocupantes, tendendo ao neorrealismo de gênios como o Vittorio de Sica (1901-1974) de “Ladrões de Bicicleta” (1974), ou a “Mundo Grua” (1999), de Pablo Trapero, seu compatriota. “Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual” é outra das pérolas do cinema argentino, pleonasmo de que ninguém enjoa.

Filme:
Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual

Diretor:

Gustavo Taretto

Ano:
2011

Gênero:
Comédia/Romance

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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