A engrenagem narrativa parte de um impulso reconhecível: o desejo de desaparecer quando o afeto vira humilhação. Amanda Woods, vivida por Cameron Diaz, descobre que o namorado a traiu e reage com a única estratégia que domina bem: controle, velocidade e fuga. Iris Simpkins, interpretada por Kate Winslet, ocupa o polo oposto. Ela aceita o abandono com uma docilidade quase dolorosa, mesmo depois de saber que o homem por quem esteve apaixonada, Jasper, papel de Rufus Sewell, vai se casar com outra. O encontro das duas acontece por meio de um site de troca de casas, artifício improvável, mas funcional, que lança Amanda da Los Angeles solar para o interior gelado da Inglaterra, enquanto Iris atravessa o Atlântico rumo a uma mansão californiana. Não se trata apenas de turismo emocional. A troca de cenários funciona como uma suspensão temporária das identidades que ambas aprenderam a sustentar para sobreviver.
Em Surrey, Amanda cruza o caminho de Graham, interpretado por Jude Law, irmão de Iris. A química entre os dois é construída menos por diálogos espirituosos e mais por uma tensão constante entre desejo e defesa. Amanda não chora, não dorme, não se permite falhar. Graham, ao contrário, carrega uma doçura que não pede permissão para existir. A revelação de sua vida doméstica, envolvendo as filhas pequenas, reorganiza completamente o jogo afetivo da personagem de Cameron Diaz. Não há ali um truque melodramático gratuito, mas um deslocamento claro: o homem que parecia leve demais para ser levado a sério revela uma densidade emocional que Amanda nunca soube administrar. A narrativa ganha força justamente quando expõe o desconforto dela diante da intimidade real, longe de discursos românticos prontos.
Do outro lado do oceano, Iris encontra Miles, compositor de trilhas sonoras interpretado por Jack Black em registro contido, quase surpreendente. Ele evita o humor expansivo que costuma marcar sua carreira e constrói um personagem atento, gentil, interessado em ouvir. A relação entre os dois se desenvolve sem pressa, ainda que o roteiro dedique menos tempo a esse arco do que seria desejável. Kate Winslet sustenta Iris com uma vulnerabilidade sem autopiedade, transformando insegurança em gesto cotidiano. O vínculo mais marcante de sua estadia em Los Angeles, porém, acontece fora do romance: a amizade com Arthur Abbott, vivido por Eli Wallach. Ex-roteirista da era clássica de Hollywood, Arthur funciona como espelho e mentor. Ao ouvir suas histórias sobre Cary Grant e o passado da indústria, Iris começa a se enxergar não mais como figurante da própria vida, mas como protagonista possível.
Com mais de duas horas de duração, a narrativa se permite repetir estruturas e reforçar contrastes, o que explica certa sensação de desequilíbrio entre os dois romances centrais. A trama de Amanda e Graham ocupa mais espaço, enquanto Iris e Miles parecem acelerar etapas decisivas. Ainda assim, a previsibilidade não compromete o envolvimento. O interesse não está em descobrir quem ficará com quem, mas em observar como essas mulheres reorganizam a própria autoestima a partir de encontros que não prometem salvação, apenas escuta. O desfecho segue a lógica esperada de uma comédia romântica natalina, mas sem cinismo. O mérito está na recusa em transformar fragilidade em fraqueza e no cuidado em tratar o escapismo como pausa, não como solução permanente. É um filme confortável, sim, mas longe de ser vazio. E talvez seja justamente essa honestidade desarmada que explique por que ele resiste melhor do que muitos romances açucarados lançados na mesma época.
Filme:
O Amor Não Tira Férias
Diretor:
Nancy Meyers
Ano:
2006
Gênero:
Comédia/Romance
Avaliação:
9/10
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Helena Oliveira
★★★★★★★★★★
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