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Posso orar por você? – Revista Bula

Posso orar por você? – Revista Bula

Aconteceu comigo. Eu estava andando pela rua, meio distraído, quando percebi que uma moça vinha em minha direção. Eu não a conhecia, mas ela se aproximou e falou comigo. Achei que ela queria vender algo, mas não tinha nada nas mãos. Será que queria alguma informação? Como eu não entendi o que ela queria, pedi a ela para repetir. E ela repetiu:

— Posso orar por você?

A frase era tão diferente do que eu esperava que demorou para fazer sentido para mim. Depois que o meu cérebro pegou no tranco, eu finalmente entendi, mas não sabia o que responder. O pensamento travou de novo, em busca de uma resposta que não vinha. A moça então tentou me ajudar, repetindo mais uma vez a pergunta:

— Posso orar por você?

Como assim? Para que orar? Por que orar? Como orar? Onde orar? Orar quer dizer rezar, né? Foram muitas perguntas que passaram por minha cabeça em décimos de segundo. Nada contra quem acredita nisso, mas eu nunca tinha visto aquela moça na minha vida. Quem era ela? O que ela pediria para mim em suas orações? Será que ela queria rezar para me livrar dos meus pecados? Ou será que ela pediria para que eu descobrisse a palavra do Senhor? E se ela orasse para que eu entendesse a necessidade de doar dinheiro para o pastor dela? Ou mesmo para que eu entrasse para a igreja dela?

Mas podia não ser isso. Será que existia a possibilidade de que ela quisesse orar por saúde, paz, dinheiro, coisas boas para mim? E, se fosse assim, eu poderia sair perdendo se não contasse com as orações da moça. E pensei ainda outra coisa: se eu negasse o seu pedido, existia a possibilidade de ela retaliar e rezar contra mim? Caramba!

Mas e se eu pedisse para ela orar, mas não por mim diretamente? Podia pedir para ela orar pelo Fluminense, para que meu time ganhasse todas as partidas e campeonatos que jogasse. Ou orar contra os times rivais. Ou pela seleção brasileira, para que o Ancelotti acertasse o time e o Brasil ganhasse a Copa. Mas será que ela aceitaria rezar por questões futebolísticas?

E se eu pedisse pelo Brasil? Que ela orasse para que o país melhorasse, que saísse dessa briga entre extremos, do nós contra eles, e finalmente entrasse nos eixos? Não sei se ela toparia; vai que ela tivesse uma posição. Então, ela provavelmente rezaria pelo seu lado da contenda e talvez piorasse a situação.

Todos esses pensamentos cruzaram o meu cérebro em poucos segundos, e só o que eu consegui dizer para a moça foi:

— Não! Não precisa orar por mim! — Eu quase gritei.

Sim, fui um pouco ríspido, um pouco não, muito! Mas a moça não se perturbou; seguiu em frente, em direção ao próximo candidato para as suas orações.



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