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Por meio dos dados – Brasilturis

O anúncio de que o Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais em 2025, um crescimento de 37,1% em relação a 2024, foi celebrado pelo Ministério do Turismo (MTur) e pela Embratur como um marco histórico para o turismo receptivo. No entanto, à medida que análises mais detalhadas emergem, especialistas e representantes do setor privado passam a questionar não apenas a transparência do cálculo, mas também se o volume registrado se traduziu, de fato, em impacto econômico proporcional na hotelaria e em outros elos da cadeia.

Para Mariana Aldrigui, professora e pesquisadora de Turismo da USP, o crescimento é plausível, mas exige leitura cuidadosa. “É um crescimento perceptível e resultado da soma de diferentes esforços”, afirma. Ainda assim, ela ressalta que o número divulgado está “sob a sombra do uso de uma metodologia que o MTur se recusa a compartilhar”, especialmente no que diz respeito à inclusão de brasileiros residentes no exterior.

É importante considerar que, a partir do cruzamento de dados da Polícia Federal (PF), cerca de 27% do total divulgado em 2025 corresponde a brasileiros, o que reduziria o número de estrangeiros efetivos para algo em torno de 7 milhões. “Esse grupo sempre foi incluído nos cálculos, mas a última pesquisa robusta de demanda realizada no país tem mais de 10 anos e não pode mais ser usada como referência”, observa.

A pesquisadora também chama atenção para o ritmo do crescimento. “O turismo mundial cresce, em média, de 4% a 5% ao ano. Saltos muito acima disso tendem a ser ocasionais. Nosso país sequer tem estrutura física para suportar dois anos consecutivos nesse ritmo”, alerta Mariana.

Métodos escusos e controvérsias

A principal crítica recai sobre a falta de transparência metodológica, evidenciada por recentes controvérsias. Poucos dias após a divulgação do recorde, alguns veículos da imprensa logo levantaram questionamentos sobre alguns dos dados, em especial o pico de entradas no Brasil oriundas da Venezuela. De acordo com o relatório do MTur, houve um aumento exponencial de 8,6 mil em 2024 para 169,3 mil visitantes venezuelanos em 2025, alta de quase 20 vezes em apenas um ano. Cerca de 60% deles entraram no País por via terrestre por Roraima, um dos estados que faz fronteira com a Venezuela.

Além disso, os dados da PF apontam que o fluxo de visitantes venezuelano cresceu desproporcionalmente no sentido do Brasil, praticamente o dobro de entradas do que saídas, enquanto que os registros de entradas e saídas dos demais países latino-americanos permaneceu proporcional. Diferentemente do ministério, a agência de segurança também não encontrou nenhum pico desproporcional ano a ano, posto que já havia registrado 97,6 mil entradas de venezuelanos em 2024.

Apesar da incongruência nos dados, o MTur argumenta que faz seus cálculos de chegadas de turistas internacionais em parceria com a Embratur e a PF, com base nos registros migratórios, que incluem entradas e saídas. Segundo o ministério, se aplica um recorte específico para identificar viagens de turismo, em conformidade com as Recomendações Internacionais para as Estatísticas da ONU Turismo 

Para Mariana, não faz mais sentido que, em um ambiente de alta digitalização, o tratamento desses dados seja mantido em sigilo. “Bastaria divulgar os dados brutos, estado a estado, destino a destino”, defende. Segundo ela, a controvérsia da explosão no percentual de entrada de venezuelanos em 2025 trata-se de um caso emblemático da questão. 

“Não houve um aumento de 1860% no número de turistas venezuelanos no mundo real. Que destino está comemorando esse volume de chegadas, e seu respectivo impacto econômico positivo? Eu ainda não soube de nenhum”, questiona a professora.

Ainda que o volume deste caso de supernotificação não seja suficiente para invalidar o recorde, Mariana aponta um problema de honestidade por parte dos órgãos públicos. “Se há tranquilidade para mentir descaradamente nesse caso, haverá em outros. Em breve, nossos recordes serão apenas uma fantasia do Ministério para gerar manchetes”, prevê a especialista.

Mariana acrescenta ainda que o episódio fere também um princípio humanitário, ao tratar fluxos migratórios como turismo. “Nossos vizinhos venezuelanos precisam de nossa ajuda com serviços de saúde, acolhimento e segurança, e estão longe de se comportarem como mercado consumidor relevante, alvo de investimentos e promoção, por exemplo”, reforça.

Questionada sobre o nível de detalhamento metodológico e transparência em relação a outros destinos relevantes no cenário internacional, Mariana aponta que o País melhora a cada ano a divulgação dos dados que dispõe, mas que os recursos destinados para tal desenvolvimento ainda são escassos. “O Brasil não faz praticamente nenhum investimento na coleta de dados relevantes, contínuos e necessários para oferecer ao mercado de modo a gerar inteligência doméstica, direcionar políticas estratégicas, orientar investimentos, em especial de pequenos empresários”, salienta.

“Nós não temos nenhum padrão de exigência na regularidade ou qualidade de dados, e aceitamos tranquilamente as mentiras e os exageros nos dados do Turismo. É mais comum o MTur gastar milhões com shows esvaziados em eventos como o Salão do Turismo do que contratar uma pesquisa de demanda anual, e quase ninguém com voz ativa reclama disso. Ao contrário, até aplaudem”, critica Mariana. “A cobrança do rigor metodológico e da transparência, porém, também precisa acontecer por parte dos pesquisadores, dos jornalistas e de toda a sociedade civil”, adverte a especialista.

O recorde chegou aos hotéis?

Do lado da hotelaria, os dados confirmam crescimento do turismo internacional, mas em patamar inferior ao avanço de 37,1% divulgado pelo governo, indicando um descompasso entre o volume oficial de chegadas e o impacto efetivo na hospedagem.

No caso da Atlantica Hospitality International, rede com atuação nacional, Guilherme Martini, vice-presidente sênior de Operações, Marketing e Vendas, afirma que houve aumento de 5,6% no volume total de hóspedes estrangeiros em 2025 em relação a 2024, percentual que sobe para 12,4% quando há o recorte focado em empreendimentos voltados ao lazer.

Na comparação com o período pré-pandemia, o avanço é expressivo, com crescimento de cerca de 128% em relação a 2018 e 2019. Ainda assim, Martini reconhece que o desempenho não acompanha, de forma direta, o crescimento de 37,1% nas chegadas internacionais. “Em destinos específicos, os incrementos superaram a média, chegando a 50% em comparação a 2023”, afirma, citando o impacto pontual da COP 30, em Belém, como fator decisivo para alguns mercados.

Segundo o executivo, houve diversificação na origem dos hóspedes, com aumentos vindos da África (+44%), América Central (+22%), Ásia (+20%) e Europa (+7%), movimento fortemente influenciado por eventos internacionais. Os números consolidados de diária média, ocupação e RevPAR ainda estão em fechamento, mas Martini indica que o comportamento dos hóspedes estrangeiros não destoou significativamente do mercado doméstico em datas e destinos comparáveis.

Individualmente, o retrato dos empreendimentos hoteleiros também é de crescimento, porém ainda sem aderência plena ao recorde nacional. André Genova, gerente geral do Transamerica Executive Paulista, em São Paulo (SP), relata que o hotel acompanhou o crescimento médio de desembarques estrangeiros na capital, estimado entre 21% e 25%, abaixo do percentual nacional. “Ainda assim, foi suficiente para bater recordes históricos de faturamento local”, relata. 

O desempenho foi consistente ao longo do ano, com picos no primeiro trimestre e em novembro, impulsionados por grandes eventos como o GP de Fórmula 1, a NFL, a Bienal e o The Town. Para Genova, o perfil do visitante também mudou, com avanço do turismo de experiência e esportivo, além do tradicional corporativo. Tais elementos também resultaram em um gradual aumento na taxa média de ocupação hoteleira, diária média, RevPAR e gastos de turistas estrangeiros.

Também localizado na capital paulista, o Radisson Oscar Freire registrou crescimento consistente do público internacional ao longo de todo o ano, refletido em indicadores hoteleiros mais saudáveis. Como destaca Raissa Neri, coordenadora de Serviços e Operações, o desempenho está diretamente relacionado à ações de promoções, programa de fidelidade e principalmente a mudança de marca ocorrida em 2019, que ampliou a visibilidade do hotel no mercado global e contribuiu de forma significativa para a atração de um maior volume de clientes internacionais.

“O crescimento do público internacional no Radisson Oscar Freire foi positivo, porém não ocorreu na mesma proporção do avanço das chegadas internacionais divulgado pelo governo”, revela Raissa. “Ainda assim, o resultado demonstra uma evolução consistente da demanda internacional e a continuidade do fortalecimento desse segmento para o hotel”, pontua a coordenadora.

Falta de evidências consolidadas

Para Mariana Aldrigui, a ausência de equivalências claras entre os números oficiais e indicadores do setor privado é um dos principais pontos de atenção. “Houve crescimento em todos os setores, mas ainda não vimos relatórios que mostrem o impacto real”, afirma. Ela questiona, por exemplo, como a variação de ocupação foi percebida pelas associações hoteleiras, se houve mudança significativa em destinos de fronteira e se a permanência média influenciou a geração de empregos.

Procurado pela redação do Brasilturis, o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) informou não possuir dados que colaborem com a análise, enquanto que a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) revelou não ter consolidado a taxa média de ocupação para os anos de 2024 e 2025, bem como os braços estaduais indagados, que não retornaram com os resultados até o momento da publicação desta matéria.

O Sindicato Patronal dos Meios de Hospedagens do Rio de Janeiro (HotéisRio), por sua vez, confirmou crescimento significativo no número de hóspedes internacionais em 2025, com destaque para os argentinos e chilenos. “O movimento percebido pela hotelaria vai na mesma direção do crescimento apontado, embora o percentual observado nos hotéis não seja homogêneo e, em alguns casos, apresenta crescimento mais moderado, dependendo do destino e do mix de mercados emissores”, declara Alfredo Lopes, presidente da entidade.

Embora não tenha apresentado dados, Lopes acredita que a tendência geral percebida pela hotelaria segue o crescimento apontado pelos números oficiais de Turismo, com aumento dos indicadores. “A diária média apresentou evolução, porém de forma mais contida, pressionada por custos operacionais e pela competitividade do mercado”, citando a concorrência desleal das plataformas de vendas de hospedagens.

Ainda assim, a HotéisRio reconhece a necessidade de validar na prática os recordes anunciados pelo poder público por meio de dados cruciais do setor. “Consideramos fundamentais indicadores como taxa de ocupação, diária média, RevPar, tempo médio de permanência e rentabilidade operacional, além do cruzamento com dados de sazonalidade, perfil e origem do hóspede”, explica. 

Na avaliação de Mariana, apenas o cruzamento de dados como empregos permanentes, abertura e longevidade de empresas, além da arrecadação real de impostos, permitiria afirmar que o turismo internacional está atuando como vetor consistente de desenvolvimento econômico e social. “Sem isso, temos apenas indícios”, reforça a especialista, lembrando que os empregos do setor seguem entre os de menor remuneração.

De acordo com o governo federal, “o recorde de turistas internacionais é reflexo direto do fortalecimento das políticas de Turismo e do trabalho estratégico para melhorar e potencializar a imagem do Brasil no exterior, com a realização de campanhas em mercados prioritários; ampliação da presença em grandes feiras e eventos; ampliação da conectividade aérea e da oferta de rotas; além da melhoria da infraestrutura turística”. 

“Para o Governo do Brasil, o recorde de chegadas internacionais resulta da combinação entre o fortalecimento das políticas de turismo e a retomada do papel do Brasil como referência no cenário internacional”, conclui a Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República.

Quanto ao peso efetivo das ações da Embratur para o crescimento observado em 2025, Mariana reconhece que o papel da agência foi muito relevante. “Pautou discussões, reorganizou a imagem internacional e participou de negociações para atrair voos”, afirma a especialista. Ainda assim, ela reforça que o resultado não pode ser atribuído apenas à promoção institucional. Investimentos privados, melhoria de serviços e um momento internacional favorável ao Brasil, inclusive no campo dos negócios, também pesaram no resultado.

Nesse sentido, Mariana destaca que o Brasil vive um boom argentino que pode não se sustentar no médio prazo, posto que é reflexo de uma política econômica estrangeira que pode ou não se manter. O mesmo com relação ao Chile e aos Estados Unidos. 

“Resta saber: está claro para o setor que se o número cair não se trata de fracasso da promoção? Houve orientação para os empresários do sul e sudeste que este número é frágil e precisa ser acompanhado com muita cautela?”, questiona Mariana. “A política pública de Turismo não deve trabalhar só no intervalo de 6 meses, temos que olhar para os próximos 5 a 10 anos”, reforça.

Para 2026, o cenário é de continuidade positiva, mas com cautela. Na hotelaria, a leitura converge para manutenção ou leve crescimento, sustentada por uma agenda robusta de eventos internacionais e expansão da malha aérea.  Em conformidade com essas expectativas, Mariana avalia que o Brasil seguirá atraindo visitantes, especialmente se a conjuntura geopolítica da América Latina permanecer estável. Ainda assim, reforça que o país segue excessivamente dependente da alta temporada. “É isso que precisa mudar”, finaliza a pesquisadora.



Fonte

Redação

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