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Poesia e dureza: filme com Barry Keoghan é imperdível

Andrea Arnold é uma cineasta britânica experiente, vencedora do Oscar pelo curta-metragem “Cow” e diretora de filmes conhecidos, como “O Morro dos Ventos Uivantes” (2011), “Fish Tank” (2009) e “American Honey” (2016). Seus enredos costumam abordar jovens marginalizados, famílias disfuncionais, crianças e adolescentes em ambientes de instabilidade financeira e emocional. São personagens que vivem em espaços degradados, em relações familiares complexas, marcadas pela precariedade e pela necessidade de resiliência.

Em “Bird”, longa-metragem de 2024 estrelado por Barry Keoghan e Nykiya Adams, a narrativa gira em torno de Bailey, uma garota de 12 anos entrando na puberdade, que vive com o pai em um bairro periférico no condado de Kent, em meio a uma vizinhança marginalizada. Seu pai, Bug (Keoghan), cuida de Bailey e Hunter (Jason Buda), filhos de mães diferentes, e anuncia seu casamento com a nova namorada, também mãe solteira, Kayleigh (Frankie Box).

Apesar do apartamento sujo e precário, e das limitações materiais da família, Bug é um pai presente, preocupado com a segurança e o bem-estar dos filhos. Hunter namora uma menina de classe social superior, Moon, e enfrenta dificuldades para ser aceito pela família dela. Ele faz parte de uma gangue de vigilantes do bairro. Bailey tenta se enturmar com a gangue do irmão, mas é rejeitada por ser menina e nova demais. Vagando pela cidade, em fuga do pai e do casamento indesejado, ela cruza seus caminhos com Bird (Franz Rogowski), um sujeito excêntrico que se veste e age de maneira imprevisível.

Bailey o segue até um prédio, onde o vê em busca da mãe. Ela promete ajudá-lo a encontrar sua família e os dois se aproximam. Uma imagem marcante do filme mostra Bird no terraço de um prédio, destemido, como se estivesse prestes a saltar. Conforme a amizade entre Bird, um homem adulto, e Bailey se estreita, percebemos que o encontro não é por acaso. Essa figura enigmática funciona como um ponto de catarse para a menina.

Bailey tem contato com a mãe, uma mulher que cuida de outras três crianças pequenas em uma casa sempre aberta para estranhos e viciados, e que se envolve com homens violentos, expondo os filhos a riscos constantes. A partir disso, compreendemos por que Bailey mora com o pai. Em um diálogo marcante com Bird, ele diz que ela está “sempre resolvendo problemas” e “se virando sozinha”. É verdade: Bailey ajuda o irmão a lidar com a família da namorada, protege os irmãos menores do padrasto violento e agora deseja auxiliar Bird a reencontrar sua família. Embora tente resolver tudo, é Bird quem aparece para ajudá-la a superar um momento decisivo de sua vida.

Bailey vê Bird como um pássaro em algumas cenas, simbolismo que representa sua transformação, a busca por liberdade e discernimento. Neste filme, Arnold permite que o realismo fantástico entre com maior força em sua narrativa, de modo mais explícito para os espectadores. Muitas cenas foram improvisadas e interpretadas por atores inexperientes, como a própria Nykiya, que dá vida a Bailey. Para inspirar o elenco, Arnold criou uma playlist com 20 músicas que pretendia usar no filme, incluindo faixas do Coldplay e The Verve.

Rodado em película 16mm, com câmera Arriflex 416 e lentes Ultra 16, além de uma lente zoom Canon 10-180mm alugadas da Panavision em Londres, também foi utilizada uma Bolex 16mm em cenas experimentais, como a do patinete. A fotografia foi assinada por Robbie Ryan, colaborador frequente de Andrea Arnold. Ele privilegiou luz natural, câmera na mão (trêmula e em travelling), e a captura de elementos imperfeitos, como rebocos de parede e fios elétricos, para dar uma textura mais orgânica e realista.

A câmera está quase sempre na altura dos olhos dos personagens, um recurso que busca gerar maior empatia do público. Os planos são próximos, acompanhando corpos, expressões e gestos, tornando-nos mais íntimos da história. Afinal, o objetivo de Arnold é que entremos no mundo particular de Bailey. Apesar da dureza social, os momentos de fantasia proporcionam escapes, poesia, epifanias e a sensação de liberdade que ressignifica sua trajetória.

Filme:
Bird

Diretor:

Andrea Arnold

Ano:
2024

Gênero:
Drama/Fantasia

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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