“Pequenas Cartas Obscenas”, dirigido por Thea Sharrock, parte de um problema aparentemente banal para expor como julgamentos rápidos podem virar tragédia pessoal. Em Littlehampton, uma cidade pequena onde todos sabem da vida alheia, cartas anônimas repletas de palavrões começam a circular. A polícia precisa encontrar um culpado, e Rose Gooding (Jessie Buckley) surge como alvo imediato. Ela fala alto, reage sem filtro e já ocupa uma posição vulnerável. Isso basta para que a suspeita ganhe forma oficial, colocando em risco algo bem mais sério do que sua reputação.
Rose trabalha, cria a filha sozinha e tenta manter algum controle sobre a própria vida, mas a investigação avança sem muita disposição para ouvi-la. Cada nova carta reforça a ideia de culpa, e o processo cresce em velocidade maior do que sua capacidade de se defender. O problema não é apenas o conteúdo ofensivo das mensagens, mas a facilidade com que o sistema transforma antipatia social em evidência. A consequência é direta: Rose passa a lidar com autoridades que já chegam convencidas, e o espaço para contestação diminui a cada etapa.
Enquanto isso, a cidade reage com uma mistura desconfortável de curiosidade e riso. Comentários atravessados circulam em cafés, olhares se acumulam nas ruas e a situação vira quase entretenimento local. O humor existe, mas nunca é inocente. Ele expõe o quanto a comunidade prefere rir do escândalo a questionar o processo. Cada piada reforça o isolamento de Rose e normaliza o erro coletivo, tornando mais difícil qualquer recuo institucional.
É nesse cenário que Edith Swan (Olivia Colman), uma policial acostumada a cumprir regras, começa a estranhar a simplicidade da acusação. Edith não é apresentada como heroína nem como rebelde. Ela apenas percebe que algumas peças não se encaixam. Ao revisar registros e observar comportamentos, decide investigar com mais cuidado, mesmo sabendo que isso pode colocá-la em rota de colisão com seus superiores. O obstáculo não é falta de inteligência, mas o peso da hierarquia e da pressa em encerrar o caso.
Aos poucos, outras mulheres da cidade passam a colaborar, não por espírito de aventura, mas por senso prático. Elas observam horários, padrões e detalhes que a investigação formal ignorou. Nada disso garante poder legal imediato, mas cria fissuras na narrativa dominante. O filme acerta ao mostrar que essa união não nasce de discursos grandiosos, e sim de pequenas ações concretas que desafiam decisões já tomadas.
O chefe de polícia vivido por Timothy Spall representa bem a face institucional do problema. Sua preocupação central é manter ordem e autoridade, evitando exposição e desgaste público. Cada escolha que faz prioriza estabilidade, mesmo quando isso significa ignorar dúvidas incômodas. A tensão cresce porque o caso deixa de ser apenas policial e passa a envolver imagem, controle e conveniência. Não há vilões caricatos, apenas decisões que produzem consequências difíceis de reverter.
Sharrock conduz tudo com leveza, equilibrando drama e comédia sem transformar o sofrimento em piada. O humor surge nos momentos certos, quase sempre revelando o ridículo das certezas absolutas. Jessie Buckley entrega uma Rose impulsiva, ferida e humana, enquanto Olivia Colman aposta na contenção e no desconforto silencioso. Essa diferença de energia entre as duas atrizes sustenta boa parte da força do filme.
“Pequenas Cartas Obscenas” funciona porque nunca perde de vista o impacto concreto das escolhas feitas ao longo do caminho. Sem precisar explicar demais, o filme mostra como erros burocráticos ganham vida própria e como recuar exige coragem institucional. Fica uma lição moral, mas a sensação incômoda de que, em cidades pequenas ou grandes, a pressa por culpados costuma sair mais barata do que a busca paciente pela verdade.
Filme:
Pequenas Cartas Obscenas
Diretor:
Thea Sharrock
Ano:
2023
Gênero:
Biografia/Comédia/Crime/Drama/Mistério
Avaliação:
8/10
1
1
Helena Oliveira
★★★★★★★★★★

