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Para fãs de comédia e terror, “Pequeno Demônio” aposta na mistura de gêneros na Netflix

A proposta de “Pequeno Demônio” é direta desde os primeiros minutos: observar o pânico íntimo de um homem comum ao suspeitar que o filho de sua esposa pode ser, literalmente, o anticristo. Gary, vivido por Adam Scott, entra em uma família já formada ao se casar com Samantha, personagem de Evangeline Lilly, e passa a conviver com Lucas, o menino silencioso interpretado por Owen Atlas. O roteiro não perde tempo em deixar claro o conflito central. Mortes estranhas, acidentes improváveis e sinais desconfortáveis passam a orbitar a rotina doméstica, colocando Gary diante de uma paranoia crescente que mistura insegurança paterna e medo sobrenatural.

O enredo se ancora nessa experiência de deslocamento. Gary não é apenas um padrasto tentando se conectar com uma criança difícil; ele é um adulto que teme não ter qualquer controle sobre o ambiente em que decidiu construir sua vida. A narrativa se desenvolve a partir dessa tensão, acompanhando sua tentativa de investigar o passado de Lucas enquanto mantém uma fachada de normalidade. O filme estabelece com clareza seus elementos dramáticos e sobrenaturais, sem esconder as cartas que pretende usar mais adiante.

Conflito de gêneros e desgaste narrativo

O principal obstáculo de “Pequeno Demônio” está na condução do tom. O longa oscila constantemente entre a comédia e o horror, sem definir com firmeza a hierarquia entre esses registros. As situações que envolvem a suspeita de possessão seguem uma cartilha já conhecida, enquanto as tentativas de humor surgem a partir da reação exagerada de Gary a eventos que, dentro do gênero, já se tornaram previsíveis. Essa alternância compromete o ritmo e enfraquece a construção da tensão.

Personagens secundários como Larry, interpretado por Donald Faison, e Al, vivida por Bridget Everett, funcionam como válvulas cômicas, mas raramente interferem de maneira decisiva na progressão do enredo. O resultado é uma sucessão de cenas que parecem ensaiar algo mais incisivo, mas recuam antes de consolidar uma identidade clara. A previsibilidade das situações torna o percurso inicial arrastado, mesmo com um elenco competente sustentando diálogos funcionais.

A virada e a afirmação do conflito

É apenas no último terço que o filme encontra maior segurança narrativa. Quando o roteiro decide assumir o absurdo de suas premissas, o humor passa a dialogar melhor com o suspense. A investigação de Gary sobre a verdadeira natureza de Lucas ganha consequências mais concretas, e a relação entre padrasto e enteado se torna o centro emocional da história. A partir daí, o filme passa a discutir de forma mais direta a oposição entre determinismo e escolha, sugerindo que o mal não é apenas uma herança inevitável.

Adam Scott encontra nesse trecho seu melhor material, equilibrando o desespero do personagem com uma lucidez tardia. Owen Atlas, por sua vez, sustenta bem a ambiguidade de Lucas, sem recorrer a exageros que tornariam a criança apenas um artifício de roteiro. Essa combinação dá ao clímax uma consistência que faltava anteriormente.

Família, responsabilidade e conclusão

No fundo, “Pequeno Demônio” organiza sua narrativa em torno da ideia de família como decisão, não como destino. O filme observa o papel do padrasto não como substituto automático, mas como alguém que escolhe assumir riscos emocionais reais. Essa leitura dá algum peso ao desfecho, ainda que não apague o desgaste acumulado ao longo do percurso.

Não se trata de um filme inovador nem particularmente ousado dentro do horror cômico, mas há uma clareza temática que se consolida tarde demais. O enredo é compreensível, os personagens são bem definidos e o conflito se resolve de maneira coerente com o que foi apresentado. Resta a sensação de que, com escolhas mais firmes desde o início, o resultado poderia ter sido menos irregular e mais consistente.

Filme:
Pequeno Demônio

Diretor:

Eli Craig

Ano:
2017

Gênero:
Comédia/Fantasia/Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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