A proposta de “Pequeno Demônio” é direta desde os primeiros minutos: observar o pânico íntimo de um homem comum ao suspeitar que o filho de sua esposa pode ser, literalmente, o anticristo. Gary, vivido por Adam Scott, entra em uma família já formada ao se casar com Samantha, personagem de Evangeline Lilly, e passa a conviver com Lucas, o menino silencioso interpretado por Owen Atlas. O roteiro não perde tempo em deixar claro o conflito central. Mortes estranhas, acidentes improváveis e sinais desconfortáveis passam a orbitar a rotina doméstica, colocando Gary diante de uma paranoia crescente que mistura insegurança paterna e medo sobrenatural.
O enredo se ancora nessa experiência de deslocamento. Gary não é apenas um padrasto tentando se conectar com uma criança difícil; ele é um adulto que teme não ter qualquer controle sobre o ambiente em que decidiu construir sua vida. A narrativa se desenvolve a partir dessa tensão, acompanhando sua tentativa de investigar o passado de Lucas enquanto mantém uma fachada de normalidade. O filme estabelece com clareza seus elementos dramáticos e sobrenaturais, sem esconder as cartas que pretende usar mais adiante.
O principal obstáculo de “Pequeno Demônio” está na condução do tom. O longa oscila constantemente entre a comédia e o horror, sem definir com firmeza a hierarquia entre esses registros. As situações que envolvem a suspeita de possessão seguem uma cartilha já conhecida, enquanto as tentativas de humor surgem a partir da reação exagerada de Gary a eventos que, dentro do gênero, já se tornaram previsíveis. Essa alternância compromete o ritmo e enfraquece a construção da tensão.
Personagens secundários como Larry, interpretado por Donald Faison, e Al, vivida por Bridget Everett, funcionam como válvulas cômicas, mas raramente interferem de maneira decisiva na progressão do enredo. O resultado é uma sucessão de cenas que parecem ensaiar algo mais incisivo, mas recuam antes de consolidar uma identidade clara. A previsibilidade das situações torna o percurso inicial arrastado, mesmo com um elenco competente sustentando diálogos funcionais.
É apenas no último terço que o filme encontra maior segurança narrativa. Quando o roteiro decide assumir o absurdo de suas premissas, o humor passa a dialogar melhor com o suspense. A investigação de Gary sobre a verdadeira natureza de Lucas ganha consequências mais concretas, e a relação entre padrasto e enteado se torna o centro emocional da história. A partir daí, o filme passa a discutir de forma mais direta a oposição entre determinismo e escolha, sugerindo que o mal não é apenas uma herança inevitável.
Adam Scott encontra nesse trecho seu melhor material, equilibrando o desespero do personagem com uma lucidez tardia. Owen Atlas, por sua vez, sustenta bem a ambiguidade de Lucas, sem recorrer a exageros que tornariam a criança apenas um artifício de roteiro. Essa combinação dá ao clímax uma consistência que faltava anteriormente.
No fundo, “Pequeno Demônio” organiza sua narrativa em torno da ideia de família como decisão, não como destino. O filme observa o papel do padrasto não como substituto automático, mas como alguém que escolhe assumir riscos emocionais reais. Essa leitura dá algum peso ao desfecho, ainda que não apague o desgaste acumulado ao longo do percurso.
Não se trata de um filme inovador nem particularmente ousado dentro do horror cômico, mas há uma clareza temática que se consolida tarde demais. O enredo é compreensível, os personagens são bem definidos e o conflito se resolve de maneira coerente com o que foi apresentado. Resta a sensação de que, com escolhas mais firmes desde o início, o resultado poderia ter sido menos irregular e mais consistente.
Filme:
Pequeno Demônio
Diretor:
Eli Craig
Ano:
2017
Gênero:
Comédia/Fantasia/Terror
Avaliação:
8/10
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1
Fernando Machado
★★★★★★★★★★
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