“007 — Operação Skyfall” abre correndo e tomando decisão antes de qualquer conversa longa. O HD com dados de agentes some e James Bond entra numa caçada que atravessa ruas e passagens estreitas na Turquia, sobe para um trem e exige reflexos, não planejamento. A ordem de atirar vem com pressa e cobra caro, porque um erro de centímetros joga o agente para fora do caminho. Quando ele reaparece, não há reinício confortável nem desculpa que resolva em uma frase. Daniel Craig assume essa volta ao serviço com corpo pesado e olhar desconfiado, como quem precisa reaprender rotina, recuperar fôlego e aceitar que o próprio nome já não abre tudo sozinho.
Quando o MI6 sofre um ataque em Londres, a notícia corta a tentativa de sumiço e obriga retorno. Bond reaparece, mas encontra sala fria e gente medindo cada gesto. Ele precisa recuperar acesso, equipamento e lugar na própria equipe, enquanto a instituição tenta conter vazamentos e responder a autoridades que querem culpados e prazos. M, interpretada por Judi Dench, não abre espaço para acolhimento. Ela chama o agente para perto, dá tarefas, cobra resultados e mantém a relação no terreno do trabalho, com mágoas guardadas onde atrapalham mais, na hora de obedecer.
O roteiro coloca a investigação no meio da corrida. A cada etapa, Bond lida com informação incompleta, com rastros que mudam de país para país e com a necessidade de agir antes de ter certeza. Isso cobra deslocamento, horas de espera, retomadas de pista e energia para recomeçar do zero. Também cobra reputação dentro do próprio serviço, porque o 007, acostumado a resolver no improviso, percebe que improviso pode custar acesso quando a instituição está exposta e qualquer erro vira argumento para quem quer reduzir autonomia e cortar caminho.
Sam Mendes filma as sequências com entendimento de onde estão as pessoas e do que cada uma tenta alcançar. O olhar acompanha entradas e saídas, a distância entre caçador e alvo, o que pode ou não ser alcançado em poucos passos. A ação tem som e velocidade, mas também dá espaço para aquele segundo em que o personagem mede se salta, se recua ou se insiste. A cena ganha quando dá para sentir o esforço, e não apenas contar acertos. O suspense melhora quando a montagem não esconde o risco e deixa o espectador acompanhar pelo corpo do agente, sem alguém mastigando o mapa em voz alta.
O vilão, vivido por Javier Bardem, entra como alguém que conhece o MI6 por dentro e escolhe atacar onde dói mais, no constrangimento público e na exposição de falhas. Ele não precisa estar presente o tempo todo para mover peças, porque trabalha com informação, timing e provocação. Essa estratégia obriga Bond a dividir atenção entre perseguir e proteger, entre avançar e impedir que outros paguem a conta de um vazamento. A ameaça se sustenta porque nasce de conhecimento íntimo do funcionamento da casa, e não de barulho gratuito, o que torna cada recado mais difícil de ignorar.
Nos personagens de apoio, “007 — Operação Skyfall” evita conversa decorativa e usa cada encontro para entregar pista, tarefa ou cobrança. A dinâmica com a agente Eve, interpretada por Naomie Harris, carrega o peso do tiro autorizado no começo e traz cautela que volta em olhares e escolhas, sem pedir pena nem se esconder atrás de bravata. Já o novo Q, vivido por Ben Whishaw, representa uma geração mais jovem, rápida na tela e afiada na ironia, mas sem virar caricatura, e faz o 007 perder minutos preciosos com procedimentos, perguntas e limites de acesso que não se resolvem com um soco.
Também pesa o lado administrativo do MI6. O ataque em Londres e o vazamento de identidades empurram a missão para reuniões, cobranças e testes de confiança, com gente pedindo número, prazo e justificativa. Bond precisa reaprender o próprio lugar, aceitar que não manda em tudo e que o corpo não responde como antes, ao menos não de imediato. O aperto vem de prazos curtos e de portas que se fecham, e isso sustenta o interesse mesmo quando a história reduz a velocidade para seguir uma pista, confirmar um dado e evitar que mais nomes caiam na rede.
Ao dialogar com o reinício do personagem em “007 — Cassino Royale” (2006), “007 — Operação Skyfall” troca o encanto do começo por uma cobrança mais ingrata. Em vez de repetir fórmula, a história põe a pergunta na mesa, por que ainda chamar um espião de campo quando o mundo quer resolver tudo por tela e protocolo. Sem apelar para discurso longo, o roteiro insiste em escolhas que exigem presença física e aceitação de risco real, com gente esperando resposta na linha e com a instituição cobrando rapidez no papel. E a lembrança mais concreta é a de Bond de volta ao corredor do MI6, parado um segundo, ouvindo o próximo chamado.
Filme:
007 — Operação Skyfall
Diretor:
Sam Mendes
Ano:
2012
Gênero:
Ação/Aventura/Thriller
Avaliação:
9/10
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Marcelo Costa
★★★★★★★★★★
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