O ouro tem surpreendido analistas e investidores, primeiro ao disparar no começo deste ano, saindo de R$ 4,341,20 a onça-troy (31,104 gramas) em Nova York no fim do ano passado para o recorde de US$ 5.586,20 em 29 de janeiro, e depois ao desabar para US$ 4.348,20 na mínima do dia hoje, em meio a notícias de recusa do Irã em negociar um cessar fogo com os Estados Unidos.
Uma queda de 22%, ou US$ 1.238,00 desde o pico e que se acelerou justamente após o início da guerra no Irã, contrariando a tradição do metal de ser um porto seguro em casos de turbulência. Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, o ouro já perdeu mais de 16% de seu valor em relação à máxima do ano.
A queda pegou de surpresa grandes investidores e contribuiu para as perdas de vários fundos multimercados, que apostavam na alta do metal diante do enfraquecimento do dólar no mercado internacional e dos receios com o crescimento da dívida pública dos países desenvolvidos. Agora, analistas buscam entender o que vem acontecendo para o ouro se enfraquecer tão repentinamente e qual deve ser a tendência do metal para o médio prazo.
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Os preços do ouro atingiram um máximo histórico no final de janeiro e, a partir daí, iniciou-se uma correção de preços que perdura até hoje, afirma Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset. O fluxo de compra dos bancos centrais deu dinamismo à tendência inicial de alta, que foi seguido pelo movimento especulativo de investidores. Segundo ele, na ausência de novas sanções e, inclusive, com a licença recente do governo americano para o mercado negociar petróleo russo, o ouro perde um pouco do brilho como hedge contra conflitos geopolíticos.
Além disso, a expectativa de queda nas taxas de juros americanas, que daria fôlego para o ouro, foi adiada. Para ele, a correção deve prosseguir até o nível de US$ 4.200, mantendo, ainda assim, a tendência de alta no longo prazo.
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A queda do ouro em março surpreende justamente porque o conflito no Irã deveria, em tese, funcionar como catalisador de busca por proteção no metal, afirma Danilo Moreno, analista da Investo. “Mas o que está acontecendo é quase o oposto: o próprio conflito está criando pressão vendedora”. explica.
Produtores do Oriente Médio, com receitas de petróleo e gás severamente impactadas pela guerra, estão muito provavelmente liquidando ativos de alta liquidez, incluindo ouro e Treasuries americanos, para cobrir necessidades de caixa imediatas. “É uma venda forçada por necessidade de liquidez, não uma decisão de alocação estratégica”, explica Moreno.
A isso se soma um segundo fator técnico relevante: o posicionamento especulativo em ETFs de ouro ao redor do mundo havia se acelerado de forma significativa nos últimos três a seis meses, com o metal batendo recordes históricos. “Quando os preços começam a ceder, essas posições tendem a ser desmontadas rapidamente, criando um efeito cascata que amplifica a queda”, diz. Esse movimento de reversão especulativo parece ter pesado bastante em março, afirma Moreno.
Por fim, o ambiente macro americano contribui: com o Federal Reserve, o banco central americano, mantendo cautela no ritmo de cortes de juros e os rendimentos dos Treasuries voltando a subir, também pelas vendas dos países do Oriente Médio, o custo de oportunidade de manter ouro, que não paga juros, aumenta.
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Para Moreno, os elementos técnicos, como a desmontagem de posições especulativas, tendem a ser passageiros. Uma vez que o excesso de posicionamento é eliminado, essa pressão se dissipa.
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As vendas forçadas dos países do Oriente Médio também são, por natureza, pontuais: atendem a uma necessidade de caixa de curto prazo e não refletem uma mudança estrutural na visão sobre o metal. “O componente de juros americanos é o mais persistente no horizonte imediato, mas o próprio ciclo de aperto tem prazo para se encerrar”, acredita.
Olhando para o logo prazo, Moreno acredita que os fundamentos estruturais de demanda por ouro permanecem robustos. O crescimento dos gastos globais com defesa e a trajetória do déficit fiscal americano, agravada por juros mais altos, aumentam os riscos da dívida soberana dos Estados Unidos e tendem, no longo prazo, a reforçar o papel do ouro como reserva de valor alternativa.
Bancos centrais de países emergentes seguem comprando ouro de forma consistente para diversificar reservas, reduzindo a dependência do dólar. E quando o crescimento da riqueza global se normalizar, especialmente no Oriente Médio e na Ásia, regiões diretamente afetadas pelo conflito atual, a demanda privada por ouro deve retornar com força. “A leitura mais adequada do momento atual é a de uma correção técnica dentro de uma tendência estrutural de alta, não uma reversão de tendência”, afirma.
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O investidor brasileiro tem hoje acesso simples e eficiente ao ouro via bolsa, sem precisar comprar o metal físico nem lidar com custódia, armazenamento ou câmbio diretamente, afirma Moreno. Ele cita os fundos com cotas negociadas em bolsa, os ETFs, lastreados em ouro, como o GLDX11 da própria Investo, que oferece exposição direta ao preço do ouro em dólar, taxa de administração total de 0,55% ao ano e liquidez em dois dias úteis. “Para quem ainda não tem ouro na carteira, esse ajuste de preços pode representar um ponto de entrada mais interessante do que as máximas recentes”, avalia Moreno.
Mas ele alerta que deve ser uma entrada gradual, em vez de uma alocação concentrada de uma só vez. “Faz mais sentido dado que o ambiente de juros elevados nos EUA ainda pode gerar volatilidade no curto prazo”, afirma.
Marcos Praça, diretor de Análises da Zero Markets, lembra que o ouro serviu de proteção para a desvalorização do dólar, que começou no ano passado diante da expectativa de corte dos juros e diversificação global. Mas, quando começou a guerra do Irã, a situação mudou e pegou o metal muito valorizado. “O ouro já estava muito esticado, não tinha espaço para subir e aí houve um movimento de realização de lucros e uma corrida para o dólar”, explica.
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Parte desse movimento foi também para aumentar a liquidez dos investimentos em dólar, até para aproveitar oportunidades que poderiam surgir com a queda das bolsas americanas. Houve ainda uma alta dos juros dos títulos americanos, diante da expectativa de que a alta do petróleo pressionará a inflação e exigirá taxas mais altas. “E quanto mais os juros americanos sobem, mais o investidor sai do ouro e vai para os títulos, até porque o ouro já estava muito caro”, afirma.
Apesar dessa queda, a tendência ainda é positiva para o ouro no médio e longo prazo, acredita Praça. O metal saiu de US$ 2 mil a onça-troy em 2024 para mais de US$ 4 mil hoje. Mas no curto prazo, ele tende a sofrer pelos ruídos provocados pela guerra no Irã nos mercados. “A questão no curto prazo é quanto tempo vai durar o conflito, que parecia que ia acabar no início da semana e agora já se fala em tropas americanas no Irã”, lembra.
Nesse caso, a tendência do conflito é piorar no curto prazo, com o Irã reagindo com os poucos recursos que restam, fechando o Estreito de Ormuz e atacando outros países. “As coisas tendem a caminhar para uma solução, mas é difícil saber quando”, avalia.
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O que Praça acredita é que, encerrado o conflito, o ouro tende a voltar a ter um papel de proteção para o enfraquecimento do dólar. Assim, para ele, só faz sentido comprar o metal se for com o objetivo de proteção de longo prazo para parte da carteira. “No momento, o ideal é o investidor aproveitar a alta dos juros nos títulos de renda fixa, prefixados, atrelados à inflação ou mesmo em LFTs, já que a Selic não vai cair tão rápido”, afirma.
Para quem pensa em aproveitar a queda para comprar ouro, Praça lembra que há vários ETFs de ouro negociados na B3, como o OURO11, AURO11, GOLD11 GOLX11 e o GOLB11. Esses ETFs variam de acordo com o preço do metal no exterior e com a cotação do dólar em reais.
Robin Brooks, ex-estrategista-chefe de Moedas do Goldman Sachs, cita em seu blog três razões para a queda do metal. O primeiro foi o aumento da base de investidores por conta da alta no começo do ano, que atraiu participantes que tradicionalmente não operavam ouro, como hedge funds e investidores de varejo via ETFs, o que tornou o mercado mais sensível a movimentos de queda. O mesmo aconteceu com outros metais preciosos, como a prata, que também teve fortes perdas.
A segunda explicação é a realização de lucros, já que muitos desses investidores embolsaram os ganhos diante do aumento da incerteza com o início da guerra do Irã. A terceira razão seria a necessidade de grandes investidores de cobrir posições alavancadas em outros mercados que tiveram fortes quedas, como as bolsas, após o início do conflito.
E como o ouro havia subido bastante, foi um dos primeiros a ser vendido para fazer caixa. Apesar disso, Brooks afirma que continua vendo a tendência do ouro como de alta, com base no cenário de enfraquecimento das moedas em meio ao descontrole fiscal e forte endividamento dos governos dos países desenvolvidos.
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