O ouro ultrapassou a marca inédita de US$ 4 mil por onça em 2025, recolocando o metal no centro do debate global sobre confiança monetária. A disparada ocorre em um ambiente de crescente descrença na solidez das moedas fiduciárias, pressionadas por dívidas públicas que já superam 300% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, juros reais persistentemente baixos e balanços inflados de bancos centrais após anos de estímulos.
A valorização é interpretada como um sintoma de um “choque de confiança” no sistema financeiro internacional. A escassez física do metal — estimada em 216 mil toneladas acumuladas em cinco milênios — voltou a se sobrepor à fé nas promessas monetárias.
Para Lucas Collazo, Head de Cobertura de Ativos e Corretoras no Banco de Atacado da XP e Host do Stock Pickers, o ouro reassume seu papel de termômetro macroeconômico: quanto menor a credibilidade institucional, maior o interesse pelo metal.
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Collazo afirma que desde a pandemia o ouro deixou de ser apenas proteção financeira e passou a compor estratégias de soberania nacional. Entre 2022 e 2024, bancos centrais adquiriram mais de 3 mil toneladas líquidas, o maior volume desde o fim do padrão-ouro em 1971. Em 2025, China, Turquia e Polônia lideram as compras, movidas pelo objetivo de reduzir a dependência do dólar e blindar suas reservas contra riscos geopolíticos.
A resiliência da inflação, as tensões no Oriente Médio e o endividamento dos Estados Unidos — que já supera US$ 34 trilhões — reforçam esse movimento. Governos buscam ativos capazes de sobreviver a choques políticos e sanções, algo que uma reserva física de ouro garante de forma mais direta que moedas ou títulos internacionais.
Um fenômeno incomum marca o ciclo atual: a valorização simultânea de ouro e dólar. Embora historicamente concorrentes, ambos subiram em conjunto nos últimos anos. Agora, com a recente perda de força do dólar frente a outras moedas, o ouro assumiu a liderança como instrumento de preservação de valor, impulsionado pela percepção de que “no ouro, não existe risco político”.
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O fluxo global de investimentos confirma essa tendência. ETFs indianos (Exchange Traded Funds são fundos de investimento que replicam o desempenho de um índice, setor ou ativo) registraram US$ 902 milhões em captações líquidas, e o patrimônio total de ETFs de ouro no mundo já supera US$ 230 bilhões, segundo o World Gold Council. A demanda dos bancos centrais também segue firme, com compras anuais próximas de 1.000 toneladas desde 2022.
Apesar da euforia, há sinais de superaquecimento. O consumo de joias recuou na China e na Índia, e a velocidade da alta preocupa alguns analistas. Ainda assim, fatores estruturais — como juros reais baixos e incerteza geopolítica — sustentam a tendência. Em um cenário de retorno real comprimido, o custo de carregar ouro diminui, favorecendo o metal.
A instabilidade política nos EUA acrescenta mais pressão. A ingerência de Donald Trump sobre o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), aliada à troca de quadros na instituição, reforça a percepção de politização da política monetária. Para Collazo, essa interferência afeta diretamente a confiança global no dólar e ampliam o apelo do ouro.
Outro vetor relevante é o superciclo de investimentos em inteligência artificial, que acelera gastos em data centers e energia. Caso esse ciclo arrefeça, a aversão ao risco tende a aumentar, beneficiando ativos defensivos como o ouro. Historicamente, sempre que ciclos tecnológicos perdem fôlego, o metal se fortalece — e sua valorização acumulada desde 1971 ultrapassa 11.000% em termos nominais.
Em um mundo marcado por dívidas elevadas, tensões geopolíticas e políticas monetárias imprevisíveis, o ouro retoma o papel de contrapeso natural à instabilidade. Como sintetiza Collazo, talvez o ouro não esteja caro: caro é acreditar que a confiança nas instituições é ilimitada. Se o dinheiro moderno é um ato de fé, o ouro lembra que parte da riqueza não depende de promessas — apenas de sua própria existência.
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