As Missões Jesuítico-Guarani formam um dos territórios mais singulares da história
brasileira. Poucos lugares nasceram com uma visão tão ampla, tão ousada e tão
avançada para o seu tempo (Gadelha 2009).
Por Marcelo Brito*
Ali, no coração do continente, ergueu-se um projeto que articulava assentamentos — as reduções —, caminhos, produção, espiritualidade, defesa, educação e paisagem. Um território pensado como sistema,
muito antes de o Brasil existir como país.
Quatrocentos anos depois, essa história continua a desafiar. Não apenas pela sua
grandeza, mas pelo modo como ela atravessou séculos de transformações, fronteiras, disputas e silêncios (Melià 1986). As Missões sobreviveram a impérios, guerras, deslocamentos e reinvenções — e, ainda assim, permanecem como promessa recorrente
de integração, desenvolvimento e reconhecimento.
E, no entanto, há um paradoxo que acompanha a região desde o século XIX: quanto mais se fala em Missões, menos se governa o território missioneiro. O Brasil produziu planos, relatórios, diagnósticos, discursos, projetos de itinerários, programas, comissões e pactos (IPHAN e UNESCO 2014). Mas nunca conseguiu transformar esse acúmulo de intenções em uma política territorial capaz de se sustentar no tempo.
Há uma frase que ajuda a compreender esse movimento como chave interpretativa de uma longa trajetória institucional: O Estado brasileiro sempre operou como se o patrimônio fosse municipalizado na prática, federalizado no discurso e estadualizado na emergência. Essa dinâmica explica por que tantas iniciativas importantes — o Projeto de Valorização da Paisagem Cultural e do Parque Histórico Nacional das Missões (PHNM) (IPHAN e UNESCO 2014), o Itinerário Cultural do MERCOSUL (IPHAN e UNESCO 2013), o Grande Projeto Missões (Farias Theisen 2020) — avançaram em vários aspectos, produziram resultados relevantes, mobilizaram redes e criaram expectativas, mas ainda assim não conseguiram consolidar uma política duradoura para o território missioneiro.
Não por falta de visão.
Não por falta de esforço.
Não por falta de dedicação.
Mas porque o território missioneiro exige algo que o Brasil ainda não conseguiu estruturar plenamente: uma instituição capaz de integrar escalas, atores, políticas e temporalidades (UNESCO 2011).
É nesse ponto que surge a figura do Parque Histórico Nacional das Missões.
Criado no papel em 2009, ele nasceu como tentativa de oferecer ao território a estrutura que sempre lhe faltou: uma instituição capaz de articular preservação, uso público, pesquisa, desenvolvimento e governança. No entanto, um Parque Histórico Nacional não é um título honorífico, nem um rótulo simbólico, nem pode ser uma categoria abstrata de proteção, nem apenas uma unidade administrativa. Constitui-se, na realidade, como uma forma de reconhecer que certos territórios carregam uma densidade histórica e cultural que exige um cuidado especial — contínuo, articulado, permanente.
No caso das Missões, isso é ainda mais evidente. A região reúne sítios arqueológicos, paisagens culturais, cidades vivas, comunidades, tradições, fluxos turísticos, desafios de infraestrutura e oportunidades de desenvolvimento. É um território que precisa ser compreendido como conjunto, não como fragmentos.
As iniciativas das últimas décadas mostraram caminhos importantes. O projeto para o PHNM trouxe sofisticação técnica e visão territorial (IPHAN e UNESCO 2014). O Itinerário Cultural do MERCOSUL ampliou a escala e reforçou a dimensão continental (IPHAN e UNESCO 2013). O Grande Projeto Missões mobilizou pessoas, redes e afetos (Farias
Theisen 2020). Cada uma delas deixou contribuições valiosas. Mas todas esbarraram no mesmo limite estrutural: nenhuma delas tinha a instituição territorial necessária para sustentar, no tempo, aquilo que propunham — um diagnóstico já apontado por estudos
recentes sobre a paisagem cultural missioneira (Brito e Giannecchini 2020).
Foi justamente para enfrentar esse impasse que, em 2016, há dez anos, portanto, realizou-se na URI de Santo Ângelo o Seminário Internacional Boas Práticas em Gestão de Paisagens, Parques Históricos e Culturais (IPHAN 2016).
Durante cinco dias, desfilaram ali algumas das experiências mais significativas do mundo: o Vale do Côa, em Portugal; Stonehenge e a Muralha de Adriano, no Reino Unido; San Antonio Missions, nos Estados Unidos; o Parque de Doñana e o Plan Nacional de Paisaje, na Espanha; a Paisagem Cultural Cafeeira, na Colômbia; a Paisagem Agavera, no México; a Cidade Sagrada de Caral-Supe, no Peru. Cada uma dessas experiências trazia consigo uma lição comum: nenhum desses territórios se sustenta sem uma instituição forte, com presença territorial, equipe, orçamento, plano de gestão, participação comunitária e continuidade para além dos ciclos políticos.
O Brasil também apresentou seus próprios caminhos — Iguaçu, Serra da Capivara, Paisagens Cariocas, Guararapes — revelando maturidade técnica, mas igualmente fragmentação institucional. Ao final, o seminário deixou uma mensagem cristalina: entre todos os territórios brasileiros, as Missões são o único caso de escala continental sem uma instituição própria de governança. E, por isso mesmo, o PHNM não é apenas uma ideia; é a peça que falta para que o território alcance o patamar das grandes paisagens culturais do mundo.
É por isso que, ao completar 400 anos, as Missões convidam a todos para olhar o Parque Histórico Nacional não apenas como uma intenção, mas como uma possibilidade real de futuro. Uma oportunidade de transformar um acúmulo de iniciativas em política pública; de transformar entusiasmo em continuidade; de transformar memória em desenvolvimento duradouro.
Porque, no fundo, tudo se resume a isso: As Missões não precisam de mais um plano. Precisam de uma gestão territorial sustentável.
Precisam de uma instituição estruturada e forte. Precisam de um Parque que saia do papel e que se instale efetivamente como tal.
A experiência internacional mostra que um Parque Histórico Nacional é, antes de tudo, uma forma de governança. Ele não se limita a proteger ruínas ou edifícios; ele organiza um território. Define zonas de manejo, estabelece diretrizes de ocupação, cria programas de visitação, articula políticas públicas, integra comunidades, estimula economias locais e garante continuidade institucional para além dos ciclos políticos. Em todos os países
onde essa figura se consolidou, há um ponto comum: um Parque Histórico Nacional só existe plenamente quando há uma instituição capaz de sustentá-lo. Sem equipe, sem orçamento, sem presença territorial, sem instrumentos de gestão, ele permanece apenas como intenção.
Ao celebrar quatro séculos das Missões, não estamos apenas diante de uma efeméride; estamos diante de uma encruzilhada histórica. O passado já nos mostrou sua grandeza, sua complexidade e sua capacidade de atravessar o tempo. O futuro, porém, depende das escolhas que venham a ser feitas agora. Cabe aos gestores públicos, às instituições, às lideranças regionais e à sociedade missioneira decidir se este território continuará sendo um mosaico de iniciativas interrompidas ou se, finalmente, assumirá a forma de um projeto coletivo, contínuo e duradouro. As Missões oferecem, mais uma vez, a chance
de transformar memória em política, patrimônio em desenvolvimento, história em horizonte. Que os próximos anos sejam guiados não pela repetição de tentativas, mas pela coragem de decisões estruturantes. Que o Parque Histórico Nacional das Missões deixe de ser, na prática, uma promessa e se torne presença. E que, ao honrar os 400 anos
deste território singular, o Brasil seja capaz de construir — todos juntos — o primeiro
século verdadeiramente missioneiro do século XXI.
*Marcelo Brito
Arquiteto e urbanista, é pesquisador do LETS/UnB – Laboratório de Estudos sobre Turismo e Sustentabilidade da Universidade de Brasília. Diretor da Patrimonium & Urbs e ex- Diretor do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, é Doutor em Gestão Urbana pela Universidade Politécnica da Catalunha, em Barcelona, com Pós-
doutorado em Patrimônio, Turismo e Desenvolvimento pela Universidade Complutense de Madri.
Referências Bibliográficas
Brito, Marcelo, e Ana Clara Giannecchini. 2020. Paisagem Cultural das Missões Jesuíticas Guaranis: O desafio de promover uma leitura patrimonial da paisagem. ID_Pesquisas. São
Paulo: ID_BR. Farias Theisen, Álvaro Medeiros de, coord. 2020. Grande Projeto Missões. s.l.
Gadelha, Regina. 2009. As Missões Jesuíticas e o Território Guarani. São Paulo: Edusp.
IPHAN 2016. Seminário Internacional: Boas Práticas em Gestão de Paisagens, Parques Históricos e Culturais. Santo Ângelo: IPHAN.
IPHAN e UNESCO. 2013. Itinerário Cultural das Missões Jesuíticas Guaranis, Moxos e
Chiquitos no MERCOSUL: Fortalecimento Institucional para a sua Definição e
Desenvolvimento. Brasília: IPHAN/UNESCO. IPHAN e UNESCO. 2014. Projeto Valorização da Paisagem Cultural e do Parque Histórico Nacional das Missões Jesuíticas dos Guaranis. Brasília: IPHAN/UNESCO.
Melià, Bartomeu. 1986. El Guaraní: Experiencia Religiosa. Asunción: CEPAG.
Ribeiro, Rafael Winter. 2007. Paisagem Cultural e Patrimônio. Rio de Janeiro: IPHAN.
UNESCO. 2011. Operational Guidelines for the Implementation of the World Heritage
Convention. Paris: UNESCO.
Elaboração:
Brasília, fevereiro de 2026
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