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“Operação Valquíria” transforma um atentado fracassado no suspense político mais incômodo dos anos 2000, na Netflix

“Operação Valquíria” transforma um atentado fracassado no suspense político mais incômodo dos anos 2000, na Netflix

A tensão de “Operação Valquíria” nasce de um paradoxo incômodo: todo mundo sabe que Adolf Hitler não morre ali, mas o filme insiste em tratar cada gesto como se o desfecho ainda estivesse em aberto. Bryan Singer parte do plano liderado por Claus von Stauffenberg, interpretado por Tom Cruise, um oficial mutilado pela guerra que decide acelerar o colapso do regime nazista por dentro. O roteiro acompanha o retorno dele a Berlim, a costura política com generais hesitantes e a tentativa de transformar um protocolo burocrático em golpe de Estado. Nada é tratado como aventura heroica. O que se vê é um jogo de sobrevivência institucional, feito de salas fechadas, telefonemas interrompidos e ordens que precisam circular antes que a verdade escape.

Tom Cruise constrói Claus von Stauffenberg com rigidez calculada. O personagem não pede empatia, tampouco carisma fácil. Ele se move como quem já aceitou o preço do fracasso. A perda do olho e da mão não serve como atalho emocional, mas como lembrança constante de que o corpo já pagou a conta do fanatismo alemão. A frieza do sotaque neutro funciona a favor da proposta: Stauffenberg fala como quem precisa ser entendido rapidamente, não admirado. O desconforto que isso gera diz mais sobre a expectativa do público do que sobre a coerência da interpretação. Cruise entrega um homem que age por cálculo histórico, não por impulso moralizante.

Os cúmplices e o peso da hesitação

O entorno de Stauffenberg é formado por figuras que personificam o medo de errar o tempo. Henning von Tresckow, vivido por Kenneth Branagh, carrega o cansaço de quem tentou antes e falhou. Friedrich Olbricht, nas mãos de Bill Nighy, hesita até o limite do insuportável, enquanto Ludwig Beck, interpretado por Terence Stamp, simboliza a velha elite militar presa à ideia de honra tardia. Tom Wilkinson dá a Friedrich Fromm uma ambiguidade corrosiva: ele prefere aguardar o vencedor antes de escolher um lado. Essas presenças constroem um retrato coletivo de um Estado que só se move quando a queda já parece inevitável.

Tempo, espaço e opressão silenciosa

A narrativa se organiza como um relógio em contagem regressiva, mas sem artifícios fáceis. O suspense cresce pela repetição de procedimentos, pela insistência em papéis carimbados, pela dependência de linhas telefônicas frágeis. Cada deslocamento entre a Toca do Lobo e Berlim amplia a sensação de atraso histórico. A encenação aposta em ambientes fechados e corredores longos, reforçando a ideia de um poder que se sufoca dentro da própria engrenagem. A violência quase não aparece, mas está sempre implícita na urgência dos olhares e na rigidez das posturas militares.

O filme insiste em lembrar que o nazismo não caiu por iluminação ética interna, e sim por derrota militar externa. Resta a sensação amarga de que o gesto foi necessário, ainda que inútil. Singer não oferece redenção nem espetáculo da tragédia. O que fica é a pergunta incômoda sobre quantas estruturas autoritárias sobrevivem justamente porque todos aguardam o momento perfeito para agir.

Filme:
Operação Valquíria

Diretor:

Bryan Singer

Ano:
2008

Gênero:
Drama/Guerra/História/Suspense

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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