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O último grande filme de Bruce Willis está na Netflix — 109 minutos de ação ininterrupta

Ambientado em uma Chicago inundada por relatos de assaltos e tiroteios, “Desejo de Matar” acompanha o cirurgião de trauma Paul Kersey (Bruce Willis), sujeito que evita qualquer atrito fora do hospital e se agarra à rotina familiar como zona segura. Dirigido por Eli Roth e com participações de Vincent D’Onofrio e Elisabeth Shue, o longa parte do ataque violento à casa dos Kersey, que termina com a morte da esposa e deixa a filha em coma. Diante da lentidão da polícia e da impressão de que ninguém será responsabilizado, Paul abandona a posição de observador protegido e parte em busca dos criminosos. A suposta tentativa de restabelecer alguma ordem rapidamente se transforma em cruzada pessoal contra qualquer rosto associado à violência cotidiana da cidade.

Logo depois do crime, a vida de Paul se resume a corredores hospitalares, exames, visitas à filha inconsciente e conversas burocráticas com detetives que juram “fazer tudo o que podem”. Enquanto sutura desconhecidos baleados, escuta histórias que repetem o mesmo padrão de impunidade e descaso institucional. A sequência de relatos, somada à culpa pela ausência na noite da invasão, corrói o pouco de confiança que resta no sistema. A ideia de ter uma arma aparece primeiro como impulso difuso, contido por formulários, testes e prazos. Quando um revólver cai do corpo de um paciente ligado ao crime, a fronteira ética racha: o médico que deveria registrar a arma como prova a esconde, leva o objeto para casa e passa a treinar, desajeitado, até que o gesto se torna hábito.

Os treinos noturnos, feitos às escondidas em espaços vazios, convertem o luto em ritual quase mecânico. Em certo momento, ao assistir a um assalto em plena rua, Paul reage sem pensar. O disparo que interrompe o crime inaugura outra existência: um pedestre registra tudo em vídeo, as imagens viralizam e a figura encapuzada passa a ocupar telejornais, redes sociais e programas de rádio que discutem se aquele vigilante é herói ou alvo em potencial. O apelido sombrio cunhado pela mídia cristaliza um personagem à parte, permitindo que o cirurgião reapareça no hospital com máscara de normalidade enquanto, à noite, percorre bairros problemáticos atrás de criminosos e pistas sobre os invasores de sua casa.

O roteiro se ancora nesse procedimento reiterado de observar, selecionar, aproximar, atirar, desaparecer. A cada nova saída, Paul ajusta táticas, testa seus próprios limites ao alternar entre alvos encontrados ao acaso e a investigação paciente dos responsáveis diretos pelo ataque à família. Em paralelo, os detetives Raines (Dean Norris) e Jackson (Kimberly Elise) tentam conectar casos aparentemente isolados, pressionados por superiores preocupados com a repercussão e com a possibilidade de imitadores. As visitas dos dois ao hospital, cheias de perguntas indiretas, funcionam como lembrete constante de que o cerco institucional está em curso, ainda que o protagonista insista em tratar a metamorfose como assunto que conseguiria controlar sozinho.

A experiência de Eli Roth no terror aparece nas passagens mais gráficas de violência, em que o impacto dos tiros, as quedas e os ferimentos expostos são mostrados sem pudor. Em vez de apenas sugerir os efeitos da vingança armada, o filme insiste no corpo que cai, no sangue visível, no barulho seco que permanece no ar depois de cada disparo. Em uma montagem paralela que coloca lado a lado Paul no centro cirúrgico e Paul treinando com armas, a direção explicita a contradição: as mesmas mãos que estabilizam um paciente atingido por bala, poucas horas depois, disparam contra alguém visto como descartável nas bordas da cidade.

Bruce Willis, há anos alternando participações protocoladas e papéis menores, encontra aqui um personagem desenhado mais na contenção do que em frases de efeito. No início, a postura cansada combina com o médico de plantões intermináveis que tenta proteger a família com pequenos ajustes de rotina, como controlar horários e afastar a filha de encrencas previsíveis. À medida que o vigilante se consolida, o ator endurece o olhar, encolhe os gestos, deixa que o silêncio e a forma como Paul observa os outros indiquem o quanto ele já se afastou do homem que conhecíamos. Vincent D’Onofrio, como o irmão pressionado por dívidas e frustrações, oferece um contraponto frágil que, em alguns momentos, parece quase puxar o protagonista de volta à dúvida.

Como refilmagem de um marco da cultura de vigilantes dos anos 1970, a nova versão troca o arquiteto nova-iorquino do original por um cirurgião em Chicago e injeta celulares, redes sociais e apresentadores de rádio reais como coro que comenta a matança em tempo quase real. Lançado em 2018, em meio a uma série de tiroteios em massa nos Estados Unidos, o filme foi duramente criticado por supostamente reforçar a fantasia de justiça armada e minimizar raízes estruturais da violência urbana. Ao mesmo tempo, encontrou público entre espectadores que procuram um thriller direto, disposto a seguir a lógica simples da vingança sem grandes elaborações morais.

Em alguns trechos, a narrativa parece querer encarar essas ambiguidades. Os debates em estúdio opõem quem vê no justiceiro um sintoma de colapso institucional e quem o saúda como resposta “necessária” à criminalidade crescente. Só que, quando a violência retorna à porta dos Kersey e a casa cercada repete o cenário do ataque inicial, “Desejo de Matar” aumenta o volume da ação e abandona a hesitação. Cada porta aberta, cada lance de escada, cada sirene que se aproxima reforça a sensação de que não há saída segura naquele universo, apenas a escolha de atirar antes do outro. A imagem que fica é a de um corredor em que a lei sempre chega alguns passos atrasada.

Filme:
Desejo de Matar

Diretor:

Eli Roth

Ano:
2018

Gênero:
Ação/Crime/Drama/Thriller

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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