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O thriller com Michael Douglas que retrata a fúria de um homem comum e ainda impressiona décadas depois

A raiva pode transformar a vida de um homem. A fagulha aparentemente inofensiva que nasce de frustrações e injustiças vai adquirindo uma proporção monstruosa, até conduzir a ideias e guiar comportamentos já tidos por absurdos. Alguém que pautava suas ações pela sensatez e pela cordialidade passa a agir como se um gênio mau a tivesse dominado, movido por impulsos que não demoram a escravizar. Existem ocasiões em que um cenário de estresse máximo e repentino podem ser a causa de uma patológica mudança de temperamento, da adoção de respostas instintivas e bestiais, e um punhado delas acomete o protagonista de “Um Dia de Fúria”, uma das melhores traduções que o cinema deu à onda de paranoia e angústia existencial que desabou sobre os Estados Unidos pós-Reagan, época das violentas tensões sociais que sacudiram Los Angeles e degringolaram nos distúrbios de 29 de abril de 1992. Quatro oficiais do Departamento de Polícia angelino, três brancos e um hispânico, foram absolvidos do crime de agressão contra Rodney King (1965-2012), um operário da construção civil afro-americano, após terem-no perseguido em alta velocidade. As consequências, como se vê, perduram.

Poucos homens representam o padrão do americano médio como o personagem de Michael Douglas, um bem-remunerado funcionário da indústria de defesa, casado e pai de um filho pequeno. Na volta para casa após um dia de trabalho, ele fica preso num dos famigerados engarrafamentos da Cidade dos Anjos. Nada de mais, não fosse o calor, o ar-condicionado que não funciona, a mosca que ocupa todo o espaço livre, buzinas e crianças gritando no ônibus escolar ao lado. O diretor Joel Schumacher inspira-se no Fellini de “8½” (1963), porém não há atmosfera para lirismo aqui. Esse sujeito atormentado e sem nome, meio caricatural com seu cabelo à escovinha, camisa social de mangas curtas, gravata e maleta, não sobe aos céus, mas sai pela rodovia sem destino, até parar numa loja de conveniência com um coreano no balcão. Pano longo.

Ele telefona para Beth, a esposa interpretada por Barbara Hershey, mas as fichas acabam sem que consiga falar. O homem sem nome e sem qualidades entra no estabelecimento e pede que o balconista asiático troque-lhe o dinheiro, para que tente uma nova chamada. O roteiro de Ebbe Roe Smith dota a cena de elementos visuais que nunca deixam de fazer associação à pujança da América wasp, e Douglas brilha em sequências como aquela em que seu aflito anti-herói refresca-se com uma lata de Coca-Cola — que compra forçado, a fim de receber do coreano as moedas de que está precisando —, para, instantes depois, entregar-se sem culpa a um homérico quebra-quebra na loja. Sua fama de justiceiro chega aos ouvidos da polícia e, em paralelo, Schumacher leva a história de Prendergast, um inspetor em seu último dia de trabalho antes da aposentadoria, determinado a colocar termo à arruaça de D-FENS, o apelido que dá ao mais novo criminoso de L.A., por causa do carro que abandonara na pista. Robert Duvall adiciona uma carga extra de tensão ao filme, compondo um Prendergast que, particularmente, zela pela liberdade individual, mas que nem por isso abre mão de triunfar sobre D-FENS, o inimigo público número um daqueles que pagam seu salário. O cinismo ora bem-humorado, ora penoso em “Um Dia de Fúria” faz questão de lembrar-nos de que qualquer um pode perder a cabeça e cometer uma loucura. 

Mas quem pira, morre.

Filme:
Um Dia de Fúria

Diretor:

Joel Schumacher 

Ano:
1993

Gênero:
Crime/Thriller

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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