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O telúrico e a biblioteca ao redor

O telúrico e a biblioteca ao redor

O que me fazia telúrico era a água, não o solo. Mais especificamente, os trezentos litros do aquário de quina que enfeitava meu apartamento em São Paulo. Como transportar aquário e peixes era tarefa hercúlea, para não dizer fora de cogitação, apegava-me a ele para comprometer-me a voltar para o bairro de Pinheiros, para São Paulo, para o Brasil, depois de qualquer extravagância de férias.

Uma bobagem sem tamanho. Durante meus quatro anos de faculdade, quando morava em Bauru e tinha uma motinha de cento e vinte e cinco cilindradadas como meio de transporte, um peixinho solitário chamado Alfa foi meu companheiro de quarto. A cada viagem para a casa dos pais ou para São Paulo, na garupa ou dentro da mochila ia um vidro de maionese com meio litro de água e o peixinho lá. Foi o peixe beta mais viajado do mundo. Viveu cinco anos. Acho que foi o peixe beta mais feliz do mundo.

Mas uns dez anos atrás, lampejo de maturidade, arroubos de paternidade, cansaço de brasilidade, vi que o telúrico que era, e sou, não se circunscreviam a um pequeno apartamento em Pinheiros, muito menos a uma cidade rançosa como São Paulo. Era tempo de entender terra como Terra, enfim. E das amarras do cadarço, calçar um tênis surrado que significasse o salto grande para o abismo da imigração.

Na hora de fazer as malas percebi que não era apenas o aquário que me ancorava ali. Pior mesmo, muito mais pesados e significantes do que os tais trezentos litros de água, eram as milhões de páginas espalhadas nos milhares de livros que, organizados em uma bela estante arredondada como o Copan, metaforizavam não o meu parco conhecimento, mas o exagerado amor que nutro pela ideia de seguir conhecendo mais.

Aquilo era meu lar. Mais do que o endereço, mais do que o CEP. Eu era o cara que morava dentro de uma biblioteca particular. Isto é identidade.

Contudo, decisões tomadas exigem atitudes. Não de coragem, como as pessoas costumam supor. De covardia. Sair, enfim, é um gesto da mais sublime covardia — saem os que não suportam a ideia de enfrentar a realidade tal e como ela se apresenta; saem, portanto, os que querem inventar outras realidades, como se fossem possíveis existências paralelas.

No fim das contas, cataloguei umas setenta e poucas caixas, grandes o suficiente para agruparem pequenas coleções, pequenas o necessário para que não envergassem as costas de quem as precisasse carregar. O resto espalhei entre amigos e sebos.

Enquanto aqueles livros ficaram guardados, ocupando espaço, em um quartinho na casa dos meus pais, sentia como se minha vida estrangeira estivesse emoldurada em uma névoa de improviso.

Mas agora que escrevo esta crônica e tenho as paredes ao meu redor com todos esses livros, nada mais me falta, nada mais de objeto resta lá do outro lado do Atlântico. Voltei a ser telúrico quando percebi que este monte de papel impresso, mais do que garantir uma acústica bonita ao meu ambiente de trabalho, resume e abrange aquilo tudo que me significa um lar.



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