Depender da bondade de estranhos nunca é o melhor dos mundos. Quando essa é a única saída, entretanto, todo cuidado é pouco no que se refira a manter-se a salvo de inimigos cuja verdadeira essência fica cada vez mais obscura, como se as luzes faltassem, o ar se tornasse rarefeito de súbito e se entrasse num dédalo cujo chão se abrisse à medida que se sentisse a força dos passos do infeliz ali preso. Essa é a sensação que Justine Gandy, a protagonista de “A Hora do Mal”, divide com o espectador em 128 minutos de uma história tensa, como se pensada em seus detalhes mais vagos para assustar, embora todos nos perguntemos por mais de uma vez onde foi que vimos algo bastante próximo há não muito tempo. É nítido que Zach Cregger é um realizador talentoso, mas a iteração ostensiva de alguns clichês bagunça a apreensão da trama, bem conduzida num andamento entre o farsesco e o bizarro — não obstante reserve na conclusão uma grata surpresa para quem já desfruta de intimidade com o gênero. O texto de Cregger balança do terror para passagens de comicidade involuntária, ideia resumida pelo talento de uma veterana até então ostracizada, mas que voltou com tudo.
Professora e bruxa
O sumiço de dezessete crianças, às 2h17 da madrugada, esconde um mistério nada óbvio, que sugere uma alegoria sobre sentimentos represados e a constante necessidade de bodes expiatórios para estancar tanta raiva. Justine é a professora desses dezessete alunos, e aos poucos vai desistindo de encontrar uma resposta para o sumiço, concentrando-se apenas em escapar das investidas de fúria dos pais e vizinhos, empenhados em fazer justiça com as próprias mãos. Justine estaria sozinha na classe, não fosse Alex Lilly, o único a quem não aconteceu nada, e o diretor-roteirista leva o público a olhar para o personagem com um misto de empatia e desconfiança, tanto mais depois que a professora, ingênua, tenta uma aproximação e é violentamente rechaçada. Alguém picha em seu carro a palavra “bruxa”, e começam a bater a sua porta.
A arma humana
Com “Weapons”, o título original, Cregger faz menção ao expediente de usar pessoas como potentes armas de manipulação, exatamente o que ocorre com Justine e Alex, e entre eles está Archer Graff, o pai de uma das crianças desaparecidas. O filme vai mudando do noir para o gore à medida que essas três figuras aproximam-se, chocando com mais e mais ferocidade, e Julia Garner, Josh Brolin e Cary Christopher encarregam-se de juntar ao eixo central da narrativa o trauma do passado que Gladys Lilly não deixa morrer. Após quatro décadas da indicação por “Duas Vezes na Vida” (1985), dirigido por Bud Yorkin (1926-2015), Amy Madigan é o coração deste terror sobre demônios reais e metafóricos, que deixam o limbo mais particular das pessoas e faz um estrago que avança fronteiras sem quaisquer cerimônias. Madigan ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Gladys, e o espectador ganha com sua capacidade de dar vida ao medo e à paranoia.
Filme:
A Hora do Mal
Diretor:
Zach Cregger
Ano:
2025
Gênero:
Mistério/Terror
Avaliação:
8/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

