Em “A Acusada”, dirigido por Anubhuti Kashyap, a queda é lenta, pública e profundamente íntima. A história acompanha a médica Geetika, vivida por Konkona Sen Sharma, uma profissional respeitada em um hospital de Londres que vê sua trajetória entrar em colapso após acusações anônimas de conduta sexual imprópria no ambiente de trabalho. O caso rapidamente deixa de ser interno e ganha as páginas de um jornalista obstinado, Mashhoor Amrohi, enquanto em casa sua companheira Meera, interpretada por Pratibha Ranta, tenta equilibrar amor, dúvida e autopreservação.
Geetika é apresentada como alguém que controla cada detalhe da própria rotina. Ela administra plantões, decisões clínicas e relações profissionais com firmeza quase cortante. Essa postura, que a ajudou a subir na hierarquia hospitalar, passa a ser lida de outra forma quando as denúncias surgem. A direção do hospital abre uma investigação, restringe seus contatos e transforma corredores antes familiares em território hostil. O que antes era autoridade vira suspeita. O que era liderança vira possível abuso de poder.
Konkona Sen Sharma constrói essa ambiguidade com precisão impressionante. Sua Geetika não pede simpatia fácil. Ela pode soar controladora, até desagradável, mas é impossível ignorá-la. O olhar firme, o maxilar travado, a maneira como segura o celular como se estivesse sempre pronta para reagir, tudo comunica tensão. A atriz planta dúvidas sem cair em caricatura. A cada gesto, o espectador é convidado a se perguntar se está vendo frieza defensiva ou culpa mal disfarçada.
Enquanto isso, o jornalista Mashhoor amplia a pressão pública. A investigação deixa de ser apenas administrativa e passa a ocupar espaço nas redes e nos comentários online, que funcionam como tribunal informal. A reputação de Geetika começa a se desfazer antes mesmo de qualquer conclusão oficial. A velocidade da opinião pública não espera relatórios, e o filme deixa claro como essa pressa pode ser cruel.
Dentro de casa, o impacto é ainda mais doloroso. Meera tenta sustentar confiança, mas não consegue ignorar os sussurros e as dúvidas que surgem junto com as manchetes. Pratibha Ranta entrega uma atuação delicada e cheia de nuances. Seus silêncios falam tanto quanto os diálogos. Pequenos gestos de recuo, olhares hesitantes, pausas antes de responder, tudo revela alguém que quer acreditar, mas precisa se proteger. A relação entre as duas passa a ser atravessada por perguntas difíceis, especialmente quando a linha entre má conduta profissional e traição íntima se torna nebulosa.
Em determinado momento, Meera decide agir e contrata um detetive particular, vivido por Sukant Goel. Essa escolha muda o ritmo da história. O suspense se intensifica porque agora há duas investigações correndo em paralelo: a oficial, conduzida pelo hospital e amplificada pela imprensa, e a privada, movida por desconfiança e necessidade de clareza. Goel compõe um investigador discreto, metódico, que coleta informações com cautela. Sua presença adiciona tensão concreta à trama, pois cada novo dado pode tanto aliviar quanto aprofundar o abismo entre as duas mulheres.
O cenário do hospital londrino contribui para a atmosfera. Os corredores brancos, as salas silenciosas e a formalidade institucional ampliam a sensação de isolamento. Anubhuti Kashyap evita melodrama e cenas de confronto exagerado. Em vez disso, prefere alongar silêncios, manter personagens fora de quadro por alguns segundos a mais, retardar respostas. Essa escolha mantém a dúvida viva. O espectador nunca recebe conforto fácil.
Um dos aspectos mais interessantes do filme é a inversão do padrão comum em narrativas do tipo #MeToo. Aqui, a acusada é uma mulher, e uma mulher queer em posição de poder. A obra não transforma isso em bandeira nem em explicação simplista. A sexualidade de Geetika é tratada como parte natural de sua identidade. O foco está na complexidade do poder, da percepção e da reputação. O filme provoca sem didatismo.
“A Acusada” não entrega respostas prontas. Ele nos obriga a conviver com a ambiguidade. O público, assim como Meera, precisa decidir no que acredita enquanto observa o peso real que acusações e julgamentos exercem sobre trabalho, amor e imagem pública. Fica a sensação incômoda de que, em tempos de exposição constante, a verdade pode se tornar secundária diante da velocidade com que se forma uma convicção coletiva.
Filme:
A Acusada
Diretor:
Anubhuti Kashyap
Ano:
2026
Gênero:
Drama/Suspense
Avaliação:
8/10
1
1
Helena Oliveira
★★★★★★★★★★

