Em “Sozinha”, John Hyams acompanha Jessica, vivida por Jules Willcox, quando uma viagem de mudança a coloca no radar de um homem interpretado por Marc Menchaca, com Anthony Heald em participação importante. O conflito central é a tentativa dela de sobreviver e escapar depois de ser sequestrada por esse estranho durante o trajeto.
A narrativa se organiza em etapas claras, e cada uma delas aperta o mesmo parafuso. Jessica sai sozinha, ainda pesada pela perda recente, e tenta transformar a estrada em corredor de passagem, não em história. O obstáculo é que o encontro com um desconhecido altera a leitura do mundo comum, e a consequência é imediata, porque a viagem deixa de ser escolha e passa a ser risco administrado em tempo real, entre trechos isolados, paradas incertas e um horizonte de mata e asfalto que não oferece testemunhas.
O terror aqui nasce de uma decisão repetida, manter distância e não dar margem. Jessica evita contato, protege a própria rotina de movimentos e tenta escolher lugares em que outras pessoas possam existir por perto, porque entende que o isolamento não é só geográfico, é social. O problema é que o agressor opera com a vantagem do imprevisível e com a naturalidade de quem não precisa explicar nada, e isso encurta opções, reduz a confiança em pedidos de ajuda e transforma cada escolha de percurso em aposta.
Quando o sequestro acontece, o filme muda o tipo de pressão sem mudar a lógica. Jessica precisa agir com o que tem, busca brechas, insiste em ganhar minutos e tenta desaparecer no espaço aberto. O obstáculo deixa de ser apenas o homem e passa a incluir o terreno, o cansaço e a falta de controle. A consequência é uma perseguição que funciona como desgaste, não como espetáculo.
Hyams filma com uma economia que tem efeito dramático, porque cada corte e cada espera mexem com a informação disponível para a protagonista e para quem observa. A ação aparece menos como coreografia e mais como tarefa, correr, se esconder, escolher direção, calcular o que o outro pode ver, e essa abordagem dá peso a detalhes de sobrevivência que o gênero costuma tratar como passagem. Quando o filme segura o tempo, ele faz a ameaça crescer por aproximação, e quando acelera, ele cobra da personagem uma resposta que não cabe em discurso.
Willcox sustenta Jessica como alguém que aprende em movimento, sem precisar que a história a explique o tempo todo. A mudança dela é concreta, primeiro ela tenta manter a vida funcional, depois passa a testar limites, a recusar atalhos fáceis e a tratar cada oportunidade como ferramenta, ou melhor, como uma moeda que pode ser gasta cedo demais, e o filme ganha quando essa inteligência prática se impõe sem virar superpoder. Menchaca constrói o perseguidor com uma presença que não depende de eloquência, ele não diz muito, mas ocupa espaço, e essa ocupação contamina tudo ao redor, como se qualquer gesto cotidiano pudesse ser lido como ameaça.
O roteiro às vezes se apoia em engrenagens conhecidas do thriller de caça, e nem toda virada de condução surpreende, mas a obra tem disciplina ao manter a consequência na frente do estilo. O terror não vem de mistério elaborado, vem do fato simples de que a protagonista está fora de alcance, e a ação não vira celebração, vira custo.
“Sozinha” funciona como um filme de sobrevivência que confia no básico, objetivo claro, adversário persistente e ambiente que não ajuda. Ao reduzir personagens e ampliar o efeito de cada decisão, Hyams evita enfeites e força a história a se sustentar por causa e efeito. No fim, o que permanece é a ideia de que proteção e prisão podem ter a mesma forma, e o filme volta sempre ao carro, até o estalo seco de uma porta de carro.
Filme:
Sozinha
Diretor:
John Hyams
Ano:
2020
Gênero:
Drama/Mistério/Thriller
Avaliação:
8/10
1
1
Natália Walendolf
★★★★★★★★★★
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