Depois de receber admissão no MIT e encarar a falta de dinheiro, David Raskin vasculha os pertences do pai falecido e, ao encontrar uma câmera de vídeo antiga com uma gravação de aniversário, enxerga um detalhe impossível que empurra a investigação para o porão; em “Projeto Almanaque”, Dean Israelite conduz Jonny Weston, Sofia Black-D’Elia e Sam Lerner por um conflito central de causa e efeito, em que construir e usar uma máquina do tempo para vantagens imediatas faz o presente reagir com custos e ameaças que ninguém ali sabe administrar. Ele quer pagar o futuro e decifrar um legado, mas a própria prova de que a máquina funciona vira armadilha: cada acerto pede repetição, e a repetição parece sempre justificável. O primeiro preço aparece fora do laboratório, no entorno, e a sensação de controle cresce junto com o estrago.
Com Adam Le, Quinn Goldberg e Christina Raskin ao lado, David decide montar o aparelho e transforma a casa, sobretudo o porão, em oficina; ao mesmo tempo, o grupo escolhe filmar cada passo, como se a câmera impusesse disciplina e servisse de recibo para as escolhas. O entrave real não é falta de método, e sim falta de freio: quando o teste mostra que a operação cobra energia do entorno, o aviso não interrompe a escalada. Um apagão no bairro passa a ser o custo tolerável para manter a promessa aberta, e o registro em vídeo, em vez de conter, vira combustível para refazer e ampliar.
Jessie Pierce se aproxima quando o projeto já exige mais recursos e sigilo, é recrutada e, com a célula de combustível de seu carro, vira parte do funcionamento. A escolha resolve um problema prático, manter a máquina operante, mas cria outro, porque confiança deixa de ser apenas técnica e passa a mexer com o afeto e com lealdades. O tabuleiro muda: o grupo deixa de operar como bloco e começa a negociar, a cada salto, quem decide e quem suporta a conta, e quem terá de explicar depois o que foi alterado.
O primeiro freio vem na forma de regra interna, não viajar sozinho. A intenção é proteger o coletivo, só que a experiência de retorno alimenta impulsos e abre a tentação de agir sem testemunha, justamente quando a regra deveria valer mais. O filme fixa o risco no perigo de topar com versões passadas e no lembrete de um “feedback loop” ao perturbar o próprio “eu”, sinalizando que a brincadeira tem um abismo logo adiante. A partir daí, a aventura carrega medo de colapso e, paradoxalmente, mais vontade de insistir, até que alguém decida atravessar a linha.
Há humor quando eles repetem dias para evitar vexames e melhorar desempenho escolar. A graça está na euforia de um presente reeditável, imediato e quase fácil. Mas o riso dura pouco, porque cada vitória puxa outra correção. Em seguida, o uso do aparelho escorrega para ganho fácil e diversão, como dinheiro obtido por atalhos e acesso a festas e shows, e isso rebaixa o extraordinário a rotina.
A ambição então fica íntima e o romance entra pela porta mais perigosa, a da intervenção: David hesita, tenta interferir num momento com Jessie e, ao quebrar o pacto e viajar sozinho, transforma afeto em decisão operacional; ele não diz, mas age como se uma relação pudesse ser ajustada como uma variável de laboratório, ou melhor, como se a intimidade aceitasse repetição sem memória, não exatamente assim, porque a outra pessoa reage e o mundo ao redor cobra, e o que parecia coragem vira manipulação aos olhos de quem observa. Ele tenta evitar perda e obter um “melhor” presente, mas esbarra na quebra de confiança. O resultado é a fissura do grupo, com confrontos, e a máquina passa a exigir mais energia e precisão quando o consenso desaparece.
O presente começa a devolver suspeitas, e a polícia passa a desconfiar de um desaparecimento ligado ao caso, empurrando as escolhas para o terreno do risco legal e do pânico prático. A ideia de “consertar” o estrago com novos saltos parece solução por dentro, mas cada correção abre outras consequências indiretas e estreita o espaço de manobra, exigindo recursos críticos e decisões cada vez menos defensáveis. Sem tocar na última virada, fica a percepção de que controlar o tempo também produz prova contra si mesmo. O filme encerra essa lógica no elemento que permanece aceso e recorrente, a câmera de vídeo, ligada, guardando em silêncio tudo o que foi feito ali.
Filme:
Projeto Almanaque
Diretor:
Dean Israelite
Ano:
2015
Gênero:
Drama/Ficção Científica/Mistério/Thriller
Avaliação:
8/10
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Marcelo Costa
★★★★★★★★★★
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