A inconformidade do homem diante do imponderável da vida não é nada além que o sintoma mais potente e mais silenciosa do espanto que lhe provoca sua condição. A natureza não quer saber de nossas mazelas, nem se dá ao trabalho de responder a cornucópia de perguntas que nos assombram, ela existe, simplesmente, alheia às angústias humanas. A idealização da vida num ambiente bucólico não considera que a alma se perde e se acha no lado mais fundo e bárbaro de suas vastas possibilidades, em que a redenção está ora distante, ora tão perto que nos assusta. Passar alguns dias de contemplação, cercado de uma paisagem rústica e indiferente, poderia ser o remédio instantâneo para uma dor aguda e persistente, mas como se assiste no metódico “Corta-Fogo”, nada é tão fácil. Primando pelos detalhes, David Victori é hábil em criar situações tensas a partir do que a própria trama oferece, numa recusa obstinada de artificialismos. O diretor muda revelações óbvias em viradas surpreendentes ao dispor de recursos técnicos que definem boa parte do que se quer contar. Um acerto, sem dúvida.
Mara ainda tenta se conformar com a morte prematura do marido, mas parece querer enterrar-se com ele, remoendo memórias, alimentando velhos rancores e deixando-se capturar por uma melancolia perigosa. Victori dá ao público, já na abertura, alguns indícios a respeito de para onde o filme pode seguir, mas não entrega o ouro antes da hora, destrinchando as figuras que rodeiam a viúva. Ela viajou para a casa de veraneio da família com a filha, Lide, o cunhado e a esposa dele, acompanhados do filho, querendo relaxar e esquecer, mas, claro, estar de volta a este cenário tão cheio de recordações apenas contribuiu para que todos os seus fantasmas voltassem para um doído acerto de contas — e justamente quando está mais vulnerável. Belén Cuesta ancora uma narrativa refinada, que derivando para um suspense opressivo conforme as labaredas de um incêndio ficam mais próximas. O roteiro de Javier Echániz, Asier Guerricaechebarría e Jon Iriarte chega ao ponto mais alto no momento em que um infortúnio envolvendo Lide se abate sobre eles, e Mara é obrigada a renunciar a sua letargia e tomar a frente do problema. Carismática no início, Candela Martínez reaparece para no criativo desfecho, enquanto Enric Auquer rouba a cena com Santi, o guarda florestal responsável pela ordem naquela vizinhança tomada pela paranoia.
Filme:
Corta-Fogo
Diretor:
David Victori
Ano:
2026
Gênero:
Drama/Suspense
Avaliação:
8/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★
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