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O Prime Video acaba de receber um filme tão poderoso que muita gente não consegue terminar sem chorar

A narrativa se inicia no Brooklyn, em 1980, quando a polícia prende o jovem Colin Warner após o assassinato de outro rapaz no bairro. Sem provas consistentes, a investigação avança apoiada em depoimentos frágeis e reconhecimentos duvidosos, até que o adolescente termina condenado à prisão perpétua. Em “Crown Heights”, o crime funciona como ponto de partida para acompanhar décadas de encarceramento e resistência, tanto de Colin quanto de seu amigo de infância Carl King. Enquanto o réu tenta sobreviver ao cotidiano violento da prisão, o amigo decide que não aceitará a sentença como destino definitivo.

Dirigido por Matt Ruskin, “Crown Heights” traz LaKeith Stanfield como Colin Warner e Nnamdi Asomugha como Carl King, com Natalie Paul em papel importante na vida afetiva do protagonista. O filme retoma a história apresentada em um episódio do programa de rádio e podcast “This American Life”, que acompanhou o caso real do jovem condenado injustamente por homicídio. Ao deslocar o foco do assassinato em si para o processo judicial e as consequências do encarceramento prolongado, o longa se alinha ao drama biográfico que acompanha de perto como decisões burocráticas podem reorganizar a vida de indivíduos e de um bairro inteiro.

O enredo acompanha, em paralelo, o tempo de Colin atrás das grades e o percurso de Carl em liberdade vigiada por burocracias. Na prisão, o protagonista enfrenta transferências sucessivas, celas superlotadas, revistas constantes e um sistema disciplinar que responde com punições mais duras a qualquer gesto de recusa. Do lado de fora, Carl alterna subempregos, frequenta cartórios, convence advogados e vasculha arquivos em busca de inconsistências no processo. O drama nasce da insistência silenciosa de gestos cotidianos: cartas enviadas e recebidas, economias guardadas para pagar honorários, visitas curtas aos domingos e audiências que se repetem sem efeito imediato.

LaKeith Stanfield interpreta Colin com combinação de raiva contida e cansaço acumulado. A passagem do tempo se observa em detalhes concretos: o corte de cabelo, a postura nos bancos da sala comum, o jeito de caminhar pelo pátio, a maneira de reagir a provocações de guardas e outros internos. O personagem aprende códigos da prisão, faz alianças temporárias, recua diante de conflitos que podem custar mais anos de punição e tenta preservar alguma dignidade em meio à rotina de revistas e trancas. O confinamento prolongado altera voz, corpo e disposição para acreditar em qualquer promessa de revisão judicial.

Nnamdi Asomugha compõe Carl King como um homem persistente, que transforma indignação em trabalho de longo prazo. Enquanto familiares e vizinhos tendem a se conformar com a condenação, ele passa a frequentar fóruns e escritórios de advocacia, aprende a linguagem dos autos e descobre caminhos para questionar testemunhos, laudos e procedimentos. As cenas em que Carl carrega pilhas de papéis, busca assinaturas ou aguarda atendimento em filas de repartição mostram o peso físico da luta. A vida afetiva sofre com ausências, mudanças de emprego e frustrações acumuladas, mas a convicção sobre a inocência do amigo o mantém em movimento.

Matt Ruskin adota um ritmo que acompanha a escala temporal do caso, alternando momentos de avanço rápido — quando uma nova pista ou testemunho aparece — com longos períodos de estagnação. O roteiro insiste em mostrar as etapas intermediárias de um processo de revisão: petições negadas, recursos engavetados, testemunhas que se contradizem ao longo dos anos, promotores que resistem a reabrir provas já consideradas suficientes. Ao circular entre audiências, reuniões familiares e conversas dentro da penitenciária, a montagem reforça a ideia de que a disputa judicial não se limita ao tribunal, mas também ocupa cozinhas, salas pequenas e corredores de presídio.

A fotografia valoriza os espaços que moldam a experiência dos personagens. O bairro de Crown Heights aparece em ruas estreitas, quadras de basquete, calçadas movimentadas e interiores modestos, marcados por mesas de cozinha apertadas e quartos divididos. A prisão, em contraste, é apresentada em corredores longos, portas metálicas, grades e pátios cercados por muros altos. A diferença de luz entre esses ambientes destaca o que está em jogo: do lado de fora, a possibilidade de rua, horizonte, deslocamento; do lado de dentro, a repetição de cores frias e da mesma visão limitada dia após dia. Os espaços tornam visível a dimensão estrutural do erro cometido pelo sistema penal.

A trilha sonora e o desenho de som investem na rotina. Portas que batem, chaves que giram, rádios ligados em músicas diferentes dentro das celas, o burburinho constante do pátio e o barulho de papelada manuseada em escritórios constroem uma paisagem sonora de permanência. Não há explosões musicais em momentos de virada; o que domina é a repetição, central para sugerir como mais de vinte anos de cadeia podem ser condensados sem apagar o peso da espera. Em audiências decisivas, o silêncio nos corredores e o eco dos passos até a sala do juiz bastam para aumentar a tensão.

“Crown Heights” dialoga com outras produções sobre injustiça histórica, mas prefere apoiar-se em gestos observáveis. Caixas de documentos empilhadas na sala de estar, mãos algemadas que aguardam nova decisão, fotografias antigas usadas para confrontar testemunhos, telefonemas interrompidos por falta de crédito e expressões exaustas ao fim de mais um dia de trabalho compõem o painel dessa trajetória. A cada tentativa de reabrir o caso, a câmera encontra não apenas argumentos jurídicos, mas também corpos cansados, roupas gastas e olhares treinados para desconfiar de qualquer promessa institucional. Quando Carl fecha mais uma pasta sobre a mesa abarrotada de papéis, a imagem concreta do arquivo acumulado traduz a extensão da história que precisou ser refeita para que o erro finalmente viesse à tona.

Filme:
Crown Heights

Diretor:

Matt Ruskin

Ano:
2017

Gênero:
Crime/Drama/Romance

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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