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O novo filme de Ryan Gosling está surpreendendo até quem já achava que tinha visto de tudo

Se o zênite da carreira de um ator é dar vida a tipos os mais inusitados, Ryan Gosling está no caminho certo. Depois da estreia em “Frankenstein — O Sonho não Acabou” (1996), dirigido por Robert Tinnell, Gosling, um dos atores mais talentosos de sua geração, interpretou pianistas frustrados, motoristas de gangue e até um tal de Ken. Ryland Grace, um viajante espacial bem menos sisudo que Neil Armstrong (1930-2012), perfilado por Damien Chazelle em “O Primeiro Homem” (2018), junta-se a essa galeria, fazendo de “Devoradores de Estrelas” uma ficção científica muito, digamos, original. Baseado em “Project Hail Mary” (“projeto ave Maria”, em tradução literal; 2021), romance de ficção científica de Andy Weir, o roteiro de Drew Goddard leva a uma saga heroica sobre um homem comum tentando evitar um cataclismo e a consequente extinção da humanidade. Com rara destreza, os diretores Phil Lord e Christopher Miller agrupam teorias conspiratórias, descaso criminoso com o ambiente, uma noção distorcida de progresso e uma estranha fé no melhor que existe em nós. E com graça.

O salvador

Grace tem uma vidinha pacata como professor de física numa turma de adolescentes, mas seu sossego não irá resistir ao assédio da NASA, que o procuram por uma razão nobre e urgente. Aos poucos, o sol está sendo minado por uma colônia de parasitas, os astrofágicos, e só ele pode dar uma explicação para o fenômeno. Grace, um doutor em biologia molecular que deixa a academia por desavenças teóricas com seus pares, reluta mas, pressionado, aceita o desafio, momento em que Lord e Miller começam a replicar as leves alfinetadas ideológicas de Weir. Uma promessa da ciência é obrigado a abdicar de suas pesquisas e agora dois burocratas perseguem-no, para que a Terra tenha alguma chance. Gosling destila um sarcasmo providencial na composição de Grace, de tal forma que, desse ponto em diante, o público fica sempre à espera do próximo golpe. E ele nunca decepciona. 

“Houston, temos um problema”

O filme avança mostrando um Grace letárgico e confuso, preso numa estrutura metálica cheia de pontos brilhantes e com um tubo que desce-lhe pelo esôfago. Sua dicção está comprometida, ele não tem força para dar os comandos ao sistema operacional da nave e nem ao menos se lembra como foi parar ali. Quando recobra a voz, pergunta por seus consortes e o computador responde que ele é o único sobrevivente do que parece ter sido uma falha mecânica, e agora tem de seguir só — e sem nenhuma ideia sobre o que fazer. Enquanto isso, os diretores investem numa narrativa não linear, e flashbacks apresentam Ryland junto aos organizadores da expedição e à líder da empreitada, Eva Stratt, com a qual mantém um relacionamento de altos e baixos e uma (gorada) promessa de romance. Sandra Hüller encabeça passagens saborosas, a exemplo da que coloca Eva cantando “Sign of the Times” (2017), a baladinha chorosa de Harry Styles, numa festa com os astronautas, mas para surpresa de muitos (não para minha), quem rouba a cena é Rocky, um monstrengo de um planeta chamado Erid que passa pelo mesmo imbróglio que o terráqueo. Muito da razão de ser de “Devoradores de Estrelas”, um enredo assumidamente nerd, funda-se na amizade improvável de Grace e Rocky, outra prova de fogo de que Gosling se sai inteiro. Merecidamente, Ryland Grace já é o novo herói de muita gente, e Ryan Gosling já pode reservar o smoking para a 99ª cerimônia do Oscar.



Fonte

Redação

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