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O novo filme da Netflix que expõe o peso invisível da vida moderna e retrata mulheres à beira da exaustão

Confrontar a própria essência é um gesto de coragem. No cruzamento entre fraqueza e instinto de sobrevivência afloram as decisões que, por mais insignificantes que pareçam, alteram o rumo de toda uma vida, abrindo estradas que só se completam quando aceitamos deixar certezas monolíticas na intenção de reinventar nossa história. Desafortunadamente, nem todo mundo consegue vencer os inimigos que cria, observação angular no ótimo “As Loucuras”. Rodrigo García compõe um drama episódico, com larga margem para situações engraçadas, iluminando discussões sobre identidade, perdas e ganhos, arrependimentos e, claro, até que ponto resiste a saúde mental durante a jornada. De uma maneira ou de outra, todas as mulheres que protagonizam as sequências elaboradas por García são obrigadas a lidar com expectativas desumanas por parte da família, celeiro de fenômenos os mais inverossímeis, costumeiras pressões sociais e um certo desajuste, que, no pior caso, degringola em problemas com a lei.

Ninguém está livre de tornar-se um escravo das próprias lembranças, principalmente nos momentos em que tudo quanto resta é só a felicidade que já não existe mais. Sempre ronda-nos o perigo de que passemos ao melancólico estado de arqueólogos de nossas ações, cascavilhando miudezas em busca de qualquer coisa que faça-nos supor que uma época boa, mas já sepulta há muito, pode reviver por si só. Tudo acontece rápido em “As Loucuras”, reflexo do temperamento caótico das personagens. Renata é uma gestora de riscos que sofre de arroubos de fúria. Ela cumpre prisão domiciliar na casa do pai, Ariel, e da mulher dele, Alba, por motivos que o diretor-roteirista esclarece na iminência do desfecho, numa das melhores cenas. Enquanto isso, ela suporta os golpes, e tenta interações com qualquer um que se aproxime de sua janela, uma promessa de liberdade tão próxima e tão distante. Numa manhã que parecia igual à outra qualquer, Renata desperta a atenção de uma moça, e elas se entendem.

A veterinária Penélope presta os últimos cuidados a animais em estado irreversível. Renata lembra um dos bichos que atende, acuada, e há uma evidente identificação entre elas, embora não reconheçam e não deem a isso a menor importância. Renata usa o telefone de Penélope, as duas trocam impressões a respeito das semelhanças descobertas em fugazes minutos de conversa, e García realça a amargura das mulheres que compõem a narrativa. Natalia Solián perpassa todo o filme, costurando as performances das demais atrizes, excelentes. Como Penélope, Naian González Norvind transita de uma tristeza meio envergonhada para a agonia desesperada de perceber-se só, sentimento que a toma após a morte de uma cadela que tinha o mesmo nome que o seu. Adriana Barraza oferece, mais uma vez, uma interpretação cativante e avessa ao óbvio, malgrado num papel menor, mas que comprova a força catártica desse drama sobre gente bem normal.

Filme:
As Loucuras

Diretor:

Rodrigo García

Ano:
2025

Gênero:
Comédia/Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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