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O melhor filme que chegou este mês na Netflix: a obra-prima de Alexander Payne, que foi indicada a 5 Oscars em 2024

Em “Os Rejeitados”, Alexander Payne dirige Paul Giamatti, Da’Vine Joy Randolph e Dominic Sessa em uma história de isolamento e reconciliação silenciosa. O filme acompanha um pequeno grupo que permanece em um colégio interno da Nova Inglaterra durante o Natal de 1970. O professor Paul Hunham, rígido e solitário, é designado para cuidar dos poucos alunos que não voltam para casa. Entre eles está Angus Tully, jovem inteligente e rebelde, que tenta esconder o abandono atrás da insolência. A cozinheira Mary Lamb, ainda em luto pela morte do filho, completa o trio central, observando tudo com a gravidade de quem conhece o peso da ausência.

Conhecido por retratar o desencanto e a ternura em obras como “Sideways — Entre Umas e Outras” e “Nebraska”, Payne volta aqui ao território que domina: personagens perdidos que buscam algum sentido nas relações que resistem ao acaso. O colégio, com sua disciplina rígida e corredores frios, funciona como espelho da vida emocional de Paul. Ele ensina história antiga, mas vive como se o passado fosse o único lugar seguro. Angus, por outro lado, representa o impulso e a raiva de quem ainda tenta se provar. Mary observa ambos, dividida entre o cuidado e o cansaço de conviver com dores que não são suas.

O primeiro embate entre professor e aluno define o tom da narrativa. A disputa por autoridade expõe o medo que os dois compartilham: o de não serem vistos. Payne conduz esse choque com naturalidade, deixando que o humor surja do contraste entre as idades e da teimosia de ambos. O confinamento de Natal se torna, pouco a pouco, uma experiência de espelhamento. Cada um passa a perceber no outro o reflexo do que tenta negar.

A convivência forçada transforma o espaço. O colégio, antes símbolo de controle, torna-se abrigo provisório. A tensão cresce quando Angus decide romper as regras e colocar à prova a paciência de Paul. A partir desse confronto, a história desacelera. O que era vigilância vira convivência, e o humor começa a abrir fendas no isolamento. Payne mostra que a autoridade só ganha sentido quando se converte em cuidado. O risco deixa de ser apenas disciplinar e passa a ser moral: até onde é possível proteger alguém sem se trair?

O filme alterna momentos de ironia e ternura com precisão. Payne usa o período natalino como contraponto: enquanto o mundo celebra a união, seus personagens enfrentam o vazio. A neve e o silêncio reforçam a sensação de tempo suspenso. Cada gesto tem o peso de um diálogo contido. O roteiro de David Hemingson constrói a transformação com passos pequenos, sempre ancorados em escolhas. A lentidão é o ritmo da descoberta.

Paul Giamatti interpreta o professor com humor seco e melancolia contida. Sua rigidez se dissolve aos poucos, sem necessidade de discursos. Dominic Sessa, em sua estreia, combina arrogância e fragilidade, revelando a insegurança de quem se sente descartado. Da’Vine Joy Randolph compõe Mary com sobriedade rara: a dor não se exibe, mas molda cada movimento. Juntos, os três formam um triângulo emocional em que o silêncio vale mais que o consolo.

A fotografia de Eigil Bryld reproduz a textura do cinema dos anos 1970, com tons amarelados e grãos que remetem à memória. Essa aparência envelhecida reforça a sensação de lembrança, como se o passado fosse visto por olhos que ainda não o superaram. A montagem de Kevin Tent mantém o equilíbrio entre introspecção e leveza, permitindo que a história respire. Cada corte serve à relação entre os personagens, e não ao artifício estético.

O conflito central atinge um ponto de ruptura quando o vínculo entre Paul e Angus é colocado à prova. O professor, que parecia incapaz de empatia, precisa decidir entre preservar as regras ou agir por compaixão. A escolha altera o equilíbrio da convivência e redefine o sentido de responsabilidade. Payne evita o sentimentalismo. Ele sugere que o amadurecimento nasce da imperfeição, e não da redenção.

Mary, por sua vez, encontra nos dois homens uma forma indireta de continuar cuidando, sem apagar a dor. Sua presença funciona como eixo moral da história. É por meio dela que o filme alcança seu tom mais humano: a aceitação de que viver com perdas é também aprender a dividir o peso.

A história se encerra com a sensação de que o tempo segue fora da tela. “Os Rejeitados” mantém a mesma discrição do início, confiando que o espectador perceba que a mudança verdadeira raramente se anuncia. Payne não busca grandes gestos, mas o reconhecimento do outro como gesto em si.

“Os Rejeitados” confirma a maturidade do diretor em um cinema que valoriza o detalhe humano. A textura visual, o humor contido e o olhar compassivo formam um conjunto coerente e preciso. Ao reafirmar que a empatia resiste mesmo em tempos de cinismo, Payne mostra que ainda há espaço para histórias simples contadas com verdade. É um filme que não promete redenção, mas observa a esperança quando ninguém está olhando.

Filme:
Os Rejeitados

Diretor:

Alexander Payne

Ano:
2023

Gênero:
Comédia/Drama

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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