Um arquiteto judeu-húngaro desembarca nos Estados Unidos após sobreviver à guerra e quer reconstituir a vida com a esposa, proteger o que restou da família e provar que seu talento sustenta um futuro digno. “O Brutalista”, dirigido por Brady Corbet, encena esse conflito por meio de László Tóth, vivido por Adrien Brody, que aceita o patrocínio do industrial Harrison Lee Van Buren, interpretado por Guy Pearce, enquanto Felicity Jones faz a esposa, Erzsébet. A relação entre artista e financiador organiza a narrativa porque cada tarefa aceita por László altera objetivos, riscos e prazos. O filme situa o recomeço na Pensilvânia, onde Van Buren enxerga oportunidade ao explorar a visão de László, por isso trabalho e dependência passam a caminhar juntos.
O objetivo inicial é pragmático: László precisa de base legal e econômica para reunir-se à esposa, recuperar dignidade profissional e sair do circuito de pequenos trabalhos. Quando Van Buren oferece moradia, ateliê e encomendas, László decide aceitar porque quer acelerar a reunião familiar e ganhar escala para projetar. Por isso, a assinatura do contrato não apenas abre portas como também fixa condições de crédito criativo e prazos que encurtam a margem de recusa. A partir daí, cada maquete validada pelo patrono desloca o foco do protagonista: ele passa de autor pleno a prestador de serviço com expectativas de grandeza que não são dele.
O primeiro obstáculo tem rosto doméstico. Ao perceber a assimetria embutida no convite, Erzsébet mede o custo de uma vida sob tutela do benfeitor. A decisão do casal de permanecer no enclave do empregador garante estabilidade imediata, porque há renda e estrutura, mas muda a hierarquia privada: visitas, festas e rotinas obedecem ao calendário de Van Buren. Por isso, discussões íntimas sobre educação, fé e costumes se tornam extensões de negociações de obra. O filme explicita essa causalidade quando contrapõe encontros sociais a reuniões de projeto: a mesma palavra de aprovação que libera verba impõe novas concessões de linguagem, acabamento e propósito do edifício.
O segundo obstáculo é moral. Quando o industrial condiciona novos investimentos ao abandono de referências europeias, László precisa decidir se adapta a forma ao gosto do patrono ou se preserva uma memória material que ancora sua identidade. Porque o contrato prevê propriedade sobre encomendas, a recusa pode significar perda de visto, renda e equipe. Assim, a curva dramática nasce do choque entre necessidade e convicção: cada concessão salva um emprego, mas corrói a linha autoral que amarra passado e presente do protagonista.
As viradas se somam. Em um jantar, quando tensões acumuladas chegam à mesa, uma cobrança direta sobre condutas da família Van Buren força reposicionamento. László decide não interromper a parceria imediatamente porque precisa concluir etapas que garantem estabilidade para a esposa e para quem depende dele. Por isso, aceita um cronograma que o mantém sob vigilância do patrono, ao mesmo tempo em que redobra estratégias para resguardar paternidade artística de peças-chave do complexo. O efeito imediato é duplo: o industrial amplia o controle sobre o entorno do arquiteto e a casa do casal passa a operar em estado de alerta, com conversas calculadas e apelos por prudência.
A técnica entra quando muda o tempo dramático. O filme adota estrutura dilatada, com cerca de três horas e meia e um intervalo programado. Essa pausa altera a percepção de avanço porque separa etapas da relação entre autor e financiador, oferecendo ao espectador um respiro que imita as quebras de obra entre aprovação e execução. Quando a narrativa retorna, o intervalo funciona como salto de cronograma, por isso a urgência dos personagens se intensifica. O uso de película em processo de captação associado ao VistaVision amplia campo e profundidade, o que permite enquadrar o corpo dos personagens dentro de volumes arquitetônicos sem distorção, deslocando o foco do ornamento para a massa e para a escala do poder que a financia. Essas escolhas técnicas não ilustram; elas reorganizam a informação ao situar pessoas menores diante de planos que pertencem ao patrono e não aos autores.
A música de Daniel Blumberg entra como ferramenta de pressão porque marca atrasos, reuniões e cobranças. Quando a pauta dos instrumentos sobe em insistência durante visitas de Van Buren ao canteiro, a trilha desloca o ponto de vista para a ansiedade do contratado. Por isso, a tensão que antes estava em diálogos passa a mover a contagem do tempo, e cada batida indica que o prazo administrativo pesa mais que o gesto criativo. A montagem, por sua vez, alterna sequências domésticas e institucionais, o que encurta a distância entre o escritório e a sala de jantar, reforçando que a tutela do benfeitor contaminou por inteiro a vida do casal.
A atuação de Adrien Brody investe no cálculo silencioso porque László mede riscos antes de responder. Quando o protagonista aceita uma alteração imposta por Van Buren para salvar a continuidade da obra, o efeito é visível no corpo: o arquiteto recolhe argumento, cede no desenho e reorganiza o plano seguinte para recuperar, em outra peça do conjunto, uma solução que preserva sua linguagem. Guy Pearce conduz o patrono como alguém que transforma generosidade em instrumento de domínio; assim, cada elogio abre caminho para uma cláusula nova. Felicity Jones constrói Erzsébet com decisões práticas que repercutem no conflito: quando ela enfrenta a família do industrial em defesa do marido, acelera a crise, porque expõe publicamente o cálculo moral que até então corria em privado.
Comparações ajudam a ver a estratégia narrativa. Como em “Sangue Negro” e “Era uma Vez na América”, títulos que também relacionam ascensão individual e custo social, Corbet posiciona um protagonista ambicioso diante de um financiador que confunde afeto com propriedade. A diferença está no uso do espaço construído como contador de tempo: a cada laje, muda a força de quem decide. Quando o prédio ganha altura, aumenta o capital simbólico do patrono, e o autor precisa reprogramar táticas para inscrever sua marca sem romper o acordo.
O momento decisivo chega quando Van Buren exige um gesto que altera a autoria do empreendimento e atinge a família de László. O arquiteto precisa escolher entre aceitar a condição para garantir a conclusão e a permanência no país ou romper, sabendo que perde financiamento e arrisca dispersar a equipe. Porque essa decisão tem efeito administrativo imediato, ela desce do plano das ideias para o calendário: contratos param, pagamentos travam e a obra fica vulnerável à intervenção do patrono.
Van Buren condiciona a liberação de recursos a uma assinatura que reduz o crédito de László e submete o escritório a um regramento humilhante. O protagonista avalia impacto sobre a esposa e sobre os colaboradores porque cada nome apagado significa afastamento de aliados e fragilização do trabalho. A escolha que ele faz altera de imediato a dinâmica no canteiro e a circulação da família, que passa a evitar compromissos sociais ligados ao patrocinador. O risco objetivo permanece claro: sem autonomia, o edifício pode carregar uma marca que não corresponde ao autor; sem acordo, a casa do casal perde renda e proteção legal.
Filme:
O Brutalista
Diretor:
Brady Corbet
Ano:
2024
Gênero:
Drama/Épico
Avaliação:
9/10
1
1
Amanda Silva
★★★★★★★★★★
Maria Elisa Curcio, Diretora de Assuntos Corporativos, Regulatórios e Sustentabilidade da Latam Brasil (Divulgação/Latam)A Latam…
Durante a Corrida do Ouro, dizia a lenda que a melhor forma de enriquecer não…
Edilson ‘Capetinha’ se pronunciou pela primeira vez após ter sido expulso do BBB 26. Em…
Em “Mensagem Pra Você”, sob direção de Nora Ephron, Kathleen Kelly (Meg Ryan), dona de…
A aviação civil da Região Sul encerrou 2025 com mais de 18 milhões de passageiros…
Tenista número um do Brasil e 33 do mundo, João Fonseca afirmou estar confiante em…