O ERJ-145 marcou a aviação regional, deu origem a versões militares e executivas, ajudando a consolidar a Embraer entre os grandes fabricantes do setor
O ERJ 145, o primeiro jato regional da Embraer, consolidou a presença da indústria aeronáutica brasileira no mercado global e abriu caminho para o avanço posterior dos E-Jets, sobretudo do E175, nos Estados Unidos.
Em 11 de agosto de 1995, o protótipo do então EMB-145 — mais tarde batizado comercialmente como ERJ-145 — decolava de São José dos Campos para seu primeiro voo e inaugurava uma nova fase para a Embraer. Três décadas depois, o modelo permanece como um marco na aviação regional, com versões ainda em operação em companhias aéreas e forças militares em diferentes continentes.
O embrião do projeto surgiu no final da década de 1980, quando a Embraer buscava ampliar sua presença internacional e competir no mercado regional, até então dominado por fabricantes como a Bombardier, com a família CRJ — atualmente Mitsubishi — , e a British Aerospace, com o BAe 146. A ideia era desenvolver um jato regional com capacidade para 50 passageiros, aproveitando a experiência adquirida com o EMB-120 Brasília, lançado em 1983, que havia conquistado operadores regionais ao redor do mundo.
O conceito inicial previa o uso de diversos sistemas e subsistemas derivados do Brasília, inclusive as asas, com motores a jato montados sobre elas. Contudo, a evolução do projeto trouxe mudanças radicais. Os engenheiros optaram por instalar os motores na parte traseira da fuselagem e reprojetar a asa, reduzindo o arrasto e melhorando a eficiência aerodinâmica. Ainda assim, a fuselagem básica era a mesma do Brasília, o que ajudou a reduzir custos e tempo de desenvolvimento.
O programa de ensaios envolveu três protótipos e outras aeronaves dedicadas a testes de solo, acelerando a campanha de certificação. A homologação foi obtida em dezembro de 1996 e em seguida o avião entrou em operação comercial, com a primeira entrega realizada para a Continental Express, subsidiária regional da Continental Airlines. A Rio Sul, subsidiária da Varig, foi responsável por introduzir o ERJ 145 nas linhas regionais brasileiras, onde foi batizado de Jet Class.
O ERJ 145 rapidamente conquistou espaço em rotas de curta e média distância, oferecendo a velocidade e o conforto de um jato em comparação aos turboélices que dominavam o segmento até então.
Com capacidade para até 50 passageiros em configuração 2-1, o avião foi equipado com motores Rolls-Royce AE 3007, capazes de levá-lo a velocidades de cruzeiro próximas de Mach 0,78 e a um teto operacional de 37 mil pés. O alcance variava de acordo com a versão. O modelo inicial podia voar por aproximadamente 2.000 quilômetros, enquanto variantes posteriores, como a ERJ-145XR, podiam superar os 3.500 quilômetros, permitindo voos mais longos e flexíveis.

A simplicidade de operação e a comunalidade entre as versões da família — que incluíam também o ERJ-135 e o ERJ-140, ambos de menor capacidade — foram pontos decisivos para seu sucesso. Essa modularidade facilitava treinamento de pilotos e manutenção, tornando a frota mais atraente para operadores regionais. Nos Estados Unidos, maior mercado do mundo para esse tipo de aeronave, o ERJ-145 voou em empresas como American Eagle, ExpressJet e Envoy, conectando cidades médias a grandes hubs e servindo como “alimentador” para malhas aéreas mais amplas.

A trajetória do ERJ-145, contudo, não se limitou ao transporte comercial de passageiros. A plataforma deu origem a variantes militares e de missões especiais, destacando-se o EMB-145 AEW&C, conhecido na Força Aérea Brasileira como R-99A, equipado com radar Erieye de varredura eletrônica. Essa versão transformou o jato regional em um vetor estratégico de alerta aéreo antecipado, com capacidade de monitorar centenas de alvos a distâncias superiores a 350 quilômetros.
Outras adaptações foram feitas para missões de vigilância de fronteiras, patrulha marítima e guerra eletrônica, reforçando a versatilidade do projeto. Países como Grécia, Índia e México adquiriram versões militares baseadas no ERJ 145, ampliando a presença da Embraer no setor de defesa. No caso indiano, a integração de sistemas foi realizada localmente, em linha com o objetivo de ampliar a capacitação da indústria militar nacional.
Além disso, foi a base para o desenvolvimento do Legacy, derivado do ERJ-135 e que inseriu a Embraer no competitivo mercado da aviação de negócios.
Ao longo de sua produção, encerrada oficialmente em 2020, mais de 1.200 unidades da família ERJ e Legacy foram entregues, consolidando o programa como um dos mais bem-sucedidos de sua categoria.

Embora muitos operadores tenham iniciado a substituição por jatos regionais de maior capacidade, como os E-Jets da própria Embraer, o ERJ 145 permanece em operação em diversas companhias aéreas, especialmente em mercados secundários na África, América Latina, Ásia e mesmo nos Estados Unidos. Em algumas regiões, continua sendo uma solução viável para rotas de baixa demanda, onde aeronaves maiores não se mostram economicamente justificáveis.
O legado do ERJ 145 vai além dos números de produção e das rotas atendidas. O modelo representou um salto tecnológico para a Embraer, que pela primeira vez aplicou de forma ampla técnicas digitais de projeto e ensaios em túnel de vento de última geração. Também foi o primeiro programa da empresa a adotar a estratégia de parcerias de risco com fornecedores internacionais, prática que se tornaria comum nos programas seguintes, como os E-Jets e o KC-390.

