Fim de tarde no interior paulista. A luz baixa corre pelos talhões da Lagoa do Sino. Um homem atravessa o pátio devagar. A fazenda comprada em 1984 foi doada, décadas depois, à Universidade Federal de São Carlos. Nasceu ali o campus Lagoa do Sino. Na porteira, um ônibus freia. Estudantes descem com cadernos contra o peito. A biblioteca acende as lâmpadas enquanto a noite chega. O gesto foi renúncia e escolha: entregar a terra à educação e recolher a vida ao trabalho que dispensa plateia.
Na memória, 1975 continua preso a um calendário rasgado. “Lavoura Arcaica” sai da gráfica ainda com cheiro de tinta e puxa leitores para dentro de uma casa de bênçãos e vigílias. Logo adiante, “Um Copo de Cólera” contrai a manhã em sete cortes e deixa no dia uma cicatriz nítida. Depois desses clarões, ele prefere a cadência da roça ao giro de palcos e entrevistas. O Prêmio Camões chega anos depois, seguido de um discurso breve em Brasília. Cai a tarde. O capim deita. Quem o procura precisa atravessar primeiro os livros.
De onde vem essa voz? Pindorama, 1935: casa de libaneses, balcão de armazém, caderno de contas; plantações medidas no olho; bênçãos ditas com parcimônia em torno da mesa. O menino guarda palavras como sementes no bolso; lê cedo; aprende o passo entre mandamento e desejo; transforma oração em ritmo. Dessa matéria nasce a língua de “Lavoura Arcaica”, promessa e peso, apetite e remorso, fidelidades fendidas, e, mais adiante, o estalo de “Um Copo de Cólera”, quando um encontro se parte só com o que se diz. O interior grava o timbre antes da assinatura; o resto da vida confirma a opção mais dura: permanecer com o essencial, em silêncio.
Entre a poeira do interior e o asfalto de São Paulo, a adolescência encontra passagem. Nos anos 1950 ele atravessa a cidade com atenção demorada; passa pelo Largo São Francisco, ronda Filosofia na USP, descobre nas bibliotecas um abrigo severo. A leitura serve de disciplina e incômodo. A escrita vem febril e baixa, exigindo silêncio e coragem para afastar distrações. A metrópole oferece exigência crítica; o interior preserva um compasso antigo. O jovem que sobe ladeiras guarda nas mãos a aspereza da roça e, na cabeça, o sussurro de páginas ainda inexistentes; aos poucos, a língua que o convoca deixa de parecer projeto e começa a respirar.
Quando o primeiro romance chega às livrarias, o ar fica mais pesado na sala. O livro puxa o leitor para dentro de uma sala onde bênção e desejo se enfrentam. A figura do pai tem peso de púlpito; o filho responde com fala atiçada pelo exílio do corpo. A velha história do pródigo abandona os sermões e põe os pés no chão: agricultura e culpa, autoridade e vontade de ruptura. Nenhuma tese à vista; uma sintaxe em combustão que se prova linha após linha, cada frase atravessando fogo para existir. A crítica sente o terreno mover; leitores discretos guardam a vertigem sem alarde, porque certos livros reorganizam a casa por dentro e, quando se percebe, as paredes já mudaram de lugar.
Em 1978, “Um Copo de Cólera” encurta a respiração em sete seções, cada uma um estalo. Um homem e uma mulher, a cama e a mesa; a manhã que começa limpa e termina desfeita. A política dispensa cartaz para estar presente; infiltra gesto, tom, modos de mando. O país vive sombra e controle, e o romance captura esse ar com economia cortante. As frases avançam como lâminas cuidadosas; um dia comum se revela exame minucioso do poder que afeto algum resolve. No fim, resta uma ferida exata, uma lucidez amarga sobre o que as palavras fazem quando decidem ferir e não recuar.
Com dois livros delineia-se um eixo discreto para a ficção brasileira. “Lavoura Arcaica” entra entre as obras decisivas da segunda metade do século 20; “Um Copo de Cólera” torna-se referência de intensidade formal e de ética da linguagem. Anos depois, “Menina a Caminho e Outros Textos” revela contos maturados em longa fervura, não apêndices, mas nervo. Em 2001, o cinema se aproxima de “Lavoura Arcaica” e trata o texto com o ouvido encostado numa parede viva: preserva a respiração e o assombro, não cede à pressa. O conjunto, corpo breve e ardente, atrai novos leitores, atravessa salas de aula, encontra traduções, cria fidelidades silenciosas. Catálogos rendem menos do que o contato com a página; basta tocá-la para que o timbre acorde.
Enquanto o país gira em lançamentos e feiras, ele fecha a porta com calma. A literatura permanece no que já está dito; a vida, nas tarefas que dispensam plateia: medir bebedouros ao amanhecer, esticar arame, reparar cercas, ouvir a passagem das horas no passo do gado. O calendário obedece ao céu e às chuvas. Ao lado, o campus Lagoa do Sino, da UFSCar, lateja: corredores frios ao meio-dia, biblioteca acesa no crepúsculo, e o conhecimento encontra abrigo no mesmo chão que ensinou contenção. Sem alarde; fidelidade às coisas que crescem devagar.
A ausência, paciente, levanta mitos. Contam anos, imaginam um terceiro livro, pedem mapas e bastidores, a fórmula de uma voz. Ele deixa que as perguntas batam no papel e voltem ao leitor; quando precisa falar em público, a fala vem nítida o bastante para deslocar o ar, e depois se recolhe. O nome cresce em voz baixa, água correndo por baixo da terra. No fim da tarde, quando um ônibus universitário freia na porteira e os estudantes descem com cadernos contra o peito, uma edição de “Lavoura Arcaica” aberta no colo, a orelha dobrada como marcador, a pastagem se inclina e o silêncio se adensa por um instante. A obra permanece no intervalo entre o que existe e o que falta.
Rótulos de época amputam o que pulsa numa obra. Nos anos 1970, sob censura e vigilância, a ficção brasileira oscila entre a frontalidade do embate e a investigação de forma; Raduan desloca o ponteiro para outra frequência, anterior e atravessada pelo tempo histórico. Em “Lavoura Arcaica”, a casa vira palco de ritos e desobediências; a fala do pai codifica lei antiga, a do filho risca a linha do desvio. A narrativa do pródigo retorna com terra nos pés e culpa nos talheres. Em “Um Copo de Cólera”, uma manhã comum transforma o encontro amoroso em zona minada por palavra e tom; o circuito do mando expõe humilhações que a intimidade costuma encobrir. O país parece do lado de fora e, no entanto, pesa no pulso, uma pressão que altera o compasso de quem lê.
Os contos de “Menina a Caminho e Outros Textos” mostram a mão que sustenta o fôlego do período e, ao mesmo tempo, escuta o intervalo que antecede o golpe. É escrita de precisão ardida, que pede atenção paciente, quase ritual. Leitores alérgicos à simplificação encontram um pacto exigente: desejo e limite encenados sem cartazes, com a economia de quem confia no eco das cenas. O conjunto preserva fulgor porque recusa abundância: páginas raras, combustão alta, fidelidade ao essencial. O fascínio atravessa décadas nesse espaço entre o que se oferece e o que se guarda, ponto de retorno da memória do leitor.
Voltemos ao terreiro. O homem se afasta; a luz recolhe o resto do dia; a cerca chia leve e o capim se inclina. Do curral chega um tinido curto; no bebedouro a água aguarda a primeira estrela. O que ele escreveu permanece aceso na mão de quem fecha o livro, claridade tardia que não se apaga. O que ficou por escrever ocupa o espaço com calma que impõe respeito; o país inteiro cabe nessa pausa. A lavoura pede chuva; a outra, de 1975, mantém o pedido de silêncio. Raduan concentra a presença no mínimo: dois livros, um gesto de retirada, uma fidelidade. O leitor ergue os olhos e, por um instante, a paisagem fica suspensa; nada sai do lugar e, ainda assim, tudo mudou. O campo permanece inteiro. A literatura, também.
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