A promessa de um aeroporto na Nigéria deu origem à maior fraude internacional contra um banco brasileiro
A fraude que desviou US$ 242 milhões do Banco Noroeste nos anos 1990 teve como eixo a promessa de retornos milionários com a construção de um grande aeroporto internacional na Nigéria. O golpe só veio à tona três anos depois, durante o processo de venda do banco ao Santander, quando auditores identificaram saldos incompatíveis em contas offshore nas Ilhas Cayman.
A trama começou em março de 1995, após o diretor do banco, Nelson Sakaguchi, receber um fax convidando-o a participar de uma suposta operação ligada ao projeto aeroportuário nigeriano.
Convencido pela proposta, ele viajou a Londres, entregou US$ 35 mil e passou a enviar valores cada vez maiores — mais US$ 4,65 milhões entre maio e junho daquele ano. A partir daí, telefonemas, reuniões e documentos falsos mantiveram o executivo preso ao esquema.
Entre 1995 e 1998, Sakaguchi autorizou 94 transferências irregulares para dezessete destinatários no exterior, manipulando registros contábeis com apoio de subordinados, onde acreditando tratar-se de uma operação de alta rentabilidade, remeteu mais de US$ 190 milhões.
Ainda que afirme ter obtido uma aprovação verbal para avançar com o investimento na Nigéria, a diretoria do banco negou ter autorizado qualquer iniciativa do tipo. Mesmo afastado do cargo em 1998, Sakaguchi fez um último pagamento de US$ 250 mil de recursos pessoais, convencido de que precisava cumprir exigências adicionais para liberar um montante fictício de mais de US$ 400 milhões.
Um dos aspectos mais insólitos do caso foi o repasse de US$ 4 milhões a US$ 12 milhões a uma mãe de santo entre 1995 e 2001, supostamente para “proteger” a operação ou reverter prejuízos. Esses pagamentos, sem respaldo documental, reforçaram para a Justiça o caráter temerário da conduta.
Ao longo das investigações, Sakaguchi apresentou versões contraditórias — de perdas cambiais a promessas de lucros extraordinários —, mas a Justiça Federal concluiu que ele agiu com dolo, usando sua posição para driblar controles internos. Para o juiz Marcelo Cavalli, fosse vítima de golpe internacional ou cúmplice dos fraudadores, o ponto central era que sua atuação foi deliberada e clandestina.
A dimensão internacional da fraude ampliou a complexidade da apuração. Contadores forenses rastrearam movimentações em mais de 300 contas na Europa, Ásia, EUA e Nigéria. Na Suíça, o congelamento de valores ligados ao fraudador Emmanuel Nwude permitiu reconstruir o fluxo dos recursos até a África Ocidental. Foram identificados os principais articuladores — Nzeribe Edeh Okoli, Nwude, Christian Anajemba e outros intermediários —, levando à abertura de processos em Hong Kong, Inglaterra, EUA, Suíça e Nigéria. Ordens judiciais britânicas obrigaram bancos nigerianos a cooperar, sob risco de bloqueio de ativos em Londres.
Com a criação da agência anticorrupção nigeriana, em 2003, novas provas resultaram na prisão dos envolvidos e em acordos de restituição homologados em 2005: a família Anajemba aceitou devolver US$ 48 milhões e Nwude, US$ 120 milhões.
Embora nem todo o valor tenha sido pago, cerca de US$ 138 milhões foram recuperados — o maior resgate internacional relacionado a uma fraude bancária envolvendo o Brasil.
No Brasil, o caso desencadeou disputas entre os ex-controladores do Noroeste e a Price Waterhouse, responsável pela auditoria do banco. As famílias Cochrane e Simonsen acusaram a empresa de falha ao não detectar discrepâncias contábeis nas operações internacionais. O Tribunal de Justiça de São Paulo reconheceu responsabilidade concorrente e fixou indenização de R$ 25 milhões.
O caso Noroeste tornou-se símbolo das vulnerabilidades dos bancos brasileiros nos anos 1990: controles internos frágeis, auditorias falhas, operações internacionais pouco monitoradas e uma fraude que começou com um simples fax sobre um aeroporto africano fictício — e terminou como um dos maiores rombos da história financeira do país.
Este texto é uma versão condensada da reportagem publicada na edição 379, de dezembro de 2025
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