Em “53 Domingos”, dirigido por Cesc Gay, uma família se reúne em um apartamento, nos dias atuais, para tomar uma decisão urgente: o que fazer com o pai, cuja saúde física e comportamento recente passaram a exigir cuidados constantes, e ninguém parece realmente preparado para assumir essa responsabilidade.
A princípio, o encontro tem um objetivo claro e até prático: organizar a vida do pai antes que a situação piore. Os filhos chegam com ideias na cabeça, planilhas invisíveis de quem pode fazer o quê, e aquela expectativa silenciosa de que alguém, em algum momento, vai ceder mais do que os outros. Só que, como acontece em muitas famílias, o problema não é apenas o presente. O passado entra na conversa sem pedir licença.
As personagens vividas por Alexandra Jiménez, Javier Cámara e Carmen Machi não estão ali apenas para resolver um impasse logístico. Cada uma carrega uma história própria com aquele pai, e, talvez mais importante, entre si. O que começa como uma conversa organizada rapidamente se transforma em uma sucessão de interrupções, ironias e pequenas disputas de autoridade. Ninguém levanta a voz de imediato, mas também ninguém escuta de verdade.
Cesc Gay constrói essa dinâmica com precisão quase desconfortável. O espaço é limitado, os diálogos se sobrepõem e a sensação é de que estamos assistindo a algo que não foi feito para ser visto de fora. Há um ritmo muito particular nessas interações: alguém tenta impor uma solução, outro rebate com um argumento antigo, um terceiro muda de assunto tentando aliviar a tensão, e falha. A conversa avança, mas sempre carregando o peso do que ficou mal resolvido.
O personagem de Javier Cámara, por exemplo, tenta assumir uma posição de liderança, como se estivesse mais apto a decidir pelo grupo. Ele organiza ideias, propõe soluções, tenta dar encaminhamento. Mas essa postura, que poderia destravar o problema, acaba gerando o efeito oposto. Alexandra Jiménez reage com desconfiança, questiona intenções, revisita episódios antigos que enfraquecem essa autoridade. Carmen Machi, por sua vez, oscila entre a tentativa de conciliação e momentos de irritação mais direta, como quem já perdeu a paciência há algum tempo.
O interessante é que ninguém está completamente errado, e isso torna tudo mais difícil. As decisões práticas, como dividir tarefas ou estabelecer uma rotina de cuidados, parecem simples no papel, mas esbarram em ressentimentos acumulados. Não se trata apenas de quem pode ajudar, mas de quem ajudou antes, quem falhou, quem se ausentou, quem ficou. Cada proposta vem acompanhada de um histórico invisível que pesa mais do que qualquer argumento racional.
E, no meio disso tudo, há o pai. Curiosamente, ele não precisa estar o tempo todo em cena para dominar o ambiente. Sua condição funciona como uma espécie de urgência silenciosa: o tempo está passando, as decisões precisam ser tomadas, mas a família segue girando em torno de si mesma, como se resolver o passado fosse pré-requisito para lidar com o presente.
Há também um toque de humor, discreto, mas essencial. Não é o tipo de comédia que provoca gargalhadas, e sim aquele riso meio nervoso, que surge quando alguém diz algo inconveniente demais para ser ignorado. Pequenos comentários, olhares atravessados, tentativas frustradas de mudar de assunto. É o humor de quem já conhece demais o outro para levar tudo ao pé da letra.
O roteiro aposta quase exclusivamente nos diálogos, e isso pode afastar quem espera grandes viradas ou acontecimentos mais visuais. Aqui, o conflito é interno, verbal, acumulativo. Cada frase dita altera levemente o equilíbrio da sala. Cada silêncio também. E, aos poucos, o que parecia uma simples reunião familiar se revela um campo minado emocional, onde qualquer passo em falso pode reacender discussões antigas.
Ainda assim, “53 Domingos” nunca perde o controle. Mesmo nos momentos mais tensos, há uma sensação de reconhecimento. Aquela discussão poderia acontecer em qualquer família, em qualquer cidade. Talvez seja isso que torna o filme tão incômodo, e, ao mesmo tempo, tão envolvente.
O que se constrói é um retrato honesto de como as pessoas negociam afeto, culpa e responsabilidade quando são obrigadas a agir juntas. Ninguém sai completamente satisfeito. Ninguém sai ileso. Mas, de alguma forma, algo precisa seguir adiante, nem que seja no improviso, no cansaço ou naquele acordo meio torto que todo mundo finge aceitar só para conseguir respirar.
Filme:
53 Domingos
Diretor:
Cesc Gay
Ano:
2026
Gênero:
Drama
Avaliação:
8/10
1
1
Fernando Machado
★★★★★★★★★★
O NBA Park Gramado lançou uma programação especial de Páscoa com atividades temáticas que acontecem…
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, avaliou nesta segunda-feira (30) que o Brasil está…
Ao longo dos anos, as fragrâncias masculinas passaram por diversas transformações, mas poucas tão significativas…
Um voo da Delta Air Lines que partiria de São Paulo rumo aos Estados Unidos…
“O inverno está chegando” para a Hapvida (HAPV3), segundo o Morgan Stanley, que manteve recomendação…
O ex-participante do Big Brother Brasil 26, Pedro Espíndola, se envolveu em uma briga na…