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O filme poético sobre solidão e amadurecimento na Mubi

O filme poético sobre solidão e amadurecimento na Mubi

Durante algum tempo de filme, “Tendaberry” me fez sentir como se estivesse vendo um filme de Benny Safdie. Não por causa do ritmo acelerado, da fotografia saturada ou dos ruídos sonoros incômodos. Nada disso. É que Haley Elizabeth Anderson desenha sua protagonista de um jeito que me transporta direto para “Joias Brutas” ou “Marty Supreme”. Dakota (Kota Johan) é uma jovem dominicana de 23 anos que mora no sul do Brooklyn e sobrevive cantando e tocando no metrô. Quando ela conhece o ucraniano Yuri (Yuri Pleskun), é como se sua vida finalmente ganhasse algum eixo, algum tipo de promessa.

Ambientado na Nova York pós-pandêmica, o longa retrata a rotina desses jovens imigrantes tentando existir mesmo sem grandes perspectivas. Mas o eixo dramático acaba pesando mais sobre a nacionalidade de Yuri do que sobre a de Dakota. Quando o pai dele adoece, o rapaz precisa voltar para a Ucrânia, deixando a namorada nos Estados Unidos. No começo, eles mantêm contato por videochamadas. Com o avanço da Guerra da Ucrânia, porém, a comunicação se torna instável e a esperança de reencontro cada vez mais improvável. Eles não discutem política, não verbalizam grandes discursos sobre o conflito, mas a guerra invade o filme pelas bordas, nos noticiários que Dakota assiste, na ansiedade silenciosa de quem espera uma mensagem que talvez nunca venha.

Mas voltando aos Safdie: o que me remete ao cinema deles não é a forma, e sim a construção moral da personagem. Dakota não é exatamente um modelo moral, mas o filme tampouco tenta santificá-la ou condená-la. Vulnerabilizada por sua condição social e emocional, ela toma decisões ruins com uma insistência quase dolorosa. Rouba produtos do mercado onde começa a trabalhar, cospe no lanche das colegas, chega atrasada, cai no golpe de um suposto agente imobiliário. São escolhas pequenas, mas que vão fechando o cerco ao redor dela. E há ainda o elemento mais delicado: Dakota descobre que está grávida de Yuri, que deixou de dar notícias. Com a barriga crescendo e o dinheiro inexistente, ela tenta sobreviver aplicando pequenos golpes, sempre acreditando que, dessa vez, vai dar certo. Nunca dá. Quanto mais tenta se salvar, mais se complica.

E, ainda assim, a protagonista de Anderson paga o preço e amadurece. Reencontra algum tipo de identidade possível. Sobrevive. O filme não traz grandes reviravoltas nem constrói um clímax explosivo. Anderson está interessada na vida em estado bruto: na normalidade, no cansaço, na trivialidade que pesa. Nos minutos finais, a fotografia muda de tom e assume um olhar mais contemplativo. A voz de Dakota surge sobre as imagens como uma espécie de oração íntima, dirigida a Yuri e a si mesma, como se precisasse organizar o caos interno para continuar.

Embora filmado majoritariamente em digital, o longa incorpora também 16mm e Super 8, criando texturas que reforçam essa sensação de memória, de fragmento, de algo vivido e rememorado ao mesmo tempo. É verdade que o filme poderia ser mais enxuto, há cenas longas que parecem se estender além do necessário. Ainda assim, “Tendaberry” nasce de um impulso interno puro, quase confessional, de Anderson. E isso transparece. Pode não ser um filme feito para agradar todo mundo, mas é um filme que pulsa com verdade.

Filme:
Tendaberry

Diretor:

Hailey Elizabeth Anderson

Ano:
2024

Gênero:
Drama/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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