Suparn Varma dirige “Um Direito Meu” e coloca Yami Gautam Dhar, Emraan Hashmi, Sheeba Chaddha e Danish Husain no centro de uma disputa que começa dentro de casa e vai parar na mesa do juiz. Shazia Bano é deixada por Abbas quando ele leva Saira, a segunda esposa, para dentro do lar e corta o caminho mais óbvio de sobrevivência, a manutenção dos filhos, na Índia dos anos 1980. A casa vira campo minado. O que era conversa de quarto e cozinha vira conta vencida, porta fechada e um pedido de pensão que precisa de papel, carimbo e audiência.
O primeiro gesto público vem cedo, com Shazia entrando em estúdio para uma entrevista em 1985, como se fosse obrigada a organizar a própria história antes que o tribunal a organize por ela. Tudo volta em flashback. A volta ao início recoloca o retorno de Abbas com Saira sob o mesmo teto, e a convivência passa a ser medida por dinheiro, espaço e silêncio, mais do que por afeto. Sem aumentar a voz, o ambiente vai apertando, e Shazia percebe que a humilhação doméstica pode virar sentença prática quando a manutenção some.
Quando ela tenta garantir o valor mensal, Abbas aceita e depois corta o que prometeu, empurrando a disputa para papel timbrado e para a fila do fórum. A promessa dura pouco. Ele é advogado e usa essa vantagem como arma, tentando empurrar o pedido para o terreno do “costume” e transformar necessidade em discussão abstrata, longe da mesa e do prato. Shazia não está pedindo discurso, está pedindo sustento, e o filme se fixa nesse atrito de linguagem, uma fala treinada de um lado e a urgência do outro.
O movimento mais duro aparece quando Abbas tenta encerrar deveres com o triple talaq, repetindo o “talaq, talaq, talaq” como se a voz fosse carimbo e a repetição apagasse contas. Três palavras viram faca. Shazia procura a Justiça civil e encontra apoio na advogada Bela Jain, e o caso passa a bater de frente com o choque entre lei civil e constitucional e normas pessoais religiosas ligadas a casamento e divórcio. A discussão cresce e sai do privado, mas a base continua simples, quem paga, quem sustenta, quem responde quando a separação é decretada por uma fala.
As audiências viram rotina, com Shazia sentada diante de regras que parecem mudar conforme quem as invoca, e com Abbas tentando acelerar o fim da história para que a obrigação termine junto. O tribunal pesa no corpo. Bela Jain aparece como aliada no caminho formal, e Shazia volta ao corredor como quem volta ao trabalho, porque a disputa não é um evento, é uma sequência de entradas e saídas, perguntas e respostas, espera e repetição. O filme não depende de frases brilhantes para mostrar o desgaste, ele insiste em olhar para o bolso apertado e para a insistência necessária para chegar, sentar e ouvir de novo.
Sem entregar um desfecho, “Um Direito Meu” acompanha essa travessia do estúdio de 1985 para a casa reorganizada pela chegada de Saira e para o corredor de audiências onde o caso cresce até virar debate nacional. Nada se resolve numa frase. Abbas tenta usar o triple talaq como atalho de fala, Shazia insiste em levar a conta para o lugar onde ela pode ser discutida em público, com papel, assinatura e contraditório. O selo bate seco no papel.
Filme:
Um Direito Meu
Diretor:
Suparn Varma
Ano:
2025
Gênero:
Drama
Avaliação:
8/10
1
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Amanda Silva
★★★★★★★★★★

