Assinado por Tinto Brass e remontado por Thomas Negovan, “Calígula: O Corte Final” recoloca Malcolm McDowell, Helen Mirren, Peter O’Toole e Teresa Ann Savoy no centro de uma Roma corroída antes mesmo da coroação. Macro, chefe da Guarda Pretoriana, leva a ordem para que Calígula siga até Capri e se apresente a Tibério, enquanto um pássaro negro atravessa o quarto como presságio e Drusilla já aparece colada ao futuro imperador numa intimidade que mistura afeto, desejo e interesse.
Capri e a sucessão
Capri concentra a primeira virada. Tibério surge num retiro de decomposição física e moral, cercado por um ambiente gasto e ameaçador, e Calígula hesita diante da chance de matá-lo antes que Macro resolva a sucessão com as próprias mãos. O sangue sela a passagem. Ao retirar o material pornográfico acrescentado por terceiros décadas atrás, a nova montagem aperta o foco nesse gesto, no quarto de Tibério e no modo como o assassinato deixa de soar como acidente de percurso para assumir o peso de fundação do reinado. O poder nasce ali, num espaço já podre.
Quando Calígula assume o trono, Roma vira praça de punição e corredor de suspeita. Drusilla permanece por perto como vínculo afetivo e força de influência, Caesonia deixa de ser figura decorativa e passa a ocupar um lugar efetivo ao lado do imperador, enquanto o aviso sobre a possível traição de Macro espalha medo pelos salões do palácio. Ninguém pisa em chão seguro. A execução pública do antigo aliado, com a decapitação convertida em espetáculo, organiza esse governo como rotina de intimidação, em que prazer, castigo e propaganda se misturam diante de todos. O império passa a ser conduzido como se a autoridade precisasse ser reafirmada a cada gesto.
Forma e reorganização
Essa reorganização aparece também na forma. A sequência animada de abertura, a trilha composta por Troy Sterling Nies e a retirada das inserções hard-core deslocam o eixo de um título que durante muito tempo circulou mais como sinônimo de escândalo do que como drama histórico sobre degradação política. O ruído muda de lugar. McDowell passa a dominar melhor os interiores palacianos, as cenas de governo e os acessos de paranoia, e Caesonia ganha relevo numa engrenagem íntima que mostra como o império se move não só pelo terror público, mas também por relações privadas corrompidas. Sexo, violência e administração deixam de parecer blocos separados.
Os cenários monumentais de Roma e Capri ajudam nessa leitura porque a decadência não paira no vazio, ela ocupa colunas, escadarias, salões, quartos e corpos. O casamento com Caesonia em busca de herdeiro, o vínculo incestuoso com Drusilla, o corpo adoecido de Tibério e a decapitação de Macro compõem um quadro em que o poder invade a cama, a família e a praça pública ao mesmo tempo. Tudo passa pelo corpo. A remontagem não transforma esse material em peça sutil, mas consegue alinhar melhor as partes e dar unidade a um longo percurso de paranoia, culto à personalidade e crueldade. O excesso continua presente, agora preso a lugares, ações e relações mais nítidos.
Roma sem ar
A força desta versão está em devolver o centro ao poder e ao estrago que ele produz. Do pássaro negro no quarto ao retiro de Capri, da morte de Tibério ao espetáculo da execução de Macro, do casamento com Caesonia ao apego a Drusilla, tudo empurra Calígula para a confusão entre soberania e licença para destruir quem estiver ao redor. Roma perde o ar. Nem toda passagem encontra o mesmo pulso, e alguns diálogos ainda carregam o peso do exagero, mas a linha principal se firma o bastante para que McDowell, os salões do palácio e o terror da corte deixem de parecer mera curiosidade antiga. No fim da sessão, ficam a pedra fria, o corredor comprido e o rumor seco de sandálias no palácio.
Filme:
Calígula: O Corte Final
Diretor:
Tinto Brass
Ano:
2023
Gênero:
Drama/Épico/História
Avaliação:
9/10
1
1
Marcelo Costa
★★★★★★★★★★

