Dirigido por Tom Harper, com Cillian Murphy, Barry Keoghan, Rebecca Ferguson e Sophie Rundle em posições decisivas, “Peaky Blinders: O Homem Imortal” reencontra Thomas Shelby em Birmingham, em 1940, quando a Segunda Guerra já alterou o ritmo das ruas, dos negócios e da própria ideia de poder. Nada aqui começa em paz. Longe da família e afastado da cidade, Tommy vive um exílio voluntário, passa os dias escrevendo um livro e tenta organizar a própria memória como quem junta destroços depois de uma explosão. A volta só se impõe quando Duke, o filho afastado, já aparece enredado ao nome Shelby não como sombra inconveniente, mas como presença ativa, pronta para ocupar espaço no presente.
Esse retorno não leva Tommy a um cenário qualquer, mas a uma Birmingham ferida por bombas, fuligem, canais escuros e fábricas que parecem trabalhar mesmo quando estão paradas. Tudo pesa no ar. Ada o puxa de volta ao convívio familiar, enquanto Kaulo reabre a ligação com as raízes ciganas dos Shelby e desloca o retorno para um terreno em que o chamado prático e o chamado íntimo caminham juntos. Harper acerta ao filmar essa cidade como matéria viva, sem limpar a sujeira das paredes nem o cansaço do personagem, como se o concreto rachado e o corpo gasto fossem partes do mesmo retrato.
Duke entra em cena não apenas como herdeiro biológico, mas como prova incômoda de que a violência cultivada por Tommy atravessou o tempo e chegou a outra geração mais brusca, mais impaciente e menos dada a hesitar. O perigo cresce rápido. Sua aproximação de John Beckett, figura ligada ao nazismo, empurra a história para um lugar em que crime, política e guerra deixam de correr em trilhos separados e passam a formar um mesmo bloco de ameaça. Quando o dinheiro falso e a sabotagem econômica se tornam motores do conflito, o velho repertório dos Shelby deixa de caber apenas nas esquinas de Birmingham, e o confronto entre Tommy e Duke, jogado na lama e na chuva, faz do vínculo de sangue uma colisão física.
Steven Knight escreve Tommy como alguém que já não domina o tabuleiro com a mesma segurança de antes e precisa medir o tamanho do estrago que ajudou a criar. O passado cobra em silêncio. A imagem do homem isolado numa casa em ruínas, tentando registrar lembranças, prepara o movimento seguinte, porque ele precisa sair desse esconderijo para encarar Duke, Beckett e um esquema de falsificação ligado ao esforço de guerra, inspirado na Operação Bernhard. Essa mistura de acerto íntimo e turbulência histórica dá ao filme um peso mais áspero, sem transformar Tommy em estátua nem aliviá-lo do que carregou até aqui.
Harper também sabe que uma despedida desse tamanho depende de ritos que o personagem já transformou em marca, da volta ao terno e à boina ao uso da trilha de Nick Cave como senha imediata de reconhecimento. Basta um gesto desses. Em vez de usar esses sinais apenas como afago para o fã, ele tenta colocá-los dentro de um ambiente mais duro, feito de ruínas industriais, corredores escuros, rostos em close e uma Birmingham que parece ter sido mastigada pela guerra. O longa às vezes tem o tamanho e a cadência de um último episódio esticado, mas encontra força quando não se apoia apenas no prestígio do nome Shelby e insiste em mostrar o peso material da cidade, do barro e da fumaça.
Cillian Murphy segura o centro ao compor um homem dividido entre o impulso de apagar a própria história e a velha atração por voltar ao fogo quando a família ameaça desabar. Barry Keoghan faz de Duke algo mais inquietante do que um simples reflexo jovem de Tommy, sobretudo quando o personagem se aproxima de Beckett, do dinheiro falso e do oportunismo político daqueles anos. O sangue não resolve nada. Sem tocar no desfecho, “Peaky Blinders: O Homem Imortal” encontra sua melhor forma quando junta guerra, herança e cidade arrasada como um único nó, preso menos a discursos do que a corpos cansados, paredes rachadas e chuva acumulada sobre a boina escura no barro de Birmingham.
Filme:
Peaky Blinders: O Homem Imortal
Diretor:
Tom Harper
Ano:
2026
Gênero:
Crime/Drama/História
Avaliação:
9/10
1
1
Marcelo Costa
★★★★★★★★★★
Logo no início de “Downhill”, Billie (Julia Louis-Dreyfus) e Pete (Will Ferrell) chegam com os…
Descubra quanto custa um motor do Boeing 747, análise do mercado, manutenção e impacto na…
Milhares de pessoas voltaram a ocupar as ruas de Portugal neste sábado (21) para protestar…
Criar oportunidades para que crianças com deficiência visual participem de brincadeiras não apenas contribui para…
Sam Mendes dirige “Foi Apenas um Sonho” apoiado na química áspera de Kate Winslet, Leonardo…
O Castelo de Buda, um complexo histórico de castelo e palácio em Budapeste, Hungria, situado…