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O filme indiano mais comentado do ano está na Netflix — e tem um final devastador

“Baramulla” provoca uma espécie de alerta silencioso: a percepção de que toda verdade política nasce de uma dor particular. O que se apresenta primeiro como um thriller envolvendo o desaparecimento de crianças rapidamente se converte em um estudo lúcido sobre o modo como a história pressiona indivíduos a carregarem culpas que não escolheram. A investigação policial deixa de ser apenas um procedimento institucional e torna-se a metáfora de uma busca maior por sentido em uma região marcada por fronteiras impostas e feridas que se recusam a cicatrizar.

O filme acompanha um oficial que desembarca no vale para assumir o caso do filho de um ex-parlamentar local. À medida que os desaparecimentos se multiplicam, o personagem percebe que sua autoridade não possui o alcance que espera e que sua própria família está vulnerável. O sumiço da filha destitui a posição de servidor do estado e o transforma em alguém que procura respostas fora das explicações oficiais. As pistas materiais passam a dividir espaço com interferências que desafiam certezas: ruídos inexplicáveis, presenças que ninguém admite ver, memórias que invadem o cotidiano como se exigissem reparação. O horror aqui não depende de sustos; nasce do choque entre aquilo que o protagonista crê racional e tudo o que insiste em escapar à análise.

O sentimento de ameaça coletiva funciona como espelho de outra violência, menos visível, mas constantemente atualizada. Crianças arrancadas do convívio familiar encontram paralelo nas gerações que tiveram seus destinos alterados por decisões políticas que jamais as consultaram. O filme toca nesse ponto sem recorrer à retórica emocional. A conexão entre o recrutamento forçado e as cicatrizes da região evita didatismos e expõe o ciclo de substituição entre vítimas e algozes. A geografia da Caxemira assume o papel de testemunha incômoda: a beleza do entorno contrasta com sua condição de território vigiado, onde o silêncio é apenas a pausa entre uma tragédia e outra.

Mesmo quando o sobrenatural irrompe, ele não contradiz a lógica interna da narrativa. Ao contrário, funciona como consequência da sobrecarga de dor acumulada. O fantasma não simboliza um afastamento da realidade, mas sua extensão mais radical: a persistência de quem não teve a chance de concluir seus próprios vínculos. Esses elementos sugerem que a história não se limita a desvendar quem sequestra os jovens, e sim por que fantasmas continuam retornando a esse lugar. O filme propõe que o passado não terminou e que qualquer tentativa de ignorá-lo apenas fortalece seu retorno.

O protagonista encarnado por Manav Kaul se sustenta na contenção. Não existe heroísmo melodramático em sua postura. Ele articula dever e afetividade como quem sabe que a racionalidade é insuficiente diante de estruturas que se consolidaram muito antes de sua chegada. Quando hesita diante do inexplicável, não o faz por fragilidade, mas pela consciência de que certas respostas exigem abandonar a ilusão de controle. Sua trajetória articula o colapso do policial com o esforço do pai que se recusa a admitir que alguns destinos sejam irreversíveis.

A direção compreende que os conflitos daquela terra não podem ser resolvidos apenas com palavras. Cada plano é composto para revelar a tensão entre vigilância e intimidade: casas cercadas por sombras, ruas que ecoam ausências, o frio que parece impedir qualquer afeto de se manter aquecido por muito tempo. A fotografia não busca embelezar; registra um ambiente que tenta preservar alguma forma de vida em meio a permanentes ameaças. O som das montanhas, o vazio das madrugadas, tudo reforça a expectativa de que algo sempre está prestes a ruir.

“Baramulla” analisa a fronteira como conceito. Não apenas a que separa países, mas a que divide razão e crença, segurança e medo, o humano e seus espectros. A investigação policial segue seu curso lógico, porém é nas manifestações aparentemente inverificáveis que o filme atinge sua reflexão mais incisiva: a percepção de que traumas coletivos podem adquirir existência própria, atravessando famílias e séculos, pedindo a quem ficou que responda pelo que não pôde ser elaborado.

Não há concessões a um otimismo ingênuo. O final não oferece alívio, e sim uma elipse emocional que obriga o espectador a encarar o peso das escolhas feitas sob opressão. A cena derradeira reorganiza tudo o que a narrativa vinha sugerindo: a justiça estatal tem alcance limitado diante de forças que operam na memória e na fé. A salvação não surge como recompensa, mas como o reconhecimento de que há vínculos que recusam o desaparecimento definitivo.

O mérito do filme está em não tomar partido fácil. O olhar político não serve como acusação unilateral; expõe mecanismos, responsabilidades diluídas, a lógica de uma região transformada em símbolo sem considerar suas pessoas. A dimensão psicológica também não busca explicações redentoras: prefere revelar como o medo altera estruturas familiares e ensina adultos a conviver com perdas que ninguém deveria naturalizar. Essa justaposição entre análise social e dor íntima garante que o suspense não seja apenas entretenimento, mas reflexão.

“Baramulla” fica na sua cabeça depois que acaba: porque traduz a complexidade de um conflito que muitos tentam simplificar e porque encara o sofrimento sem transformá-lo em mercadoria emocional. Onde Hollywood costuma suavizar tensões políticas para ampliar mercado, aqui se escolhe preservá-las para que o espectador reconheça a extensão do dano. O filme demonstra que o terror mais contundente pode ser aquele que não busca monstros exteriores, e sim os rastros de silêncio que os homens deixam quando decidem quem deve desaparecer.

Filme:
Baramulla

Diretor:

Aditya Suhas Jambhale

Ano:
2025

Gênero:
Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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