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O filme do Prime Video com Ralph Fiennes que rendeu prêmio e conquistou crítica no mundo todo

O filme do Prime Video com Ralph Fiennes que rendeu prêmio e conquistou crítica no mundo todo

Mark Mylod põe “O Menu” de pé com um movimento simples e meio torto desde a saída. Tyler leva Margot de última hora para Hawthorn, restaurante de luxo instalado numa ilha privada, e a troca de acompanhante já basta para pôr Elsa em alerta. Ela olha para Margot como quem confere uma peça fora do lugar. A travessia de barco, a recepção, o passeio pelas instalações e o jeito como os convidados são conduzidos até a mesa deixam claro que aquela noite foi organizada para outra coisa, não exatamente para matar a fome.

Margot entra ali como quem sabe, antes dos outros, que está sobrando. À mesa estão uma colunista de gastronomia e seu editor, um astro de cinema com a assistente, um casal de milionários que conhece a casa e três executivos ligados ao financiador do restaurante. Ninguém fala como quem saiu para jantar. Todo mundo parece empenhado em ocupar direito o próprio lugar, como se o principal não fosse a comida, mas o privilégio de estar naquela ilha, naquela sala, diante de Julian Slowik.

O salão e a mesa

Ralph Fiennes segura Slowik num tom baixo e duro, sem fazer força. Ele apresenta cada curso com a calma de quem não precisa disputar atenção com ninguém, e a brigada responde de modo automático, quase militar, enquanto Tyler acompanha tudo com devoção de fã, atento a cada gesto, cada palavra, cada prato. Nicholas Hoult acerta justamente aí. Tyler é um sujeito tomado pelo desejo de agradar, pequeno diante do próprio encantamento. Anya Taylor-Joy faz o contrário. Margot olha para aquilo tudo com pouca paciência e nenhum fervor, e esse desnível dá ao filme boa parte do que ele tem de melhor.

É essa diferença que impede “O Menu” de virar só uma piada sobre ricos encurralados. Tyler quer pertencer à liturgia de Hawthorn, quer ser reconhecido por ela, quer provar que sabe jogar aquele jogo. Margot não embarca em nada disso. Ela observa o vocabulário do chef, o comportamento da sala, o peso do ritual, e responde com um incômodo quase físico. Quando Slowik chama a atenção de todos para mais um curso e a equipe se move em bloco, ela continua sendo a peça que não encaixa.

A noite muda de chave quando os pratos deixam de chegar sozinhos e passam a trazer recados. Um dos cursos aparece em tortillas estampadas com segredos dos próprios clientes, e a sala, até então protegida por dinheiro, repertório e pose, começa a desmanchar na frente de todo mundo. O golpe é direto. Já não se trata de pagar caro para assistir a uma excentricidade culinária. Pouco depois, o suicídio do sous-chef Jeremy diante dos convidados acaba com qualquer distância segura entre quem está servindo e quem está sentado à mesa. Dali em diante, o jantar pesa de outro jeito.

A cozinha fecha a porta

Depois disso, Hawthorn deixa de ser só um cenário isolado e passa a funcionar como armadilha. Quando Richard tenta sair e tem um dedo cortado, o aviso não deixa margem para mal-entendido. Mais tarde, os homens recebem uma chance de fuga que já nasce apertada, curta, controlada, antes de serem trazidos de volta pela brigada. A ilha parece menor. O restaurante, com seu salão impecável e sua cozinha luminosa, assume de vez a forma de um mecanismo fechado, montado para punir.

É aí que “O Menu” pega mais fundo. Tyler sabia que os convidados morreriam e, ainda assim, quis estar ali, levando Margot para o lugar da ex e garantindo a própria entrada naquele teatro de adoração. Isso rebaixa tudo nele. O entusiasmo deixa de ser só ridículo e passa a ter algo de rasteiro, de covarde. Slowik também muda de figura. Perde um pouco do prestígio enigmático e ganha a secura de alguém empenhado em distribuir castigo a ricos, cozinheiros, fãs e gente acostumada a tratar distinção como direito de compra.

O momento mais forte vem quando Margot, já sem paciência para a encenação, pede um cheeseburger simples. Slowik, homem da cozinha conceitual e do cardápio tratado como catecismo, vai para o fogão e prepara o lanche com as próprias mãos. A cena puxa o filme para o chão. Pão, carne, queijo, fritura, fome. Quando ela pede para levar o hambúrguer embora, “O Menu” acerta no ponto em que a pompa perde a vez e a comida volta a ser só comida, quente, oleosa, embrulhada num saco de papel.



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