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O filme de ação da Netflix que é o mais assistido de 2026 (até agora)

O filme de ação da Netflix que é o mais assistido de 2026 (até agora)

A primeira informação que “Dinheiro Suspeito” entrega é prática: um grupo de policiais de Miami encontra uma grande quantia de dinheiro num esconderijo abandonado. Não é recompensa, é problema. A equipe precisa decidir o que fazer com aquilo antes que a notícia corra dentro e fora da corporação. O filme começa daí e não dá folga: quem entra na sala, quem encosta na porta, quem viu primeiro, quem fala com quem. No início, o dinheiro já muda a coordenação do grupo e toma minutos que deveriam ir para o serviço.

Joe Carnahan coloca essa história no ritmo de plantão e investigação numa polícia com escassez de recursos. Isso aparece no tempo gasto com procedimento travado e na energia perdida em disputa entre autarquias policiais, quando um setor empurra o problema para o outro. A desconfiança não entra como discurso: ela aparece quando uma regra atrasa o trabalho e alguém decide cortar caminho. “Dinheiro Suspeito” avança com essa fricção diária de expediente, e o dinheiro encontrado só piora um ambiente que já era ruim para conversa franca.

Sala, porta e corredor

Matt Damon e Ben Affleck carregam o centro com dois detetives que não parecem confortáveis com o próprio ganha-pão. O roteiro trata Dane Dumars e JD Byrne como colegas que se conhecem o suficiente para prever o próximo passo, mas não o bastante para dormir tranquilos quando aparece um segredo grande. A quantia encontrada obriga cada um a segurar resposta, medir frase e esperar o outro terminar. A cena não precisa de discurso longo para marcar isso: a fala corta cedo, a decisão vem apertada, e o tempo do plantão fica mais caro.

A parceria de Damon e Affleck tem três décadas de estrada, e o filme usa isso sem piscadela para a plateia. Eles têm um marco público — Oscar de Melhor Roteiro Original por “Gênio Indomável” (1997), de Gus Van Sant — e aqui entram com maturidade para sustentar dois profissionais já cansados do turno. Dumars e Byrne não viram “bons” e “maus” de imediato. Eles reagem diferente ao mesmo problema, e essa diferença toma tempo: um segura, o outro quer ir direto; um quer controlar a informação, o outro quer resolver logo.

O gatilho dramático que puxa o grupo para o centro da trama é o assassinato da capitã Jackie Velez por bandidos mascarados, em circunstância descrita como misteriosa. A suspeita de que Velez tenha sido executada por ter chegado perto demais de um esquema de propinas aumenta o peso do caso e cria vigilância interna. A pergunta que circula não é só “quem fez”, mas “quem sabia”. Isso muda o expediente: a investigação continua, mas cada conversa passa a exigir cuidado, e o corredor vira lugar de teste — quem responde, quem desconversa, quem muda de assunto.

Carnahan move a história pela oposição entre Dumars e Byrne e solta informação suficiente para o público acompanhar a morte de Velez sem receber tudo mastigado. Dumars entra como o mais metódico e cerebral, sempre tentando ficar um passo à frente do próprio parceiro. Byrne reage de um jeito mais direto, com menos paciência para conversa longa quando o grupo pode perder controle da situação. O filme volta a essa diferença várias vezes, porque ela decide a logística do time em cada etapa: quem puxa a ação, quem freia, quem segue, quem fica para trás esperando autorização.

Mais adiante, o roteiro retoma uma história real de policiais de Miami que, durante operações contra cartéis de drogas, ficam com parte da apreensão. “Dinheiro Suspeito” usa esse dado como motor do comportamento do grupo: o desvio não aparece como um plano elaborado; aparece como decisão apressada em cima de uma pilha de dinheiro. A história acompanha esse encadeamento sem transformar todo mundo em caricatura. O que pesa, no dia a dia, é ter que sustentar a versão escolhida e repetir a mesma explicação para pessoas diferentes, em horários diferentes.

Sótão, baldes e cédulas

A sequência do estouro de uma base do cartel dá ao dinheiro um peso concreto. O sótão guarda quase vinte milhões e meio de dólares, achados por Wilbur, o cão farejador da corporação. Os baldes de cédulas no forro resolvem um problema simples: aquilo não cabe no bolso, não some rápido, não permite fingir que não existiu. A equipe olha para o volume e entende, na hora, que qualquer caminho vai exigir trabalho extra e vai cobrar prestação de contas depois, dentro da própria polícia.

É nesse ponto que Desireé Molina entra como peça incômoda do quebra-cabeça. Moradora do imóvel, ela diz não saber como aqueles baldes foram parar no forro da casa. A fala abre duas frentes ao mesmo tempo: a investigação do assassinato e a disputa interna pelo dinheiro. A partir daí, “Dinheiro Suspeito” segue em duas linhas que se cruzam o tempo inteiro: o que aconteceu com Jackie Velez e o que acontece com quem decidiu esconder ou revelar a quantia.

Teyana Taylor, citada no elenco principal, ajuda a dar corpo a esse ambiente de trabalho em que quase nada se decide com calma e quase tudo exige coordenação coletiva. Um detalhe dito cedo volta adiante para cobrar coerência, e isso altera o tempo das cenas: conversas ficam mais curtas, respostas vêm pela metade, e o grupo gasta energia tentando adivinhar o próximo movimento do colega. O dinheiro não fica parado como “objeto de cena”; ele vira o assunto que reorganiza o turno e muda a forma de falar dentro da mesma sala.

Na reta final, o caso aperta por um motivo direto: a apreensão deixa de ser um segredo de poucos e passa a chamar atenção da instituição. O time precisa escolher o que registra e o que omite, e essas escolhas tomam tempo do trabalho. Cada conversa no corredor resolve uma parte e abre outra. Se alguém fala demais, cria contradição; se alguém fala de menos, perde controle da versão. No meio disso, a investigação da morte de Velez continua pedindo horas, e a equipe precisa decidir onde gastar energia primeiro.

A sessão termina com uma referência concreta que o filme martela desde o meio: o sótão, o forro e os baldes de cédulas. É dali que o problema nasce e é para ali que o grupo volta mentalmente sempre que precisa decidir o próximo passo. Não há frase de efeito que dê conta disso. Há um volume de dinheiro que exige registro, exige silêncio e exige conversa — e nenhuma dessas três coisas combina com um plantão em que ninguém confia plenamente em ninguém.

Filme:
Dinheiro Suspeito

Diretor:

Joe Carnahan

Ano:
2026

Gênero:
Ação/Crime/Drama/Mistério

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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