Quem se dispõe a revisitar a infância pela porta escancarada da fantasia corre sempre o risco de encontrar o vazio onde antes vivia o assombro. É por isso que “O Expresso Polar”, dirigido por Robert Zemeckis, surpreende: a narrativa se sustenta não por nostalgia barata, mas pela insistência em transformar crença e dúvida em forças dramáticas equivalentes. A viagem do menino sem nome, interpretado por Tom Hanks no papel de múltiplas figuras adultas graças à captura de movimento, é menos uma convocação ao encantamento e mais uma investigação sobre o momento exato em que a infância começa a negociar com o ceticismo. Não é pouca coisa para um filme vendido como celebração natalina.
O enredo acompanha esse garoto que, às vésperas do Natal, já formula hipóteses quase científicas sobre a inexistência do bom velhinho. A chegada de um trem que corta a madrugada e pára diante de sua casa rompe sua lógica escolar. Ele embarca e, com outros passageiros: a Menina confiante, o Know-It-All irritantemente técnico e o garoto Billy, que carrega nos ombros a sensação de ter sido esquecido pelo mundo, cruza montanhas, gelo frágil e desertos brancos até alcançar a cidade do Polo Norte. Há ainda a figura enigmática do Hobo, vivido também por Hanks, que funciona como um comentário filosófico ambulante, quase uma assombração racionalista pairando sobre o teto do vagão.
Zemeckis organiza tudo com uma ambição estética que, por vezes, beira o exagero. A captura de movimento, ainda imatura na época, gera expressões que se aproximam perigosamente do vale da estranheza. Mas a estética vacila sem comprometer o que realmente move o filme: a articulação entre maravilhamento e temor. A sequência dos garçons servindo chocolate quente, tão coreografada que quase parodia um musical disciplinado demais, funciona como ironia involuntária ao excesso de controle que a tecnologia tenta impor à fantasia. Curioso como esses deslizes plásticos acabam reafirmando o tema central: a fragilidade entre acreditar e duvidar.
A travessia pelo Polo Norte é o ponto em que o filme abandona qualquer sinal de contenção e assume sua natureza de fábula. A cidade esvaziada, os mecanismos industriais, os alto-falantes tocando gravações antigas e o encontro com Santa Claus, interpretado novamente por Hanks, constroem uma atmosfera onde fé e maquinaria convivem sem conflito evidente. Há algo politicamente sugestivo aí: a crença infantil como última trincheira possível num mundo administrado por sistemas, produção em série e vigilância. Não é por acaso que o menino só consegue ouvir o som do sino quando abandona suas premissas racionais. A linguística até explica: crença também é uma forma de linguagem.
“O Expresso Polar” não depende de epifanias açucaradas para justificar sua existência. O filme funciona porque reconhece que crescer é aprender a duvidar e que, às vezes, a dúvida precisa ser desafiada para não se transformar em cinismo precoce. O garoto vive perigos inverossímeis, claro, mas poucas vezes o cinema infantil tratou tão diretamente da tensão entre encantamento e lucidez. Entre um vagão e outro, o que se revela é a sensação de que a infância não desaparece; ela apenas exige que a gente a convoque com um pouco mais de coragem. E talvez seja esse o verdadeiro bilhete dourado que o filme oferece.
Filme:
O Expresso Polar
Diretor:
Robert Zemeckis
Ano:
2004
Gênero:
Aventura/Fantasia
Avaliação:
8/10
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Helena Oliveira
★★★★★★★★★★
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