| Em janeiro de 1887, um pregador itinerante de modos gentis chamado Ansel Bourne saiu de sua casa em Greene, no estado norte-americano de Rhode Island, para viajar at a cidade vizinha de Providence. Ele levava consigo uma pequena quantia em dinheiro e, ao que tudo indicava, a clara inteno de retornar em poucos dias. Ele simplesmente no voltou. Durante quase dois meses, a famlia de Bourne no tinha ideia de seu paradeiro. Publicaram anncios de pessoa desaparecida em jornais, mas ningum relatou t-lo visto. Nada! Niente! Nadica de pitibiribas! |
Ento, no final de maro, chegou um telegrama endereado ao sobrinho de Ansel, Andrew Harris, em Providence. Seu tio havia sido encontrado em Norristown, Pensilvnia, onde estava morando nos dois meses anteriores sob o nome de “Alfred Brown”.
Ansel estava hospedado na casa do proprietrio Pinkston Earle, no nmero 345 da Rua Principal Leste. Ele havia alugado um pequeno quarto e aberto uma lojinha na frente, vendendo doces, artigos de papelaria e outros itens pequenos.
Ele se apresentou como Alfred Brown, e a famlia Earle no tinha motivos para suspeitar de nada. Brown, como o conheciam, era quieto, pontual e frequentava a igreja aos domingos.
Na madrugada de 14 de maro, Ansel Bourne acordou assustado com um barulho alto que mais tarde descreveu como semelhante a um tiro. Ao olhar em volta, o quarto pareceu-lhe estranho e desconhecido. Foi at a janela e abriu a cortina, mas a vista no lhe era familiar. No fazia nem ideia de onde estava ou como tinha chegado ali.
Ao entrar no corredor, Ansel bateu na porta do quarto ao lado. Pinkston Earle saiu do quarto e o cumprimentou calorosamente:
– “Bom dia, Sr. Brown.” Ansel simplesmente no sabia o que estava acontecendo.
– “U… meu nome no Brown, mas Ansel Bourne. Onde estou?”
Pinkston, agora ele perplexo, disse a Ansel que estava em Norristown, Pensilvnia, e que a data era 14 de maro de 1887.
Ansel mal pde acreditar. A ltima coisa de que se lembrava era de ter visto carroas da Companhia de transporte Adams na esquina das ruas Dorrance e Broad, em Providence, no dia 17 de janeiro.
Quando Ansel retornou a Rhode Island, no se lembrava de absolutamente nada do tempo que passara na Pensilvnia. A loja, os clientes, a viagem para o sul, tudo havia simplesmente desaparecido de sua mente.
Para ele, a ltima coisa de que se lembrava era de ter sado de casa em janeiro. As seis semanas que se seguiram haviam sumido completamente, como se nunca tivessem acontecido.
No se tratava de amnsia no sentido comum. Durante seu desaparecimento, Ansel no estava confuso, delirante ou incapacitado. Pelo contrrio, ele raciocinava normalmente, adotando um novo nome, uma nova profisso e uma nova rotina diria. O que havia desaparecido no era sua capacidade de agir, mas sim sua conscincia de ser Ansel Bourne.
O episdio logo atraiu a ateno de psiclogos, principalmente de William James, o pioneiro filsofo e psiclogo americano, amplamente reconhecido como o pai da psicologia americana.
William entrevistou Ansel extensivamente e mais tarde descreveu o caso em “Os Princpios da Psicologia“, de 1890, chamando-o de um dos exemplos mais impressionantes do que ele denominou “transe hipntico espontneo, persistindo por dois meses”.
Psiclogos modernos acreditam que Ansel Bourne vivenciou uma “fuga dissociativa, uma condio psicolgica rara na qual a pessoa viaja repentinamente para longe de casa, assume uma nova identidade e, posteriormente, tem pouca ou nenhuma lembrana do episdio.
Diferentemente do esquecimento comum ou mesmo da amnsia clssica, uma fuga envolve comportamento organizado, como planejamento, interao social e ao intencional, realizados sob uma conscincia fragmentada de si mesmo.
No caso de Ansel, a diviso era ntida. Alfred Brown no se lembrava de nada da vida anterior de Ansel Bourne, enquanto Ansel Bourne no se lembrava de nada de Alfred Brown. As duas identidades no tinham conscincia uma da outra e no se sobrepunham.
Mais tarde, William tentou a hipnose para explorar as memrias perdidas. Em transe, Ansel conseguiu recordar seu tempo como Alfred Brown com detalhes vvidos, sugerindo que as memrias no haviam sido destrudas, apenas bloqueadas de sua conscincia desperta. Quando a hipnose terminou, essas memrias desapareceram novamente.
Ansel Bourne nasceu na cidade de Nova Iorque em 1826. Quando tinha quinze anos, Ansel e sua me foram morar com sua irm mais velha, Lucy, que era casada com um carpinteiro, com quem Ansel tornou-se aprendiz para aprender carpintaria.
Em 1844, Ansel casou-se com Sarah A. Woodmansee. Eles moraram sucessivamente em Providence, Cranston e Pawtuxet, mas por volta de 1850 estavam residindo em Westerly. Enquanto morava em Westerly, Ansel comeou a sofrer de crises de dor de cabea, bem como de fraqueza momentnea.
Em 16 de agosto de 1857, Ansel foi buscar lenha tarde quando teve uma sensao na cabea da qual no se lembra e, imediatamente depois, desmaiou, s se recuperando no dia 18.
Naquela noite, ele estava um pouco delirante e Ansel pensou que ia morrer, assim como sua famlia e o mdico que o atendeu. No entanto, ele se recuperou e, em cerca de trs semanas, pde voltar ao trabalho.
Em meados de setembro, Ansel sofreu outro ataque de tontura: um calafrio ou espasmo o acometeu, privando-o de suas foras. Ele se recuperou em uma semana e pde sair novamente.
Em 28 de outubro, Ansel caminhava de casa para o centro de Westerly quando, de repente, lhe ocorreu que deveria ir reunio na Capela Crist. No incio de sua vida, Ansel fora profundamente religioso, mas na dcada de 1850, sua mente estava sob a densa e aparentemente impenetrvel nuvem da descrena. Ele passou a odiar igrejas, pastores e professores, alguns deles com amargura.
Assim que lhe passou pela cabea a ideia de visitar uma igreja, sentiu repulsa e respondeu para si mesmo:
– “Prefiro ficar surdo e mudo para sempre a ir l.”
Poucos minutos depois, sentiu tonturas e sentou-se. De repente, para seu horror, no conseguia falar, ouvir nem ver. Parecia que Deus o havia levado a srio.
Ansel foi levado para casa e prontamente atendido pelo Dr. William Thurston, que disse que, embora surdo e cego, Ansel estava ciente do que lhe estava acontecendo.
A viso de Ansel retornou na manh seguinte e, usando uma ardsia para escrita, ele se comunicou com sua esposa, refletindo sobre – “… a terrvel pecaminosidade de uma vida que fora conduzida pela mo de Deus a tais circunstncias.”
Ansel escreveu uma confisso pedindo perdo a Deus por suas aes grosseiras. Essa confisso foi lida em voz alta na igreja, e enquanto ele estava no plpito com as mos erguidas, sua audio e fala foram repentinamente restauradas. A congregao presente acreditou ter testemunhado um milagre, que posteriormente foi publicado e repetido por muitos jornais da poca.
A estranha experincia de Ansel reacendeu seu fervor religioso e ele se tornou um pregador evanglico, embora continuasse a trabalhar como carpinteiro. Ele pregava em cultos de avivamento e oferecia seus servios onde quer que estivesse.
No incio da dcada de 1860, a famlia Bourne deixou Westerly e se mudou para Petersburg, em Nova York. Mais tarde, em 1875, eles se estabeleceram em Shelby, Nova York, onde Ansel serviu como pastor da Igreja Crist de West Shelby por pelo menos dois anos.
Aps a morte de sua esposa em 1881, Ansel retornou a Rhode Island, onde conheceu sua segunda esposa, Isabelle. Por persuaso dela, ele concordou em retomar suas pregaes itinerantes e dedicou-se agricultura, levando aparentemente uma vida tranquila at sua viagem a Providence em janeiro de 1887.
Aps a morte de sua segunda esposa em 1910, Ansel mudou-se para Buffalo, Nova York, onde faleceu em 1915.
A estranha jornada de Ansel Bourne deixa uma questo persistente que ainda intriga a psicologia atual: quanto de quem somos depende da memria, e com que facilidade ela pode se perder?
– “Acordamos todas as manhs como uma entidade ligeiramente diferente, e ainda assim a memria nos mantm unidos, escreve o professor e autor
Matt Johnson na Psychology Today. – ” a cola que nos mantm como uma nica pessoa consistente.” Como descreve James McGaugh, especialista em memria e professor de neurobiologia da Universidade da Califrnia Irvine. – “A memria a nossa capacidade mais importante. Sem memria, no haveria seres humanos.”
A fuga dissociativa situa-se exatamente na linha divisria entre memria e identidade, mostrando o quo fortemente as duas esto ligadas e o quo frgil esse vnculo pode ser.
Em sua essncia, uma fuga envolve uma falha seletiva da memria autobiogrfica. A pessoa no perde conhecimentos ou habilidades gerais: ela consegue falar, trabalhar, se locomover pela cidade, lidar com dinheiro e interagir socialmente.
O que desaparece o acesso s memrias que normalmente respondem pergunta “Quem sou eu?“. Como a identidade construda em grande parte a partir dessa narrativa pessoal contnua, seu colapso decorre naturalmente da perda de memria.
Em um estado de fuga, a identidade no simplesmente apagada, mas frequentemente reconfigurada. Os indivduos podem adotar um novo nome, profisso ou papel, como no caso de Ansel Bourne, que se tornou Alfred Brown.
Isso sugere que a identidade no uma entidade nica e indivisvel, mas algo construdo momento a momento a partir da memria, do hbito e do contexto. Quando a memria autobiogrfica interrompida, a mente pode construir um eu provisrio que se adapte ao ambiente imediato.
Fundamentalmente, as memrias no so destrudas. A hipnose e estudos clnicos posteriores mostram que as memrias da fuga so tipicamente inacessveis, em vez de perdidas. Elas existem fora da conscincia, indicando uma dissociao entre o armazenamento e o acesso memria. Quando a fuga termina, a identidade original retorna juntamente com suas memrias, enquanto a identidade da fuga frequentemente esquecida, criando uma amnsia aguda e unilateral.
Essa assimetria revela algo perturbador: a identidade depende menos da continuidade da conscincia do que da continuidade da memria. Enquanto as memrias conectam o passado ao presente, o eu se sente estvel. Quando essa conexo se rompe, a identidade pode se fragmentar sem prejudicar o comportamento racional.
A fuga dissociativa, portanto, desafia a ideia de um eu fixo e unificado. Ela demonstra que a identidade uma construo psicolgica, normalmente contnua, mas que, sob estresse extremo, capaz de se fragmentar segundo as linhas da memria, deixando a pessoa intacta em suas funes, porm profundamente alterada em sua percepo de si mesma.
Isso me lembra a histria comovente de Jim e Anne McDonnell. Depois de uma srie de infortnios onde bateu a cahbea mais de 3 vezes, Jim perdeu a memria, entrou em um trem aleatrio e foi parar em otro estado com uma identidade diferente.
Mas ele no ficou longe de casa apenas 2 meses, seno que 15 anos. Anne sempre teve a certeza que seu Jim ia voltar. Quando ele, caiu, bateu a cabea com fora e recuperou a memria, voltou para casa correndo. Eu no sou muito romntico, mas confesso que perdi a compostura e chorei litros com o encontro dos dois.
Por favor, apie o MDig com o valor que voc puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
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