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O documentário que desmonta o mito dos Raimundos — e revela o que ninguém quis admitir, no Globoplay

Se você abre um site, um jornal ou até uma rede social hoje, parece que só existe um assunto correndo: o documentário dos Raimundos, “Andar na Pedra”, dirigido por Daniel Ferro e recém-chegado à Globoplay. A banda nasceu antes mesmo de mim, lá em 1987, mas cresceu junto com a minha infância nos anos 1990. Era impossível escapar de “Mulher de Fases”, hit que tocava na MTV, na TV aberta, nas rádios e em absolutamente toda festinha de aniversário.

O sucesso foi grande. Mas o impacto da saída de Rodolfo, em 2001, foi enorme. Eu já estava ali, com a adolescência batendo à porta, quando a notícia desceu como um susto coletivo. Mesmo criada na Igreja Evangélica, eu fui uma daquelas pessoas que também acreditava que a religião tinha “abduzido” o vocalista de uma das maiores bandas de rock do país.

Mais de duas décadas depois, Daniel Ferro organiza esse caos com uma paciência impressionante. Foram mais de seis anos de trabalho, ouvindo todos os lados, revisitando discos, turnês, bastidores e, principalmente, as brigas. E como tiveram brigas. Canisso, o baixista, é a presença mais nostálgica: aparece apenas em áudio, e não por causa de sua morte, em 2023, mas por desconfiança mesmo. Ele não quis se expor. Essa ausência acaba dizendo muito, porque o material se transforma num retrato íntimo, direto e, em vários momentos, desconfortável sobre o papel de cada um na banda.

Crises

As crises não foram poucas e nem pequenas. A convivência intensa transforma qualquer detalhe em algo imperdoável, mas ali também havia questões grandes, estruturais. Algumas ajudam a entender, com bastante clareza, por que Rodolfo decidiu sair. A primeira grande crise foi a disputa pelos direitos autorais. Cerca de 70% estavam concentrados em Rodolfo, principal mente criativa do grupo. E, por bem ou mal, isso fazia sentido. Propriedade intelectual não se inventa depois, não cria, não se negocia.

Digão levou a questão para a mesa. Do ponto de vista dele, era injusto que todos arcassem com custos de shows, instrumentos e estrutura enquanto recebiam menos. Só que, quando chegou a hora de dividir também o peso criativo, letras, ideias, conceito, ninguém alcançava o mesmo nível de Rodolfo. Ainda assim, numa tentativa de manter a banda de pé, ele cedeu. Redistribuiu os direitos. Preservou o coletivo.

Ao longo dos depoimentos, fica evidente que Digão, Fred e Canisso dependiam financeiramente dos Raimundos de uma forma muito mais direta. Rodolfo era o único que não tinha filhos nem uma estrutura familiar para sustentar naquele momento. Todos viveram intensamente o auge: drogas, mulheres, dinheiro, tudo em excesso. Apesar de virem de famílias de classe média de Brasília, com pais médicos e advogados, era a banda que garantia a vida confortável. Rodolfo, por outro lado, parecia operar em outra lógica. Continuava com o Gol que ganhou dos pais, morava num apartamento precário na Augusta e gastava muito pouco. Não estava interessado em status. Queria se divertir.

Saúde que cobra

Mas o corpo cobra. E cobrou caro. Entre drogas, sexo desprotegido, noites intermináveis e uma rotina sufocante de trabalho, a saúde começou a falhar. A pressão por novos sucessos, somada ao desgaste interno, foi criando um cenário insustentável. Nesse meio tempo, o reencontro com Ale, uma antiga paixão, ajudou a reorientar esse caminho. Não houve imposição religiosa, o próprio documentário deixa isso claro, mas houve um deslocamento. Um chamado, talvez, para algum tipo de cuidado que até então não existia.

E aí entra um ponto delicado: a convivência com os outros integrantes, especialmente Digão, aparece como um fator constante de tensão. Há, em vários momentos, a sensação de disputa por protagonismo, de incômodo com o reconhecimento desigual. Rodolfo, pressionado por todos os lados, se afasta. Não por impulso, mas por necessidade. Pela própria sobrevivência.

O documentário também revela um contraste interessante de valores. De um lado, Rodolfo, frequentemente preocupado com o emocional, com as pessoas ao redor, com o impacto das escolhas. Do outro, uma banda cada vez mais estruturada como empresa, preocupada com contratos, números, continuidade. E, no fundo, os dois lados fazem sentido. Sobreviver exige organização. Mas há um limite tênue entre preservar o coletivo e atropelar o indivíduo.



Fonte

Redação

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