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O cantor que virou pedreiro e só descobriu aos 56 anos que era mito em outro país

Em 6 de março de 1998, a luz baixa do Bellville Velodrome, na Cidade do Cabo, deixava o público inquieto. Quando um homem magro, de óculos grossos e casaco escuro, caminhou devagar até o centro do palco, a resposta veio em coro: aplausos longos, gritos, gente em pé. Bastaram os primeiros acordes de “Sugar Man” para milhares de vozes entrarem junto. Quem lotava o ginásio via o retorno de um herói ausente havia 25 anos. Para Sixto Rodriguez, aquilo era a prova, quase impossível de imaginar, de que suas canções tinham cruzado oceanos e décadas.

Nascido em 10 de julho de 1942, em Detroit, Rodriguez era filho de pais mexicanos e cresceu em um lar de trabalhadores, com espanhol e inglês se misturando às rádios locais. Estudou Filosofia na Wayne State University e, no fim dos anos 1960, começou a tocar em bares da cidade, empilhando letras sobre pobreza urbana, violência policial, drogas e desigualdade. Em 1970 lançou “Cold Fact” e, em 1971, “Coming from Reality”, ambos pelo selo Sussex, em meio a uma cena de folk rock que tinha Bob Dylan como referência óbvia. As vendas foram fracas, a gravadora fechou poucos anos depois e o interesse da indústria evaporou.

Sem espaço no mercado norte-americano, o músico abandonou a carreira fonográfica. Em 1976, comprou em leilão do governo uma casa em ruínas em Detroit por 50 dólares, endereço que manteve até a morte. Para sustentar a família, passou a atuar em demolição e na linha de produção, muitas vezes sem plano de saúde nem garantias mínimas. Chegou a se candidatar a cargos públicos municipais, defendendo temas ligados a moradia e trabalhadores, mas continuou mantendo ritmo discreto. Em uma frase lembrada por críticas ao documentário, resumiu a opção pelos serviços pesados: “Mantém o sangue circulando”.

Discos clandestinos e culto na África do Sul

Do outro lado do mundo, os discos encontravam destino bem diferente. Prensagens importadas chegaram à África do Sul nos anos 1970, foram copiadas em fitas cassete e circularam entre jovens brancos contrários ao regime do apartheid. As letras sobre opressão, drogas e desencanto político falaram diretamente a uma geração que se via pouco nas canções pop anglo-americanas do rádio local. Selos sul-africanos passaram a lançar compilações e reedições; algumas alcançaram patamar de platina. Para explicar o fenômeno, o lojista Stephen “Sugar” Segerman repete a fórmula que se tornou célebre: ali, Rodriguez teria sido “mais popular que Elvis”.

A combinação de censura e isolamento comercial alimentou o mito. Artistas considerados subversivos tinham faixas riscas à mão ou encobertas com adesivos, e qualquer informação sobre eles circulava com atraso. No caso de Rodriguez, não havia turnês, entrevistas ou videoclipes. A partir desse vazio, surgiram versões conflitantes sobre sua morte: gente que jurava que ele havia se matado no palco, outros que falavam em automutilação diante do microfone ou suicídio solitário após um show. Sem dados verificáveis, o compositor virou, para muitos, uma espécie de mártir de um sistema hostil a vozes dissonantes.

A investigação que encontrou o músico vivo

Na metade dos anos 1990, Segerman e o jornalista Craig Bartholomew Strydom decidiram tratar a história como investigação. Começaram pelos créditos de prensagens sul-africanas, nomes de produtores, editoras, registros de direitos autorais. Em uma época pré-buscas instantâneas, isso significava telefonemas para os Estados Unidos, cartas para gravadoras extintas, troca de mensagens em fóruns iniciais da internet. Aos poucos, chegaram a antigos produtores e, por intermédio de uma das filhas do músico, à notícia de que Rodriguez estava vivo, fora dos palcos, ainda instalado em Detroit.

O reencontro levou à turnê registrada em “Dead Men Don’t Tour: Rodriguez in South Africa 1998”. Em cidades como Cidade do Cabo, Pretória, Durban e Joanesburgo, o cantor encontrou ginásios cheios, cartazes improvisados, gente esperando há décadas. O público sabia de cor letras que ele próprio não tocava havia muito tempo, e o contraste entre o mito sul-africano e o trabalhador americano que, semanas antes, pegava ônibus para a demolição é um dos pontos centrais desses registros. A partir dessa temporada, Rodriguez voltaria a se apresentar com frequência no país e retomaria também o contato com a base de fãs que mantinha na Austrália desde os anos 1970.

Documentário, prêmios, dinheiro e legado

Foi esse enredo que o diretor sueco Malik Bendjelloul levou ao cinema. “Searching for Sugar Man”, lançado em 2012, acompanha a busca dos fãs sul-africanos, reconstrói o boato da morte e culmina com a chegada de Rodriguez ao palco do Velodrome. O documentário venceu prêmios em Sundance e em outros festivais importantes, além do Oscar de melhor longa documental em 2013, e recolocou o cantor no circuito de entrevistas e festivais internacionais. Parte da crítica, contudo, apontou que o filme quase não menciona a trajetória relativamente sólida que ele já tinha na Austrália, o que reforçaria uma narrativa de anonimato absoluto.

Com a redescoberta, a discussão sobre dinheiro veio à tona. Reportagens e entrevistas indicam que, até os anos 2000, Rodriguez sabia pouco sobre o volume de receitas geradas por licenças na África do Sul e em outros mercados. Depois do lançamento do documentário, contratos foram revistos, e ele passou a receber royalties mais significativos, embora valores exatos permaneçam cobertos por sigilo comercial. Nem isso alterou muito o cotidiano: mesmo com a agenda de shows reforçada e a renda maior, preferiu continuar na mesma casa barata comprada em 1976, já quase cego, com mobilidade limitada e pouca disposição para se afastar do bairro que conhecia desde jovem.

Rodriguez morreu em agosto de 2023, aos 81 anos, após problemas de saúde anunciados em seu site oficial e confirmados por redes públicas como a PBS e a ABC australiana. Em Detroit, bares que costumavam tocar “Sugar Man” e “I Wonder” promoveram homenagens informais; grafites com o rosto do músico voltaram a aparecer em muros próximos à antiga área industrial. Na África do Sul, rádios exibiram faixas inteiras de “Cold Fact” em programas especiais sobre sua morte. A figura do homem de óculos espessos que atravessa o palco como quem pede licença para cantar acabou virando síntese de uma história improvável, nascida do encontro entre mercados desiguais, contratos opacos e a insistência de ouvintes em manter vivas canções descobertas muito longe de onde foram compostas.



Fonte

Redação

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