Categories: Economia

Novo título Tesouro Reserva vai concorrer com aplicações de curto prazo

A partir de março, os investidores terão acesso a um novo título do governo que promete facilitar a gestão dos recursos do dia a dia com boa rentabilidade, sem oscilações, fácil de acessar e com possibilidade de saque a qualquer hora do dia ou da noite e mesmo nos fins de semana e feriados.

O Tesouro Reserva é a nova aposta do Tesouro Direto para popularizar a compra de títulos públicos e ampliar o acesso da população a opções mais rentáveis que a poupança, hoje ainda a aplicação mais popular do país, mesmo com ganhos abaixo de outras opções da renda fixa.

O Tesouro Reserva será como o Tesouro Selic, a LFT, que rende o juro diário overnight, mas não terá ajustes de preços ao valor de mercado, o que eliminará suas oscilações. Ao mesmo tempo, permitirá saques além do horário do Tesouro Direto, hoje das 9h30 às 18h00, incluindo fins de semana e feriados.

Oportunidade com segurança!

O título também permitirá aplicações a partir de R$ 1,00, ante R$ 100 ou mais nos demais papéis do Tesouro, e terá prazo de três anos, inferior ao das LFTs.

Leia também: JPMorgan: É hora de vender títulos de curto prazo dos EUA

Mais opções para o curto prazo

O novo título vai ampliar as opções para as reservas financeiras das pessoas, explica Paula Bazzo, planejadora financeira CFP pela Planejar. Hoje, o investidor tem três opções principais para o dinheiro do dia a dia: o Tesouro Selic, do próprio Tesouro Direto, os CDBs com liquidez diária dos bancos, oferecidos às vezes na forma de caixinhas ou cofrinhos, e os fundos DI, também com liquidez diária.

Continua depois da publicidade

Ao permitir os resgates a qualquer momento, o Tesouro Reserva elimina a barreira da LFT, que só podia ser resgatada em dias úteis e no horário comercial. “Com isso ele passa a ter uma função realmente de reserva”, diz Paula, lembrando que os CDBs DIs de bancos já ofereciam essa facilidade. “Eu mesmo recomendava esses CDBs com liquidez diária para os recursos do dia a dia”, acrescenta.

Dinheiro não diminui

Outra vantagem é o fato de o novo título não sofrer marcação a mercado, um problema do Tesouro Selic, que eventualmente sofria pequenas variações. “Para a população em geral, saber que vai aplicar R$1 mil e que esse valor vai sempre crescer é uma supervantagem do ponto de vista de alfabetização financeira e de facilidade de compreensão”, diz.

Paula lembra que o Tesouro Direto evitou falar sobre a taxa de custódia para o novo título, mas observa que hoje ela não é cobrada para valores até R$ 10 mil nos demais papéis. Mas, mesmo que exista a cobrança, ela não deve comprometer a nova aplicação, e lembra que o CDI pago pelos CDBs diários dos bancos costuma ficar um pouco abaixo da Selic.

Aplicação a conta gotas

A tributação também será a mesma dos demais títulos de renda fixa e uma grande vantagem será a aplicação a partir de R$ 1,00. “Gente que tem renda pequena e sobra na conta R$ 10, R$ 15, que é a realidade de muitos no Brasil, vai poder investir e ter uma sobra para o mês seguinte com rendimento”, diz. O valor também pode ser usado para pequenas metas ou para criar gatilhos comportamentais. “Por exemplo, a pessoa pesquisa e economiza R$ 10,00 em uma compra, pode criar o hábito de investir a diferença”, sugere.

Risco menor

Já com relação às caixinhas ou cofrinhos dos bancos, Paula vê pouca diferença com o novo título, uma vez que elas costumam ter por base os CDBs diários e os rendimentos já costumam ser de 100% do CDI, muito próximos da Selic. “A diferença é o risco, o do Tesouro Reserva é o chamado risco soberano, o menor do mercado, mas os CDBs das caixinhas têm o Fundo Garantidor de Crédito até R$ 250 mil por CPF, então não teria grande diferença se não ultrapassar esse valor”, explica.

Maior competição

Paula acha ainda que o novo título pode criar uma competição boa para os bancos e levá-los a pensar em melhores soluções financeiras. “Vai acontecer uma disputa sobre onde vou colocar meu dinheiro, e nem sempre o retorno para o investidor vem na forma de rentabilidade, mas em experiência de uso, de facilidade”, lembra.

Continua depois da publicidade

Um exemplo dessa competição pode ocorrer nos fundos DI. Paula acredita que o Tesouro Reserva deve levar os bancos a reduzirem ainda mais suas taxas de administração. “Hoje esses fundos já cobram taxas baixas, de 0,5% ao ano, e alguns são até isentos, mas pode ser que alguns reduzam essa cobrança até 0,2%, para igualar com a taxa de custódia do Tesouro Direto”, diz. Mas ela lembra que os fundos têm a desvantagem do come-cotas, a cobrança antecipada de imposto de renda a cada seis meses, enquanto o Tesouro Reserva só paga imposto no resgate.

Conta remunerada

O novo título vai competir com o próprio Tesouro Selic, assim como com os fundos DI, CDBs DI e até a poupança, observa Martin Iglesias, gerente de produtos de investimentos do Itaú Unibanco. “As características são bastante interessantes, com rentabilidade atrelada à Selic, mas sem oscilação de marcação a mercado, e portanto ele se comportaria de forma muito parecida com o CDB DI”, diz. Isso combina muito com a possibilidade de resgate imediato e via PIX. “Ele se assemelha muito a uma espécie de conta remunerada, e com risco de crédito excelente e bastante comodidade”, reforça.

Tesouro Selic

Olhando para os competidores, Iglesias lembra que o Tesouro Selic é muito parecido, mas tem risco de marcação a mercado, embora esse risco seja muito pequeno. “O que se marca na LFT é só o ágio e o deságio, não é grande coisa”, diz. Além disso, o saque do Tesouro Selic é apenas em dias úteis e no horário comercial e, dependendo do horário, o crédito do dinheiro pode ser apenas no dia seguinte. Mas o Tesouro Selic pode ser melhor se eventualmente o investidor conseguir um deságio que garanta um retorno maior que o da LFT.

Continua depois da publicidade

Fundos DI

Outro competidor, o fundo DI, pode ter uma rentabilidade um pouco acima do CDI, dependendo da gestão e da habilidade de inserir riscos de crédito interessantes nessas carteiras, avalia Iglesias. Há, porém, o risco de alguma volatilidade nas cotas pela maior diversificação. A vantagem depende também da taxa de administração. E os fundos sofrem com a cobrança do come-cotas. “De uma forma geral, fundos DI têm boa liquidez, e alguns oferecem também o saque em qualquer dia ou horário”, explica. No caso da poupança, ela não é a mais eficiente em termos de rentabilidade, observa Iglesias, mas há pessoas que optam por escolhê-la pela simplicidade.

Com relação aos CDBs com liquidez diária, Iglesias observa que muito dos cofrinhos ou caixinhas que os bancos oferecem usam essa aplicação, embora o investidor possa comprar também um CDB DI diretamente. As rentabilidades são semelhantes ao CDI, mas podem ser um pouco maiores, dependendo do risco de crédito do banco emissor do CDB. “Aí o investidor precisa tomar um pouco de cuidado”, diz. Em geral, os CDBs diários e os cofrinhos também têm liquidez 24 horas sete dias por semana, e praticamente todos são interligados ao PIX, pois estão no sistema de contas correntes das instituições. “Geralmente eles proporcionam a melhor experiência de usuário, pois ele pode vincular a aplicação a objetivos, como fazer uma compra, uma viagem”, diz.

Segurança é fundamental

O Tesouro Reserva surge como uma resposta direta a um problema estrutural do investidor de baixa renda e do iniciante, que não é buscar alta rentabilidade, mas conseguir guardar dinheiro com previsibilidade e sem fricção, afirma Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest. “A lógica do produto parte de um ponto simples: a maioria das pessoas desiste de investir não por falta de retorno, mas por insegurança”, diz. Ver o saldo oscilar para baixo, mesmo que temporariamente, gera desconfiança e rompe o hábito antes que ele se forme. “Ao eliminar a marcação a mercado e oferecer uma experiência de saldo estável, o Tesouro Reserva tenta resolver essa barreira psicológica que sempre afastou o pequeno investidor dos títulos públicos tradicionais”, explica.

Continua depois da publicidade

Para Patrus, na prática, o produto se aproxima da experiência da poupança e das caixinhas digitais, mas com uma estrutura mais direta e transparente. “Ele desloca o Tesouro Direto de um ambiente percebido como técnico para um uso cotidiano, quase como uma extensão da conta corrente, só que com lógica de investimento”, diz. “Quanto menos decisões o investidor precisa tomar, maior a chance de ele repetir o comportamento de poupar”, acrescenta.

Trilho de educação

O Tesouro Reserva funciona também como um trilho inicial de educação financeira, pois permite que o investidor ganhe confiança antes de ser exposto à complexidade de outros investimentos. Além disso, abre espaço para que fintechs e startups construam experiências em cima dessa base, automatizando o hábito de poupar e integrando a reserva financeira ao dia a dia. “Mais do que um novo título, o Tesouro Reserva representa uma tentativa de transformar o ato de guardar dinheiro em algo simples, previsível e acessível, reduzindo a distância entre intenção e prática”.

O Tesouro Reserva aparece como uma evolução natural da estratégia de democratização do investimento no Brasil ao atacar três fragilidades históricas enfrentadas pelo investidor de menor renda: baixa rentabilidade, falta de transparência e dependência excessiva de produtos bancários automáticos, diz Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos. A principal vantagem está no fato de se tratar de um título público federal, com risco soberano, regras claras de liquidez e formação de preço diária, o que reduz significativamente as incertezas que existem em alternativas como poupança, fundos conservadores e caixinhas digitais. “Enquanto a poupança tem rendimento estruturalmente limitado e os fundos costumam embutir taxas que corroem o retorno, o Tesouro Reserva tende a entregar uma remuneração mais eficiente justamente por eliminar parte da intermediação e dos custos ocultos”, afirma.

Continua depois da publicidade

Ao ser acessível, simples e competitivo, ele também pressiona o sistema financeiro a rever produtos de baixa eficiência, como caixinhas e fundos excessivamente conservadores, acredita Araújo. “No contexto atual, o Tesouro Direto reforça seu papel não apenas como financiador do Estado, mas como uma ferramenta concreta de inclusão financeira, oferecendo ao investidor de menor renda mais retorno, mais clareza e mais controle sobre o próprio dinheiro”, afirma.



Fonte

Redação

Share
Published by
Redação

Recent Posts

Do Wattpad pro topo: o romance que virou #1 no Prime Video (e ninguém viu chegando)

“Love Me, Love Me” coloca June em Milão, na Itália, quando ela decide mudar-se para…

26 minutos ago

BlaBlaCar lança promoção de Carnaval com passagens de ônibus a partir de R$ 29

Plataforma oferece descontos de até 70% em mais de 1.200 rotas rodoviárias em todas as…

33 minutos ago

Os arquivos Epstein e o mundo oculto de uma elite sem responsabilidade

WASHINGTON — Jornalistas e pesquisadores passarão os próximos meses vasculhando os arquivos de Epstein em…

51 minutos ago

Namorada de Lucas Pinheiro, atriz Isadora Cruz comemora pódio do brasileiro nos Jogos de Inverno

Leia também• É ouro! Lucas Pinheiro conquista 1ª medalha do Brasil na história dos Jogos…

1 hora ago

Humano, triste e brilhante: o filme premiado da Netflix que é um tesouro escondido

A luta pela vida exige calma. Um passo de cada vez, cálculo, método, tudo o…

1 hora ago

Em Pernambuco, Galo da Madrugada projeta 2,5 milhões de foliões

O desfile do Galo da Madrugada, realizado neste sábado (14), no Centro do Recife, abre…

2 horas ago