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Novo filme de Danny Boyle na HBO Max vai te deixar sem fôlego até a última cena

Filmes que, de uma forma ou de outra, tratam do homem, sua interação com o ambiente e as consequências mais deletérias desse fenômeno — o apocalipse, no pior cenário — já se tornaram o clichê por excelência do cinema mundial hoje. Parece que diretores de todas as colorações ideológicas, que professam fés as mais variadas, com visões de mundo mesmo incoerentes com o ofício de que tiram o sustento são de quando em quando acometidos de uma descrença na vida que redunda em trabalhos de teor escatológico em maior ou menor grau. Danny Boyle é dos poucos cineastas a serem capazes de subverter a pletora de lugares-comuns que sufocam tais enredos, embora seja precipitado se considerar esta uma moda superada. Boyle tem intimidade com o fim do mundo, e em “Extermínio: A Evolução” propõe um recorte audacioso sobre os traumas que vem afligindo a humanidade e de que forma o pavor do futuro nos arrebata. Encontram-se no leito de seu novo trabalho os mesmos elementos que transformaram o drama “Stalker” (1979), dirigido por Andrei Tarkovski (1932-1986), ou o tragicômico “Dr. Fantástico” (1964), levado à tela por Stanley Kubrick (1928-1999), em clássicos não só do gênero nem do cinema, mas entre todas as manifestações artísticas que levantam as tão necessárias incertezas quanto a nosso destino como espécie. Junto com o roteirista Alex Garland, responsável por “Aniquilação” (2018) e “Ex-Machina: Instinto Artificial” (2014), duas das melhores produções a tratar do assunto, o diretor volta a colocar o dedo na ferida do talento para a autodestruição do homo sapiens sapiens, que faz questão de devastar tudo quanto pode, até experimentar do próprio veneno.

Passaram-se 23 anos, não 28, a exemplo do que sugere o título original, mas “Extermínio: A Evolução” conserva a aura sangrenta e diabólica de  “Extermínio” (2002), sem escorar-se no sentimento nostálgico. Agora, Boyle admite pretender inaugurar uma trilogia, a ser continuada com “Extermínio: O Templo dos Ossos”, cuja estreia está prevista para 2026 a cargo de Nia DaCosta, sublinhando, como não poderia ser de outra forma, os vícios das relações humanas. Na abertura, crianças das Terras Altas da Escócia assistem a um episódio de “Teletubbies” no momento em que uma horda de zumbis invade o quarto em que estão, tornando concreta a ideia de massacre que aquela atmosfera evoca. O diretor de fotografia Anthony Dod Mantle, também nos créditos de “Anticristo” (2009) e “Dogville” (2003), ambos de Lars von Trier, lança mão de vermelhos xaroposos para realçar a carnificina, usando o gore com justeza. Um garoto corre até a paróquia, implora pelo socorro do padre, mas num instante este também é devorado, cumprindo-se uma velha profecia. Ardilosamente (ou nem tanto), Boyle tece uma metáfora que junta religião e determinismo geográfico, pondo no desfecho a natureza de sua epifania. 

Agora, o vírus da raiva não é o pior. A história move-se de Londres para um vilarejo da Nortúmbria, onde os sobreviventes vivem isolados, talvez à espera de um messias. “Extermínio: A Evolução” passa a um drama intimista ao observar Spike e Jamie, pai e filho tomando providências para a primeira caçada, um rito de passagem para os garotos. Spike personifica a figura do mártir crístico, cuidando de Isla, a mãe doente, enquanto tenta descobrir uma saída para as constantes inundações que flagelam seu povo, também assolados por mortos-vivos obesos arrastando-se pelo chão. Boyle encaixa um ser fantástico como condutor das transformações radicais que chacoalham o lugarejo, subitamente tomado não por água, mas por um incêndio assustador. É nesse ponto que as performances de Alfie Williams, Aaron Taylor-Johnson e Jodie Comer convergem, abrindo alas para o Doutor Kelson de Ralph Fiennes, numa aparição tardia e, no entanto, fundamental. Em menos de duas horas, o monstruoso no gênero humano aflora em toda a sua potência, e quiçá algum dia possamos crer que este filme admirável e perturbador seja mesmo só entretenimento.

Filme:
Extermínio: A Evolução

Diretor:

Danny Boyle

Ano:
2025

Gênero:
Drama/Terror/Thriller

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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