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No Prime Video: um poeta à beira da loucura vira detetive e caça um serial killer na Estônia de 1894

Hábil em esgrimir acerca de traumas individuais que nascem de tragédias coletivas, o estoniano Jaak Kilmi construiu uma carreira marcada pelo olhar crítico e irônico sobre a história do Leste Europeu. Mundialmente conhecido pelo documentário “Disco e a Guerra Atômica” (2009), no qual revisita a Guerra Fria (1947-1991) a partir da influência da cultura pop ocidental, Kilmi também ganhou destaque como produtor e roteirista em projetos que investigam memória, infância e autoritarismo. Para ele, o humor presta-se a ferramenta política, sem anular a carga histórica do que é tratado. “A Sombra”,  porém, é seu trabalho mais introspectivo — e lutuoso. Uma cinebiografia com cara de ficção. 

Um poeta-detetive

Juhan Liiv (1864-1913) era um homem nada convencional. Um dos mais famosos poetas da Estônia, Liiv finalmente alcançou o sucesso em 1894 quando “A Sombra” seu primeiro conto, foi publicado. Kilmi volta a esse personagem esquecido (e um tanto mitológico) do passado de seu país, iluminando seu caminho acidentado, trajetória que abrange uma seção ímpar. Precisamente em 1894, Liiv é internado num hospital psiquiátrico em Tartu, e pelos sete anos seguintes não se sabe a seu respeito. Esse é o gancho de que o roteirista Indrek Hargla precisa a fim de pintar Liiv como um espírito nobre, que não aceita os desmandos de Alexandre 3º (1845-1894) e seu filho, Nicolau 2º (1868-1918), o novo soberano da Estônia, incorporada pelo Império Russo (1721-1917). Mas a política é só o pano de fundo para a investigação de um crime.

À solta em Tartu, um assassino em série espalha pânico entre os moradores e, claro, Liiv acha que é o homem certo para detê-lo. Kilmi concentra boa parte da ação na taberna de Kõiv, o personagem de Ago Anderson, que assiste à debacle mental do poeta e detetive autoproclamado vendendo cada vez mais koduõlu, a cerveja doce típica da Estônia, a uma freguesia paralisada pelo medo. Gradualmente, Pääru Oja costura os dois núcleos, levando a trama para o thriller que a primeira cena já insinuava. Ao final dos 92 minutos, vê-se que Kilmi é bem-sucedido ao misturar realidade, fantasia e mesmo delírio, num efeito muito semelhante — ainda que na direção oposta — ao que o dinamarquês Bille August consegue com “Um Homem de Sorte” (2018).

Filme:
A Sombra

Diretor:

Jaak Kilmi

Ano:
2024

Gênero:
Mistério/Terror/Thriller

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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