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No Prime Video: um daqueles filmes para ver e rever sempre que quisermos deixar a vida mais leve

Viver é uma constante metamorfose e quanto mais cedo se entende que é inútil lutar contra seus desígnios e que não é razoável querer vedar a correnteza de eventos que sempre hão de suceder-se, mais chance de a felicidade nos sorrir. O mundo era ainda bem maior há 160 anos, tempo em que o homem era muito mais refém das circunstâncias, nunca alcançava os fatos e saciava-se com a bênção da ignorância. Entre 12 de abril de 1861 e 9 de abril de 1865, a Guerra Civil Americana incendiou os Estados Unidos e foi sem dúvida um novo marco de diretrizes para a fundação de um país independente e adepto da democracia. Tragédias pessoais acumularam-se no processo, e “Quando os Sinos Tocam” baseia-se nessa evidência lamentável. Misturando sentimentos, Joshua Enck proporciona ao espectador reflexões necessárias sobre a vida, a morte e a cornucópia de reveses entre esses dois momentos. E um personagem nada comum encarna o raciocínio.

Enredos com um fundo moralizante, de onde espera-se que o público tire lições para sua vida — por mais que todos saibamos que cada um sente suas próprias dores sozinho, ainda que diante do mundo inteiro —, fazem relativo sucesso justamente graças à forma como de uma premissa individual chega-se, guardadas as medidas das coisas, a inferências universais, cuja potência vai muito além do óbvio. Enck e o corroteirista Jeff Bender miram essa ideia ao esmiuçar a biografia de Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882), um homem que precisou fazer um balanço de sua jornada e reavivar sua fé depois de uma crise existencial. O diretor brinca com as emoções do público, primeiro esfregando a felicidade de Longfellow e sua família na cara de quem assiste, e é difícil acreditar que alguma coisa possa dar cabo daquele Éden. Especula-se que a Guerra de Secessão, quando o Sul escravagista e o Norte, a favor da abolição, se enfrentaram, é o que vai arrasar com a harmonia celestial da família, mas a falseta que o destino lhes prega é especialmente cruel.

Charley, o filho mais de Longfellow e Fanny, alista-se nas fileiras dos abolicionistas, outro foco de tensão na narrativa central, porém o verdadeiro mal-estar está mesmo na ruptura compulsória e definitiva do segmento anterior. O filme espraia-se pelos questionamentos filosóficos de Longfellow, tido como o “poeta americano”, acerca na onipresença do mal junto aos seres humanos, e o porquê de Deus não tomar parte — ou não fazê-lo como deveria e como pensamos ser justo. O debate só tira o sono de imaturos que não admitem o conceito de livre-arbítrio ou do poder ambivalente das contingências, mas Enck acha uma maneira de despistar o tédio valorizando o sofrimento estoico de Longfellow. Stephen Atherholt atravessa a vida do poeta que se vê sem sua poesia edulcorando a verdade a respeito da dor de Longfellow, que nunca mais foi o mesmo, ao passo que também defende a arte como cura para o morbo mais resistente e martirizador. Poesia nenhuma é mais bela que isso.

Filme:
Quando os Sinos Tocam

Diretor:

Joshua Enck

Ano:
2022

Gênero:
Biografia/Drama/Guerra

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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