Para quem crê, Deus manifesta-se como um sopro de esperança num deserto de angústias. Amizades verdadeiras são uma das maiores bênçãos a que alguém pode aspirar na vida, uma força poderosa o bastante para refazer almas em desalinho por dores do passado e curar. Um grupo de mulheres católicas da Irlanda de 1967 reconhece o sagrado no vínculo que mantêm, e assim “O Clube dos Milagres” vai tomando forma. O irlandês Thaddeus O’Sullivan prima pela delicadeza, num registro sobretudo humano de pequenezas e ressentimentos que custam a desaparecer, insinuando que talvez haja algum assunto nebuloso para vir à superfície. O roteiro de Jimmy Smallhorne, Joshua D. Maurer e Timothy Prager equilibra drama e momentos de humor suave a fim de bater na tecla do remorso e do perdão como agentes de cura, temas obrigatórios em filmes sobre desígnios superiores, muito além da vã compreensão humana e de seu imediatismo animalesco.
O subúrbio operário de Dublin reúne figuras quase pictóricas como Lily Fox e Eileen Dunne, amigas há seis décadas que lideram uma comunidade unida, porém cheia de suas vergonhas e de histórias mal contadas. O’Sullivan abre seu filme mostrando a octogenária Lily fazendo uma prece emocionada no lugar onde o filho, Declan, morrera por afogamento em 1927, aos dezenove anos, e daí parte para registros mais prosaicos de seu cotidiano. Ela é casada com Tommy,um homemendurecido pelas adversidades e um tanto avesso a interações metafísicas, mas o casamento, ainda assim, nunca perigou. Matrimônios, aliás, são um dos fios narrativos de “O Clube dos Milagres”, e o diretor aprofunda-se nas agruras da vida a dois mirando também Eileen e Dolly Hennessy, muitos anos mais nova que as outras duas e mãe de uma criança com limitações cognitivas. As três sonham ir ao Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, na França, o famoso ponto de encontro de peregrinos marianos, pedir para que a santa rogue por elas. E, claro, conceda-lhes as graças de que tanto precisam.
Talvez quem mais careça de uma mãozinha do Altíssimo seja Eileen, que desconfia estar com um tumor na mama — e é ela quem mais se empenha também. Há uma chance real de elas seguirem para os Altos Pireneus franceses, já que Dermot, o pároco vivido por Mark O’Halloran, oferece três passagens para as vencedoras do show de talentos da igreja, proposição repleta de entrelinhas e que o diretor torna especialmente saborosa ao explicar como Lily, Eileen e Dolly ganham, mesmo levando apenas o segundo lugar e uma peça de toucinho. Tudo estaria numa paz celestial não fosse a chegada de Chrissie Ahearn para o funeral da mãe, Maureen, passados mais de trinta anos sem voltar àquela vizinhança. Chrissie reacende o desprezo e a ojeriza das mais velhas, mas Dolly afeiçoa-se a ela, sem ao menos suspeitar do motivo de tanta frieza.
A viagem acontece, depois do enterro de Maureen, e junto com ela os acertos de contas. Não há nenhum lance que não se possa prever, mas o enredo vibra numa outra frequência. O’Sullivan explora a humanidade do quarteto de protagonistas, mais e mais entrosadas, lidando com suas diferenças ao passo que também são capazes de reconhecer que têm pontos em comum. Lembranças vergonhosas vêm à baila, e Maggie Smith (1934-2024) não necessita de muito esforço para convencer o público de que sua Lily não é exatamente a velhinha imaculada que parece. Num de seus últimos trabalhos, Smith arrasta Kathy Bates e Agnes O’Casey, mas Laura Linney mantém seu próprio ritmo, encontrando o tom perfeito para justificar o afastamento de Chrissie. A verdade é que, como ela, Lily, Eileen e Dolly carregam dores agudas demais, por menos que admitam. E que saber aguentá-las — e aguentar as dos outros — é que é o grande milagre da vida.
Filme:
O Clube dos Milagres
Diretor:
Thaddeus O’Sullivan
Ano:
2023
Gênero:
Comédia/Drama
Avaliação:
8/10
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Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★
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