Dirigido por Irwin Winkler, com Kevin Kline, Ashley Judd, Jonathan Pryce e Kevin McNally, “De-Lovely — Vidas e Amores de Cole Porter” começa num teatro. Porter, já à beira da morte, é conduzido por Gabe para rever a própria vida como se assistisse a um espetáculo armado com lembranças, cortinas, música e culpa. Dali saem Paris, Linda e os primeiros sinais de um casamento que nunca coube direito no brilho das festas. Tudo começa no palco.
Paris, palco e casamento
A escolha dá ao filme um ar vistoso, mas também um leve desconforto. Quando Cole conhece Linda em Paris, a cena já vem moldada como número de época, com o romance surgindo menos como impulso imediato do que como apresentação calculada, quase como se os dois já soubessem que aquele encontro seria reencenado mais tarde diante de plateia e refletores. Gabe não some nunca. Winkler insiste nesse formato enquanto a história avança da Europa para a “Broadway”, e a repetição ajuda a unir tempos e lugares sem tentar vender naturalidade onde só existe lembrança montada.
O ponto mais forte está no casamento entre Cole e Linda, porque o acordo entre os dois aparece logo de saída e nunca é tratado como detalhe. Linda sabe da atração de Cole por homens, aceita isso desde o começo e transforma cada estreia importante num pequeno ritual íntimo, dando a ele uma cigarreira Cartier como quem oferece afeto, incentivo e um lembrete silencioso do vínculo entre ambos. Ela sabe onde está. Entre Paris, Veneza e os palcos da “Broadway”, Ashley Judd constrói uma mulher firme, elegante e nada ingênua, enquanto Kevin Kline segura em Cole uma mistura de charme, vaidade e inquietação que impede o personagem de virar estátua de museu.
Hollywood, escândalo e perda
Quando a ação se desloca para Hollywood, esse pacto começa a se romper de forma mais áspera e mais pública. As aventuras masculinas de Cole deixam o terreno da discrição, passam a gerar escândalo e chantagem, e Linda deixa de ser apenas a companheira de festas para virar a mulher exposta por um homem que ela tentou compreender durante anos, mesmo quando já sabia que a convivência cobrava caro demais. A dor aparece sem enfeite. O peso cresce ainda mais porque essa fase vem depois do aborto espontâneo do casal, uma perda que muda a atmosfera da relação e corrói o luxo daqueles ambientes noturnos, quartos caros e corredores abafados.
As canções de Porter, cantadas por astros pop e espalhadas por festas, salões e palcos requintados, muitas vezes dominam a cena com mais força do que o drama que deveria costurar tudo. Há momentos em que “De-Lovely” parece dividido entre a revista musical sofisticada, cheia de brilho e acabamento, e a vida privada de um homem cercado por encontros clandestinos, desgaste conjugal e um teatro onde o passado nunca para de ser encenado diante de Gabe. Nem tudo encaixa. Mas essa irregularidade acaba expondo um dado importante, o de que o verniz público de Porter sempre conviveu com uma intimidade mais áspera, feita de ferida, silêncio e humilhação.
A reta final ganha mais peso quando o filme afrouxa o gosto pelo ornamento e deixa a dor física entrar em primeiro plano. O acidente a cavalo, a volta de Linda, a morte dela e depois a amputação da perna arrancam Porter dos salões e o colocam mais perto de um espaço menos protegido por lustres, figurinos e aplausos, onde Kline trabalha cansaço, remorso e fragilidade com uma secura que faz diferença. A música continua ali. Só que agora Paris, Hollywood e a “Broadway” parecem menores do que aquele teatro do início, onde um homem velho mede a própria vida enquanto segura uma cigarreira e encara o veludo escuro sob a luz do palco.
Filme:
De-Lovely — Vidas e Amores de Cole Porter
Diretor:
Irwin Winkler
Ano:
2004
Gênero:
Biografia/Drama/Musical
Avaliação:
8/10
1
1
Amanda Silva
★★★★★★★★★★

