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No Mubi: a obra-prima de Krzysztof Kieślowski premiada no Festival de Berlim

Segundo filme da Trilogia das Cores, de Krzysztof Kieślowski, “A Igualdade é Branca” narra a história de Karol (Zbigniew Zamachowski), um cabeleireiro polonês que vive em Paris e é casado com Dominique (Julie Delpy). No entanto, seu casamento desmorona porque a relação não foi consumada desde a troca de alianças. É que Karol não consegue ter uma ereção, deixando a esposa frustrada e brava. Ela exige o divórcio e fica com todos os bens dele, deixando-o na rua, sem até mesmo o passaporte para retornar à Polônia.

Na sarjeta, ele conhece Mikołaj (Janusz Gajos), que se torna um grande amigo e o ajuda a retornar ao seu país. Em um tom quase humorístico, a jornada humilhante do imigrante Karol, empobrecido em Paris, e seu retorno vitorioso à Varsóvia acontecem de forma inusitada, conforme ele planeja e executa uma engenhosa vingança contra Dominique, por quem ainda é apaixonado.

Kieślowski constrói uma parábola sobre igualdade, mas em termos de reciprocidade, já que a ética e a moral não são levadas em consideração muito frequentemente por seus personagens. A intenção de Karol é fazer com que Dominique se sinta tão pequena, humilhada e vulnerável quanto ele. No entanto, o que o cineasta propõe aqui é explicar, através de uma brincadeira amarga, as assimetrias entre o Leste e o Oeste europeu pós-queda do Muro de Berlim. O emigrante está humilhado e seu recurso para recuperar a dignidade é uma “malandragem”. Na Europa, a igualdade é retórica, segundo Kieślowski.

Todos os filmes de sua Trilogia das Cores — que, a propósito, foi seu último trabalho antes de sua morte — tecem críticas à Europa em termos políticos. Se em “A Liberdade é Azul” ele utilizou o tom trágico para falar da busca pela identidade da França, aqui é para mostrar que a busca por justiça e igualdade muitas vezes implica perder a humanidade e a moralidade. O sucesso pessoal é, muitas vezes, alcançado com trapaça, manipulação e vingança. Kieślowski mais ri do liberalismo do que o cultua. Karol é um reflexo da Polônia depois da era comunista. O personagem lucra, manipula e explora a vulnerabilidade dos outros, aproveitando-se do mercado, que funciona como arena de uma competição desigual, não de justiça.

Enquanto isso, Dominique representa a França: privilegiada, impõe suas vontades, acusa, abandona, submete o imigrante a uma humilhação jurídica, bancária, cultural e burocrática. Há, claramente, um desequilíbrio de poder. Karol, ao comprar terras, tornar-se um empresário e “reconstruir” o muro da casa por querer que ele seja 4 cm mais alto, encarna a recuperação de poder e controle no capitalismo emergente de países como a Polônia. Kieślowski conclui, em “A Igualdade é Branca”, que a moralidade é fluida e o sucesso pode criar novos vazios e novas formas de desigualdade.

Filme:
A Igualdade é Branca

Diretor:

Krzysztof Kieślowski

Ano:
1994

Gênero:
Comédia/Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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