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Netflix reinventa Agatha Christie sem “estragar” o clássico: o mistério de 1929 que ganhou sangue novo

Netflix reinventa Agatha Christie sem “estragar” o clássico: o mistério de 1929 que ganhou sangue novo

Há muito tempo, episódios misteriosos e brutais são fetiche de que a cultura pop apropria-se com esmero. Passados cinquenta anos de sua morte, em 12 de janeiro de 1976, a britânica Agatha Christie (1890-1976) ainda serve de base para uma miríade de histórias que fisgam o público primeiro pelo olhar, depois pelo cérebro, e até pelo estômago, se se quiser, mas não pelos requintes da gastronomia. Baseado em “O Mistério dos Sete Relógios” (1929), o roteiro de Chibnall mantém o glamour da década de 1920 enquanto irriga suspeitas acerca de um misterioso homicídio durante uma festa na mansão de campo de Lady Eileen “Bundle” Brent, a jovem aristocrata que protagoniza a história. Tudo como sempre, mas com um verniz de novidade — e muita tecnologia.

A força do gênero

Chibnall prova que Christie ainda tem lenha para queimar. Leitores mais fiéis reconhecem de imediato o DNA da Rainha do Crime na tríade de episódios, todos, claro, ancorados no falso-verdadeiro das especulações. Depois que a brincadeira envolvendo os sete relógios do título degringola em tragédia, Bundle decide investigar por si mesma quem estaria por trás do assassinato, e até que saiba a identidade do autor, atravessa um cipoal de emoções e metamorfoses. Canônica, a personagem cumpre as inúmeras etapas da heroína-padrão, mexendo aqui e acolá nas estruturas conhecidas do whodunit. A narrativa movimenta-se por meio de cenas ora aceleradas, ora reflexivas, com muita margem para a exploração do fluxo de consciência de Bundle, capaz de tiradas pródigas em sarcasmo e crítica social.

Hercule Poirot que se cuide

Fazendo concessões ao pop, “O Mistério dos Sete Relógios” sabe como manter o suspense e, mais importante, a relevância dos enigmas, o que leva o público a querer ratificar suas desconfianças ou elaborar algumas novas hipóteses. Vencedora do BAFTA de Astro em Ascensão por “How to Have Sex” (2023), de Molly Manning Walker, Mia McKenna-Bruce performa bem nos diversos pelos quais Bundle passa, e um lance na iminência do encerramento, ao lado da Lady Caterham de Helena Bonham Carter, já valeria as três horas e meia de exibição. Figuras masculinas como o Gerry Wade interpretado por Corey Mylchreest também têm vez, mas tudo converge de maneira tão orgânica para McKenna-Bruce que até resta a sensação de que Agatha Christie criara Bundle pensando nela. Quem precisa de Hercule Poirot quando se tem uma mocinha cheia de viço como ela?


Série: Os Sete Relógios de Agatha Christie
Criação: Chris Chibnall
Ano: 2026
Gêneros: Drama, suspense, mistério
Nota: 8/10



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